top of page

Educação sexual na adolescência: como pais podem orientar, proteger e fortalecer o vínculo com os filhos

  • Paloma Garcia
  • 30 de set. de 2025
  • 29 min de leitura

É manhã de terça-feira. No carro, a caminho da escola, você respira fundo e decide tentar. “Filho… sobre sexo, sabe…” Ele revira os olhos, solta um “mãe, agora não” e enfia os fones de ouvido. A conversa morre no retrovisor.


Se você se reconhece nessa cena, ou teme que ela aconteça em breve, saiba: você não está só. Conversar com filhos sobre sexualidade é um dos maiores desafios da parentalidade atual. É uma travessia desconfortável para muitos adultos, que cresceram em contextos onde esse tema era tabu, cercado de vergonha, mitos e silêncios. Mas também é uma travessia possível e urgente. Porque, na ausência da sua voz, outras vozes falarão. E nem sempre com o cuidado que seu filho merece.


Falar cedo, com linguagem adequada, protege e fortalece vínculo. 


“Será que é cedo?” 

“E se eu errar?” 

“E se eu falar e incentivar algo que ele ainda nem pensava?”


Essas dúvidas são legítimas. Fazem parte da insegurança de quem ama e quer proteger. Mas quando evitamos o assunto por medo, não silenciamos a curiosidade: apenas transferimos a fonte de informação.


E quem ocupa esse espaço costuma ser a internet, os fóruns anônimos, os colegas desinformados, os vídeos sem filtro, os algoritmos que não se importam com o desenvolvimento emocional. A educação sexual precoce vai acontecer de qualquer forma. A questão é se ela será feita com presença afetiva e responsabilidade, ou com pressa, desinformação e risco.


Na ausência da sua voz, outras vozes falarão. Nem sempre com cuidado.

Organismos como a UNESCO (2018), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a American Psychological Association (APA) são claros: a educação sexual precoce e gradual é fator de proteção. Ela previne comportamentos de risco, fortalece a autoestima, reduz casos de violência sexual e melhora a qualidade do vínculo entre pais e filhos.


Em outras palavras: falar protege. Escutar salva.


Segundo o Banco Mundial (2023), o Brasil ainda registra 42,7 nascimentos por 1.000 adolescentes de 15 a 19 anos, índice muito acima da média latino-americana. Revisões recentes mostram também que adolescentes expostos precocemente à pornografia têm mais chance de iniciar a vida sexual antes dos 15 anos, com menor uso de preservativos, maior número de parceiros e maior risco de experiências traumáticas (BAUMEL et al., 2019).


Família conversa sobre educação sexual na adolescência em casa com acolhimento e vínculo

Por outro lado, quando há diálogo aberto e supervisão afetiva, os comportamentos de risco diminuem consideravelmente. Estudos brasileiros confirmam que a presença parental, mesmo diante do desconforto, continua sendo um dos maiores fatores de proteção emocional e sexual na adolescência (REIS GB et al., 2023). Isso não significa saber tudo. Significa estar disponível para escutar, orientar e acolher.


  1. Sexualidade na pré-adolescência: o início das grandes perguntas (9–12 anos)


Entre os 9 e 12 anos, a infância não acaba de repente, ela se transforma. É nessa fase, chamada de pré-adolescência, que o corpo começa a escrever frases complexas enquanto o cérebro ainda soletra vogais.


Meninos e meninas que até ontem brincavam de boneca, carrinho ou super-herói agora passam a se esconder para trocar de roupa, evitam o banho na frente dos pais e começam a se perceber diferentes.


Surgem pelos nas axilas, odor mais intenso, oleosidade na pele, crescimento testicular, broto mamário e oscilações de humor. A menarca pode chegar antes do esperado. A primeira ejaculação, silenciosa, costuma ser mantida em segredo.


Para muitos adultos, ela ainda é muito criança. Mas para a criança, essas mudanças são vividas com intensidade e muitas vezes em solidão. Compreender a sexualidade nessa etapa é compreender um corpo que já sinaliza a puberdade sem que a identidade psíquica esteja pronta para acompanhá-lo.


A pré-adolescência não é apenas biologia: é também cognição e emoção. O cérebro ainda tem um córtex pré-frontal imaturo, área responsável por planejar, avaliar riscos e regular impulsos, mas já opera com maior pensamento autorreferente. Surgem perguntas como: “o que pensam de mim?”, “sou estranho?”, “sou normal?”.


Vergonha, ambivalência, desejo de pertencimento e necessidade de privacidade emergem como sentimentos legítimos. Pais e mães precisam aprender a olhar além da ideia de que é cedo demais e reconhecer que sexualidade não começa com a primeira relação sexual. Ela começa no corpo, na mente e na forma como a criança percebe a si mesma.


1.1 Mudanças físicas da puberdade precoce


O início da puberdade é um fenômeno real, comum e muitas vezes mal compreendido. A chamada puberdade precoce em meninas pode começar já aos 9 anos, mesmo que a menstruação só se inicie aos 12 ou 13. Nos meninos, os sinais de puberdade precoce incluem o aparecimento da espermarca (primeira ejaculação), o aumento testicular, a alteração da voz e o surgimento de pelos pubianos antes dos 12 anos.


Adolescente com acne refletindo mudanças do corpo na puberdade e impacto na autoestima

Essas transformações físicas não acontecem isoladamente. Elas coexistem com um cérebro que ainda busca compreender emoções complexas e com um ambiente social que ora infantiliza, ora adultiza a criança. Esse descompasso pode gerar ansiedade, vergonha ou isolamento, se não for acompanhado com escuta e nomeação respeitosa.


📌 Impacto emocional esperado


É comum que surjam aumento da vergonha, pedido de privacidade e até certa irritabilidade. Esse pedido por mais espaço não deve ser interpretado como rejeição ou afastamento afetivo. Na verdade, é um sinal de maturidade em construção e de necessidade de reorganizar o vínculo com os pais.


Reconhecer essa transição permite que os adultos nomeiem sem sexualizar, validem sem invadir e preparem o terreno para diálogos futuros. Esse cuidado não apenas apoia o desenvolvimento físico, mas também fortalece a saúde emocional, prevenindo sentimentos de inadequação e promovendo um vínculo de confiança.


1.2 Curiosidade sexual e masturbação


A masturbação na pré-adolescência é normal. Ela não é novidade, apenas costuma ser invisível aos olhos dos adultos. Para muitos meninos e meninas, tocar o próprio corpo é uma forma de aliviar tensão emocional, curiosidade e até tédio, não apenas um ato movido por desejo sexual.


Fantasias surgem espontaneamente, assim como perguntas desconcertantes sobre diferenças anatômicas ou prazer. No entanto, por falta de vocabulário emocional e ausência de espaço seguro, esse comportamento acaba envolto em silêncio, medo ou vergonha.


💬 Perguntas reais de pré-adolescentes


“Por que é gostoso colocar a mão lá embaixo?” 

➡️ Porque nosso corpo tem partes sensíveis que dão prazer quando tocamos. Isso é natural.


“É pecado se tocar?” 

➡️ Não, não é pecado. É apenas uma forma de conhecer o próprio corpo.


“Menina também se masturba?” 

➡️ Sim. Tanto meninas quanto meninos podem sentir prazer explorando o próprio corpo.


🎙️ Resposta parental: “Você pode sentir prazer no próprio corpo. Faça isso em privacidade, com higiene, sem se machucar. E se tiver dúvidas, pode falar comigo.”


Esse tipo de resposta é curta, clara e dá ao adolescente três mensagens essenciais: não há culpa, há limites de cuidado e existe abertura para diálogo.


Curiosidade saudável x Sinais de alerta (AAP; KELLOGG, 2009)

Curiosidade saudável

Sinais de alerta

Masturbação ocasional em privacidade

Masturbação compulsiva ou em público

Perguntas sobre corpo e diferenças

Comportamento sexual agressivo com outros

Fantasias e brincadeiras de faz de conta

Uso repetitivo de pornografia precoce

Exposição acidental a pornografia

Orientação: não brigue. Nomeie o acontecido, pergunte como ele se sentiu e convide para conversar.


🌱 Como os adultos podem ajudar


Quando os adultos reagem com susto, reprovação ou vergonha, reforçam a ideia de que prazer é errado. Quando nomeiam com respeito, sem estimular e sem punir, oferecem um terreno emocional seguro para o desenvolvimento da autonomia e da autoestima sexual.


👉 A tarefa não é “incentivar”, mas acompanhar. A pré-adolescência é o momento em que perguntas surgem, e cada resposta cuidadosa abre espaço para confiança e vínculo duradouros.


1.3 Educação sexual antes da adolescência: preparar o terreno com respeito


A educação sexual antes da adolescência não começa quando o filho já está namorando. Ela começa muito antes, nos gestos cotidianos, quando os pais ensinam que “pênis” e “vulva” são nomes científicos, que o corpo merece respeito e que não se deve rir de quem é diferente.


Educação sexual não é erotização precoce. É alfabetização corporal, emocional e ética. Conversas sobre consentimento, higiene, privacidade e diversidade são sementes que precisam ser plantadas entre os 9 e 12 anos, fase em que a criança já pergunta mais, mas ainda confia no adulto como principal referência.


A linguagem deve ser clara, direta e adequada à idade, sem infantilizar a informação.


🎙️ Mini-roteiro: cinco pequenas conversas entre 9 e 12 anos

Essas microconversas, distribuídas ao longo do cotidiano, constroem uma base sólida para a adolescência.


  1. Nomes científicos 

    ➡️ “O nome dessa parte do corpo é pênis.” 

    ➡️ “O nome dessa parte é vulva.” 

    Usar os termos corretos evita tabus, dá vocabulário e protege contra abusos.


  2. Consentimento 

    ➡️ “Seu corpo é seu. Ninguém pode tocar sem a sua permissão.” 

    Ensina a diferença entre afeto saudável e invasão.


  3. Privacidade no banheiro e no corpo 

    ➡️ “Você pode pedir privacidade. Isso é sinal de crescimento, não de afastamento.” 

    Esse pedido é maturidade em construção, não rejeição afetiva.


  4. Piadas sobre corpo 

    ➡️ “O corpo nunca deve ser motivo de piada. Nem o seu, nem o de ninguém.”

     Constrói respeito e reduz vergonha.


  5. Segredo x surpresa segura 

    ➡️ “Surpresa é temporária e traz alegria. Segredo sobre corpo ou toque que causa medo precisa ser contado a um adulto de confiança.” 

    Diferenciar segredo e surpresa é chave para prevenção de abuso.


📌 Exemplos de frases simples e potentes


✅ “Seu corpo é seu. Ninguém pode tocar sem sua permissão.” 

✅ “É normal ter curiosidade. Sempre que quiser perguntar, estou aqui.” 

✅ “Eu posso não saber tudo, mas vou buscar com você.”


Essas frases são como âncoras emocionais: quanto mais repetidas no cotidiano, mais criam segurança e vínculo.


A sexualidade não se constrói em uma conversa única, mas em respostas curtas, repetidas e consistentes. O problema não é não saber responder. O risco está em não deixar que a pergunta exista. Preparar o terreno com respeito é criar uma base emocional sólida para os dilemas maiores que virão na adolescência.


  1. Sexualidade na adolescência: identidade, desejo e vínculo (13–18 anos)


A adolescência não marca o começo da sexualidade, marca o seu aprofundamento. O que antes era intuição, desconforto e curiosidade agora se amplia em desejo, identidade, comparação e vínculo.


A sexualidade adolescente é plural, silenciosa, simbólica. Não cabe em uma pergunta invasiva nem em um único discurso sobre certo e errado. Ela se desenvolve no corpo que muda, no desejo que inquieta, na vergonha que aparece sem ser chamada e nas perguntas que os adolescentes ainda não conseguem verbalizar.


Neste momento da vida, o adolescente está tentando entender quem é, o que sente, por quem sente e o que o seu corpo está lhe dizendo. Reduzir essa experiência a sexo é empobrecer algo que é profundamente humano e relacional.


2.1 Sexualidade não é só sexo: como ampliar a conversa sem pular etapas


A diferença entre sexo e sexualidade é fundamental para compreender a adolescência. Muitas vezes, reduzimos a sexualidade ao ato sexual, mas ela é muito mais ampla: envolve corpo, afeto, vínculos, valores e cultura.


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2022), sexualidade é uma dimensão estruturante da vida humana, que se expressa de maneira contínua ao longo do desenvolvimento. Isso significa que a sexualidade não se limita à genitalidade, mas se manifesta em como o adolescente percebe o próprio corpo, constrói vínculos, experimenta o desejo, expressa emoções e se posiciona na sociedade.


👉 Quando os adultos falam apenas de riscos (gravidez, ISTs, pornografia) sem incluir afeto, prazer, autoestima corporal, respeito e consentimento, criam uma visão fragmentada.


É como ensinar alguém a dirigir falando apenas de acidentes.

Ampliar a visão de sexualidade é dar ao adolescente vocabulário emocional e cultural para compreender o próprio desejo sem reduzi-lo ao ato sexual. É mostrar que sexualidade não é só sobre fazer, mas sobre ser, sentir e se relacionar.



2.2 Desenvolvimento biopsicossocial da sexualidade


A vivência da sexualidade adolescente resulta da interação entre corpo, mente, emoções e sociedade. Essa é a essência do modelo biopsicossocial do desenvolvimento humano, e compreender cada dimensão ajuda famílias a apoiarem seus filhos com mais clareza e empatia.


🔹 Dimensão biológica


  • A puberdade ativa mudanças hormonais (testosterona, estrogênio, progesterona).

  • Essas transformações provocam o surgimento dos caracteres sexuais secundários: mamas, pelos, mudanças de voz, massa muscular.

  • O sistema nervoso central também é impactado, intensificando impulsividade, sensibilidade emocional e reatividade.


📌 Ponte de conversa: O que você tem notado no seu corpo e como isso te faz se sentir?


🔹 Dimensão cognitiva


  • A adolescência marca a transição para o pensamento abstrato (Piaget, operações formais).

  • Os jovens conseguem se imaginar no futuro, ponderar riscos e construir hipóteses.

  • Apesar dessa ampliação, a imaturidade do córtex pré-frontal fragiliza o julgamento emocional: pensam em tudo, mas ainda agem por impulso.


📌 Ponte de conversa: Quando você pensa no futuro, o que te anima e o que te preocupa?


🔹 Dimensão emocional


  • A sexualidade ativa emoções contraditórias: vergonha, ansiedade, euforia, medo da rejeição, culpa e desejo.

  • O autoconceito sexual começa a ser formado, baseado em como o adolescente se percebe e em como acredita ser percebido pelos outros.

  • A autoestima corporal na adolescência é instável e pode levá-los a ultrapassar os próprios limites na tentativa de se sentirem aceitos.


📌 Ponte de conversa: Em situações de rejeição, qual cuidado te ajuda a voltar ao centro?


🔹 Dimensão social


  • O grupo de pares ganha protagonismo, tornando-se referência para valores, experimentações e validações.

  • Redes sociais como TikTok e Instagram funcionam como espaços de flerte, comparação e performance.

  • A sexualização precoce nas redes sociais acelera a comparação estética (UHLS; ELLISON; SUBRAHMANYAM, 2017), enquanto estudos mostram que adolescentes buscam informações sexuais em diferentes fontes (SILVA et al., 2024)


📌 Ponte de conversa: Quais contas ou perfis te fazem mal? O que podemos silenciar ou deixar de seguir?


2.3 Expressões da sexualidade adolescente


A sexualidade na adolescência raramente começa com a “primeira vez” concreta. Ela se manifesta antes, de forma silenciosa: no pensamento, na fantasia, no espelho. Pode aparecer no arrepio diante de um olhar, na dúvida sobre o próprio corpo, na primeira tentativa de flerte ou no emoji enviado com hesitação.


Muitos adolescentes vivem sua sexualidade antes de nomeá-la, e muitas vezes sem saber se aquilo é normal. As manifestações são múltiplas: masturbação adolescente, curiosidade por pornografia, sonhos eróticos, primeiras paixões, dúvidas sobre identidade e diferentes formas de sexualidade online.


Expressões silenciosas e como acolher sem invadir

Expressão silenciosa

Como acolher sem invadir

Interesse súbito por perfumes, roupas e aparência

Reconheça a busca por identidade. Pergunte: Como você gosta de se ver e como quer ser percebido?

Flerte presencial ou online

Normalize a curiosidade. Diga: É comum se interessar por alguém. O que você sente quando conversa ou troca mensagens?

Autodefinições fluidas como “sou nada”, “sou bi”, “tô só vendo”

Evite rotular. Reforce: Você não precisa ter pressa. Está tudo bem se conhecer aos poucos.

Isolamento repentino ou autodepreciação corporal

Acolha sem crítica. Diga: Percebo que você anda mais quieto. Quer conversar sobre como tem se sentido com seu corpo?

Selfies sensuais em redes sociais

Nomeie o comportamento sem julgamento: Vejo que você está explorando seu estilo. Como se sente com os comentários e curtidas?


Acolher expressões da sexualidade não significa estimular ou aprovar tudo, mas criar um espaço onde dúvidas possam existir sem medo. Escutar é sempre mais eficaz do que interrogar. Estar disponível, sem invadir, é a maior ferramenta de proteção emocional que pais podem oferecer.


  1. Puberdade, imagem corporal e saúde mental: o corpo como território emocional


A adolescência é um ponto de virada na vida de qualquer ser humano. Mas esse ponto raramente é nítido. Ele é vivido no corpo, que muda sem pedir permissão, e na psique, que tenta acompanhar com atraso a intensidade dessas transformações.


O corpo adolescente não é apenas um corpo em crescimento. Ele é um território emocional, palco de conflitos, desejos, inseguranças e descobertas. Para muitos adolescentes, o espelho se torna um inimigo silencioso, e a percepção de si passa a ser mediada por padrões estéticos inalcançáveis, julgamentos externos e silêncios familiares.


É nesse terreno sensível que a saúde mental pode florescer ou adoecer. A puberdade, embora biologicamente programada, não é emocionalmente neutra. Ela reorganiza o modo como o adolescente se vê, se sente e se posiciona no mundo.


Quando pais, escolas e profissionais minimizam ou ignoram esse processo, deixam o adolescente entregue a um corpo que ele ainda não entende, não controla e muitas vezes não aceita.


3.1 Autoconceito e autoestima em transformação


A puberdade chega sem pedir licença e, para muitos, não é vivida como um rito de passagem alegre, mas como uma ruptura silenciosa. Para o adolescente com baixa autoestima, cada mudança corporal pode se transformar em motivo de insegurança, dúvida ou vergonha.


O corpo muda antes que a mente esteja pronta para compreendê-lo. Essa defasagem entre o biológico e o emocional produz uma tensão constante entre “quem sou” e “como me veem”. O autoconceito (a imagem interna que o adolescente constrói de si) entra em conflito com as mudanças corporais visíveis e com as expectativas sociais. Já a autoestima oscila intensamente conforme os olhares alheios, os comentários nas redes sociais ou as comparações com os pares.


Adolescentes que amadurecem precocemente, como meninas que menstruam aos 9 anos ou meninos que desenvolvem músculos antes da média, frequentemente são tratados como adultos quando ainda se sentem crianças. Esse descompasso pode gerar baixa autoestima, vergonha e até um luto simbólico pela perda da infância.


Outros, que se desenvolvem mais tarde, enfrentam exclusão, bullying e ansiedade por “não acompanhar o grupo”. Ambos os cenários podem gerar sofrimento emocional profundo.


O corpo do adolescente muda mais rápido que a sua capacidade de compreendê-lo.

Pais que compreendem esse processo oferecem acolhimento em vez de pressão. O corpo não é só físico: é também experiência emocional e relacional, e precisa ser nomeado com respeito e escutado com empatia.


🌱 Tripé da autoestima


Para fortalecer a relação entre autoconceito e saúde emocional, pais podem apoiar seus filhos a desenvolver três pilares fundamentais:


  1. Autopercepção realista do corpo

    Encorajar o adolescente a observar mudanças como parte natural da vida, sem comparações tóxicas.


  2. Autocuidado prático 

    Estimular hábitos simples, como sono adequado, higiene, alimentação equilibrada e movimento físico, para que o jovem perceba que pode cuidar de si.


  3. Autocompaixão verbal 

    Ensinar a falar consigo mesmo com respeito e paciência. Substituir frases autocríticas por lembranças de dignidade e valor pessoal.


🗣️ Frases-modelo para os pais


“Seu corpo muda e isso pede tempo. Sua dignidade não depende de espelhos.”


“Você não precisa gostar de tudo em si agora, mas pode aprender a se respeitar nesse processo.”


“A comparação com os outros não mostra quem você é de verdade.”


👉 Reforçar o autoconceito e a autoestima nessa fase é criar a base emocional que sustenta escolhas seguras e relações saudáveis ao longo da adolescência.


3.2 Disforia, vergonha corporal e transtornos alimentares na puberdade


Nem toda insatisfação com o corpo é patológica, mas toda insatisfação persistente merece atenção. A adolescência, por si só, é um período de autocrítica intensa. No entanto, quando o desconforto se transforma em sofrimento constante, pode estar em curso um quadro de disforia corporal ou de transtornos alimentares na puberdade.


A disforia corporal é a experiência de estranhamento, vergonha ou rejeição do próprio corpo. Embora seja frequentemente associada à população trans, também pode atingir adolescentes cis, especialmente em contextos de comparação estética e de sexualização precoce nas redes sociais.


Adolescente observando o corpo no espelho, representando autoestima e imagem corporal

📊 Segundo o Ministério da Saúde (2023), os transtornos alimentares estão entre os três problemas de saúde mental mais diagnosticados em adolescentes brasileiros, com maior prevalência entre meninas de 12 a 16 anos. Pesquisas internacionais (Stice et al., 2017) confirmam que anorexia, bulimia e compulsão alimentar frequentemente surgem entre os 11 e 15 anos, sendo muitas vezes confundidos com “vaidade” ou “mania de dieta”. Na verdade, esses sintomas escondem sofrimento psíquico grave.


🚦 Escala semafórica para pais e cuidadores


Um recurso prático para diferenciar desconforto passageiro de sinais de alerta:


  • Verde: insatisfação ocasional com o corpo, sem prejuízo funcional.

    Exemplos: reclamar da acne, evitar uma foto em grupo.


  • Amarelo: insatisfação frequente, que já gera impacto social.

    Exemplos: evitar roupas sociais, não querer ir à praia ou a festas.


  • Vermelho: sinais graves de transtornos alimentares na puberdade ou de sofrimento intenso.

    Exemplos: restrição alimentar severa, vômitos autoinduzidos, autolesões, falas de ódio ao corpo. Nessa fase, é urgente procurar avaliação médica e psicológica especializada.


Diferenças essenciais


  • Disforia corporal: desconforto com partes do corpo ou com a aparência física em geral.

  • Disforia de gênero: sofrimento psíquico por viver em um corpo que não corresponde à identidade de gênero.


Compreender essa distinção evita confusões e ajuda na busca de apoio adequado.


🗣️ Como abordar


Pais não precisam de respostas perfeitas, mas de presença afetiva e clareza no acolhimento. Um roteiro simples pode abrir espaço para diálogo:


“Percebi que você está evitando fotos e refeições. Quero entender como tem sido para você e buscar ajuda se precisar. Estou aqui.”


Essa fala demonstra atenção, cuidado e disponibilidade sem julgamento, em sintonia com as recomendações de linguagem possível trabalhadas na Seção 6.


👉 Famílias que minimizam (“é só uma fase”) ou criticam (“você nunca está satisfeito”) reforçam o ciclo de vergonha. Já aquelas que nomeiam com cuidado e buscam ajuda especializada abrem a porta para restaurar a autoestima e a dignidade do adolescente.


💡 Dica complementar: A pressão estética e a comparação com padrões irreais também vêm dos influenciadores digitais. Veja o artigo Realidade distorcida: o impacto dos influenciadores digitais de IA na imagem corporal para entender como isso afeta adolescentes.


3.3 Gênero, corpo e adolescência


Para pais de adolescentes trans, não binários ou em questionamento, o corpo na puberdade pode se tornar um campo ainda mais complexo e desafiador. A vivência corporal na adolescência não ocorre em um vazio: ela é atravessada por estereótipos de gênero, expectativas sociais e discursos muitas vezes violentos.


Para meninas, a puberdade traz menstruação, seios, curvas e, junto, o peso de um olhar social que erotiza, julga e vigia. Muitas relatam sentir-se invadidas e confusas diante de comentários externos sobre seus corpos. Para meninos, a cobrança por virilidade, massa muscular e desempenho sexual pode gerar comparações tóxicas, vergonha do desenvolvimento tardio e até comportamentos de risco. Para adolescentes trans e não binários, a experiência é ainda mais sensível. A disforia de gênero, reconhecida pela APA e pela OMS, não é modismo nem rebeldia, mas sofrimento real diante do descompasso entre corpo e identidade.


“Quando a escuta vem antes da opinião, e o vínculo antes da regra, o adolescente encontra espaço para ser.”

O papel da família não é definir identidades, mas acompanhar com abertura, proteger contra violências e validar o processo de autoconhecimento. A adolescência é, por essência, um tempo de experimentação e fluidez, o que não significa desvio, mas desenvolvimento.


🏠 Política de nomes e pronomes em casa


Uma das formas mais concretas de apoio familiar é respeitar nomes e pronomes escolhidos pelo adolescente. Isso fortalece autoestima, reduz risco de depressão e transmite segurança.


  1. Pergunte como prefere ser chamada ou chamado. 

    Não presuma, confirme.


  2. Atualize apelidos e contatos em grupos da família. 

    Pequenos gestos comunicam grandes apoios.


  3. Corrija com cuidado parentes que errarem. 

    Em vez de repreensão dura, use frases como: “Na nossa casa usamos o nome que ele escolheu. Isso é importante para ele.”


⚠️ Microagressões comuns e alternativas acolhedoras

Microagressão ❌

Alternativa acolhedora ✅

“Você está confusa.”

“Você está se conhecendo e tem meu apoio.”

“Na minha época isso não existia.”

“Hoje falamos mais sobre isso, e eu quero aprender com você.”

“Enquanto morar na minha casa vai ser assim.”

“Aqui em casa você tem espaço para ser quem é, com respeito e cuidado.”

“Isso é só uma fase.”

“Não importa o tempo que dure, eu estarei aqui para ouvir você.”


Essas pequenas mudanças de linguagem ajudam a transformar a casa em um espaço de acolhimento ativo, reduzindo os impactos da exclusão social.


👉 Famílias que validam nomes, pronomes e processos contribuem diretamente para reduzir índices de ansiedade, depressão e até risco de suicídio entre adolescentes LGBTQIA+. Apoiar não é incentivar, é proteger.


4. Identidade, orientação e expressão: a pluralidade da experiência adolescente


Em um mundo cada vez mais plural, a adolescência tornou-se um espaço legítimo de investigação da identidade. Para muitos adultos, porém, essa pluralidade ainda provoca medo, resistência e confusão. Frases como “isso é só uma fase”, “essa geração inventa demais” ou “não quero incentivar” aparecem com frequência não por maldade, mas por insegurança.


A verdade é que adolescentes não esperam respostas prontas dos adultos. Eles esperam escuta, respeito e segurança emocional para poder existir.


A sexualidade na adolescência não é uma linha reta. Ela é feita de curvas, bifurcações, retornos e pausas. Alguns jovens já sabem desde cedo quem são e de quem gostam. Outros estão em processo. E muitos não querem, nem precisam, de rótulos definitivos agora. O papel dos pais não é definir identidades, mas garantir vínculos. Não é prever o futuro, mas acompanhar o presente com curiosidade e cuidado.


4.1 Conceitos fundamentais: identidade de gênero, orientação e expressão


A diferença entre identidade de gênero e orientação sexual é uma das dúvidas mais comuns entre pais e cuidadores. Muitos acreditam que ambas significam a mesma coisa, mas, na verdade, tratam-se de eixos distintos da sexualidade humana. Para compreender a pluralidade da experiência adolescente, é fundamental visualizar cada um desses eixos de forma clara.


Adolescentes aprendendo juntos sobre identidade de gênero, orientação e expressão

📊 Tabela de conceitos essenciais

Três eixos diferentes, que podem ou não se cruzar.

Eixo

O que é

O que não é

Identidade de gênero

Como a pessoa se reconhece internamente (homem, mulher, não-binário etc.).

Não depende do corpo ou do sexo atribuído ao nascer.

Expressão de gênero

Como a pessoa se apresenta ao mundo (roupas, voz, gestos, corte de cabelo).

Não define identidade ou orientação sexual.

Orientação afetivo-sexual

Por quem a pessoa sente atração emocional, romântica e/ou física.

Não é escolha, nem consequência de criação.

🔄 Matriz de combinações: exemplos possíveis


A adolescência é tempo de experimentação e fluidez. Esses três eixos não precisam estar alinhados de forma rígida. Veja um exemplo prático:


  • Identidade: mulher

  • Expressão: masculina

  • Orientação: por mulheres


Nesse caso, trata-se de uma mulher que pode se vestir e se expressar com elementos socialmente associados ao masculino e que sente atração por mulheres. Isso não invalida sua identidade, nem deve ser confundido com confusão ou “fase”.


Outros arranjos são igualmente possíveis, e nenhum deles define sozinho a totalidade da pessoa.


Seu filho pode estar em dúvida, mas não deveria ter dúvidas de que é amado.

Quando adolescentes dizem coisas como “acho que sou bi”, “não me sinto menina” ou “me sinto diferente”, não estão necessariamente pedindo rótulos. Estão testando se o ambiente é seguro para existir. O papel dos adultos é oferecer estabilidade emocional e acolhimento, sem pressa em definir e sem silenciar as dúvidas.


👉 Assim, compreender os três eixos é o primeiro passo para que famílias consigam conversar com segurança, reduzir preconceitos e abrir espaço para que o adolescente se conheça sem medo


4.2 Glossário LGBTQIA+: empatia começa com linguagem


Palavras não são apenas conceitos, são pontes de vínculo. Quando um pai ou mãe usa corretamente os termos que o filho escolhe para se descrever, comunica algo poderoso: “Eu me importo com quem você é.”


Saber o significado das palavras não é só informação, é cuidado ativo. É um gesto que fortalece a autoestima do adolescente e reduz o impacto de preconceitos externos.


📑 Glossário – Termos fundamentais

Termo

O que significa

Exemplo prático

LGBTQIA+

Sigla que reúne Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans, Queer, Intersexo, Assexuais e mais.

Um jovem pansexual e não-binário faz parte da comunidade LGBTQIA+.

Cisgênero

Identidade de gênero coincide com o sexo atribuído ao nascer.

Um menino que nasceu com corpo masculino e se identifica como homem.

Transgênero

Identidade de gênero não corresponde ao sexo atribuído ao nascer.

Uma menina trans nasceu com corpo masculino, mas se reconhece como mulher.

Não-binário

Não se identifica exclusivamente como homem ou mulher.

Um jovem que não se vê em nenhuma categoria fixa.

Bissexual

Sente atração por mais de um gênero.

Uma adolescente interessada em meninas e meninos.

Pansexual

Sente atração independente do gênero.

Alguém que pode se apaixonar por qualquer identidade.

Assexual

Não sente atração sexual (ou sente raramente).

Um jovem que sente atração romântica, mas não sexual.

Questionando

Pessoa em processo de descoberta da identidade ou orientação.

Um adolescente que ainda não sabe como se definir.

Passabilidade

O quanto a aparência de uma pessoa trans corresponde às expectativas sociais.

Uma mulher trans que é lida como mulher em público tem “alta passabilidade”.

Deadname / Nome social

Deadname é o nome de registro que a pessoa não usa mais; nome social é o que escolheu.

Um pai que usa o nome social do filho trans demonstra respeito.


Esse glossário não fecha possibilidades, abre caminhos. É a forma mais simples de mostrar que a família está disposta a aprender junto, em vez de impor verdades prontas.


💡 Dica complementar: Se você deseja se aprofundar em como apoiar filhos que estão em processo de descoberta da identidade ou já se reconhecem como LGBTQIAPN+, leia o artigo Como acolher filho LGBTQIAPN+: guia de apoio às famílias. Ele oferece orientações práticas para fortalecer o vínculo familiar.


4.3 Identidade em movimento: estabilidade, fluidez e acolhimento


A adolescência é, por essência, um tempo de transformação. Hormônios mudam, corpos mudam, amizades mudam e, com isso, a identidade também pode oscilar, se questionar e se redesenhar.


Alguns pais se angustiam: “E se meu filho estiver confuso? E se amanhã disser outra coisa?”. A resposta é simples: não tem problema. A fluidez identitária não é patologia, é desenvolvimento.


Segundo Ryan et al. (2022), o apoio familiar é o principal fator de proteção contra depressão, suicídio e automutilação entre adolescentes LGBTQIA+. Isso não significa que pais precisam entender tudo, nem abrir mão de suas crenças. Significa estar presente sem julgamento.


A Pesquisa Nacional sobre Ambiente Escolar de Jovens LGBTQIA+ no Brasil (UNESCO,2016) mostrou que 73% dos adolescentes LGBTQIA+ já sofreram algum tipo de violência verbal na escola, e que aqueles que contam com apoio familiar têm menos risco de abandono escolar e depressão.


A sexualidade de um filho não é um problema a ser resolvido. É uma parte viva de quem ele é. O que pais podem oferecer é vínculo, respeito e a certeza de que, independente da definição que venha ou não, o amor permanece.


  1. Proteção, escolhas e saúde sexual: como orientar com responsabilidade


O silêncio dos adultos raramente protege. Quando o assunto é sexualidade, esse silêncio pode custar caro: vergonha, desinformação, relações indesejadas, gravidez precoce, ISTs e traumas silenciosos. Mas o que fazer quando se tem medo de “incentivar” ao falar?


A resposta é simples: orientar não é estimular, é proteger com informação.


Adolescentes estão cercados de estímulos: redes sociais, vídeos, memes, conversas, pressões. Em meio a isso, pais e responsáveis ainda são ou podem ser uma fonte insubstituível de estrutura emocional e moral. Mas, para isso, é preciso sair do controle e entrar na escuta. Sair do julgamento e entrar no vínculo. Educar sexualmente é criar espaço para que o adolescente faça escolhas com liberdade e responsabilidade.


Porque, se você não falar, o algoritmo vai.

5.1 Práticas sexuais e limites: o que adolescentes consideram sexo


Para muitos adultos, ainda vigora a ideia de que a atividade sexual começa com a penetração, como se houvesse apenas duas categorias possíveis: “fez” ou “não fez”, “virgem” ou “experiente”. No entanto, a vivência da sexualidade na adolescência é muito mais ampla, complexa e sutil. Entender o que adolescentes consideram sexo é fundamental para que pais e educadores consigam dialogar com clareza, sem moralismo e com foco em consentimento, limites e direitos de recusa.


Mãe e filha adolescente conversando sobre práticas sexuais e limites com acolhimento

🔺 A pirâmide da intimidade


A intimidade entre adolescentes pode ser representada como uma pirâmide, onde cada camada reflete práticas diferentes:


  • 🟢 Base: conversa, flerte, beijos.

  • 🟣 Centro: carícias intensas, masturbação mútua, sexo oral.

  • 🔴 Topo: penetração vaginal ou anal.


Nota essencial: não é uma escada obrigatória. Cada jovem decide se quer ou não avançar, e o que determina essa decisão deve ser sempre consentimento, respeito e conforto emocional.


🛑 Direitos de recusa


É essencial ensinar que gostar de alguém não obriga a nada. Esse entendimento protege a autonomia e a autoestima dos adolescentes:


  • Você pode dizer não a qualquer momento.

  • Você pode mudar de ideia, mesmo depois de começar.

  • Você tem o direito de esperar, se assim quiser.

  • O corpo e o tempo são seus.


💡 Dica complementar: Muitas meninas enfrentam situações de atenção sexual indesejada na adolescência. Veja no artigo Como ajudar meninas a enfrentar os desafios da atenção sexual indesejada como apoiá-las com segurança e respeito.


🌱 Educação sexual como escolha consciente


Reduzir a conversa apenas a frases como “use camisinha” ou “espere até o casamento” empobrece a experiência educativa. A verdadeira orientação deve incluir:


  • Respeito aos próprios limites.

  • Capacidade de dizer não sem medo.

  • Legitimidade do desejo.

  • O direito de esperar.

Educar para a sexualidade não é ensinar a fazer, mas ensinar a escolher com consciência, respeito e segurança.

5.2 Gravidez precoce e ISTs: informação sem terrorismo


Prevenir ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) em jovens é tarefa de informação clara e acesso real a métodos. Medo não educa. A gravidez precoce na adolescência e a infecção por ISTs continuam sendo desafios de saúde pública no Brasil e no mundo.


👉 O silêncio ou a intimidação com ameaças não reduzem os riscos; ao contrário, aumentam a vulnerabilidade.O que protege de verdade é informação acessível, diálogo aberto e apoio familiar sem julgamentos.


Dados recentes:


  • UNESCO (2023): cerca de 19% dos adolescentes latino-americanos iniciam a vida sexual antes dos 15 anos.

  • Ministério da Saúde: a taxa de gravidez precoce na adolescência ainda é preocupante, principalmente em contextos de vulnerabilidade.

  • As ISTs continuam crescendo entre jovens, com destaque para sífilis, HIV e HPV, sendo estas duas últimas de impacto prolongado na saúde sexual e reprodutiva.


Preservativo como método contraceptivo e prevenção contra ISTs na adolescência

🧾 Tabela de ISTs em adolescentes

IST

Como se transmite

Sinais possíveis

Prevenção

Quando procurar ajuda

HPV

Contato pele a pele, sexo oral, vaginal, anal

Lesões, verrugas, muitas vezes assintomático

Vacina HPV, camisinha

Dúvidas, dor ou presença de lesões

Clamídia

Relações oral, vaginal ou anal

Frequentemente sem sintomas

Camisinha, testagem regular

Corrimento ou dor pélvica persistente

Gonorreia

Relações oral, vaginal ou anal

Corrimento, dor ao urinar

Camisinha, testagem regular

Sintomas urogenitais

Sífilis

Contato sexual ou transmissão congênita

Feridas indolores, manchas no corpo

Camisinha, testagem regular

Qualquer ferida ou mancha suspeita

HIV

Sexo oral, vaginal, anal, sangue

Assintomático no início

Camisinha, PEP e PrEP

Após exposição de risco ou dúvida de contágio


💉 Vacina HPV: proteção agora e no futuro


A vacina contra o HPV protege agora e no futuro. Disponível gratuitamente no SUS a partir dos 9 anos, tanto para meninos quanto meninas, previne não apenas infecções, mas também diversos tipos de câncer.


Adolescente recebendo vacina HPV para prevenção de ISTs e cânceres futuros

🛡️ Métodos contraceptivos para adolescentes


É fundamental que pais e cuidadores falem sobre métodos não como “liberação”, mas como proteção e responsabilidade:


  • Preservativo interno e externo → único método que reduz gravidez e ISTs.

  • Pílula anticoncepcional → deve ser discutida com um profissional de saúde.

  • DIU e implantes hormonais → podem ser indicados após avaliação clínica individualizada.


Mitos e Fatos


Mito: camisinha é só para evitar gravidez.

Fato: camisinha também previne ISTs.


Mito: HPV é problema apenas das meninas.

Fato: HPV também afeta meninos e pode causar câncer de garganta, ânus e pênis.


5.3 Pornografia e cultura digital: quando o algoritmo educa (e desinforma)


A pornografia na adolescência é uma realidade invisível, mas presente.

Quase nenhum pai pergunta diretamente “Você já viu pornô?”, mas quase todos os adolescentes, em algum momento, já tiveram contato com esse tipo de conteúdo seja por curiosidade, acidente ou pressão social.


👉 Para muitos, a pornografia é o primeiro contato com a ideia de sexualidade.

O problema? Ela quase nunca ensina o que realmente importa.


Adolescentes acessando conteúdos digitais e redes sociais, onde muitas vezes o primeiro contato com pornografia acontece

Segundo a UNESCO (2023), a maioria dos jovens acessa conteúdos pornográficos antes dos 14 anos.

E o que encontram?


❌ Corpos irreais

❌ Sexo sem afeto

❌ Roteiros de violência disfarçada de prazer

❌ Práticas sem diálogo ou consentimento


Essa exposição precoce pode gerar efeitos sérios, como:


⚠️ Ansiedade de desempenho

⚠️ Insatisfação corporal

⚠️ Desconexão emocional

⚠️ Expectativas irreais

⚠️ Disfunções sexuais


Pornografia x Sexualidade real

Pornografia

Sexualidade real

Corpo estereotipado, sem diversidade

Corpo diverso, imperfeito e único

Ausência de diálogo e consentimento

Consentimento é central

Prazer performático e unilateral

Prazer compartilhado, afetivo e recíproco

Nenhum cuidado com prevenção

Proteção e prevenção fazem parte da intimidade


❓ Perguntas de análise crítica para conversar com adolescentes


  • Quem está no controle da cena?

  • Houve consentimento explícito?

  • O que pode ser montagem ou efeito de edição?

  • O que falta na cena? (afeto, prevenção, diversidade, cuidado)

  • Essa cena mostra diferentes corpos e orientações?

  • Você acha que isso acontece assim na vida real?


  1. Como conversar sobre sexualidade com pré-adolescentes e adolescentes: linguagem, escuta e vínculo


Falar sobre sexualidade com filhos ainda é, para muitas famílias, um desafio que mistura amor, medo, vergonha e silêncio. Alguns esperam o “momento certo”, como se uma única conversa resolvesse tudo. Outros se calam, com receio de errar, incentivar ou parecer permissivos. Mas a verdade é simples e inegociável: o silêncio também educa e quase nunca para o bem.


Adolescentes aprendem sobre sexo e sexualidade o tempo todo: nas redes sociais, na escola, com os amigos, nos filmes, no corpo que muda, no desejo que nasce. Se não forem os pais ou responsáveis a acolher e orientar, outros ocuparão esse espaço.


6.1 Antes de falar: o que você pensa sobre sexualidade?


Antes de iniciar qualquer conversa, é essencial olhar para dentro. Muitos adultos foram educados em contextos onde a sexualidade era tabu, pecado ou piada. Essas experiências não desaparecem, elas se infiltram no jeito de falar, de calar, de julgar.


A forma como você fala de sexualidade revela muito mais sobre a sua história do que sobre a do seu filho.

Algumas perguntas que ajudam nesse autoconhecimento:


  • Qual foi a primeira vez que alguém falou comigo sobre sexo?

  • Eu me senti à vontade ou com vergonha?

  • Que tipo de crença eu carrego sobre prazer, desejo, limites e corpo?

  • Como reajo quando ouço algo que me causa desconforto?


É comum que, diante de uma dúvida do filho, o adulto reaja com negação, espanto ou moralismo. Mas a escuta só acontece quando o adolescente não se sente julgado. Ele não precisa de um especialista, mas de um adulto capaz de dizer: “não sei tudo, mas estou aqui com você”.


📌 O modelo de Comunicação Não Violenta (CNV), criado por Marshall Rosenberg, oferece quatro passos simples que podem transformar a forma de conversar com adolescentes sobre sexualidade:


👀 Observar sem julgar

Descrever o que aconteceu sem críticas ou interpretações.

Ex.: “Notei que você anda mais reservado” (em vez de “Você está estranho”).


💙 Expressar sentimentos de forma autêntica

Dizer como você se sente, sem acusar.

Ex.: “Eu me sinto preocupado e quero entender melhor” (em vez de “Você só me dá trabalho”).


Nomear necessidades com clareza

Explicar o que é importante para você na conversa.

Ex.: “Eu preciso que a gente se fale com respeito e privacidade.”


🤝 Formular pedidos respeitosos

Convidar ao diálogo de forma aberta, sem imposição.

Ex.: “Você topa conversarmos por 10 minutos hoje à noite?”


6.2 Linguagem possível: o que dizer, como dizer e quando calar


A sexualidade exige uma linguagem clara, honesta e respeitosa. Evitar termos vagos ou moralistas como “isso é feio”, “isso é precoce” ou “isso não é coisa de menino(a)” é fundamental para manter o canal aberto.


Além das palavras, importa o tom de voz, o tempo e o contexto:


  • Evite conversar em momentos de conflito ou exposição pública.

  • Prefira momentos tranquilos, com privacidade e abertura emocional.

  • Deixe claro que perguntas podem ser feitas sem medo de punição.


Exemplos práticos de falas possíveis


Situação

O que dizer

O que evitar

Filho de 11 anos pergunta o que é masturbação

“É quando a gente toca o próprio corpo para sentir prazer. Isso é natural e faz parte da descoberta.”

“Isso é feio.” ou “Não fale disso.”

Filha de 13 anos diz que acha que pode ser lésbica

“Você pode estar se descobrindo. Não tem problema não ter certeza. O importante é saber que eu estou aqui.”

“Isso é só uma fase.” ou “Você está confusa.”

Adolescente de 15 anos revela que viu pornografia

“É comum ter curiosidade. Vamos conversar sobre o que você viu e como se sentiu.”

“Você é viciado.” ou “Você me decepcionou.”


📌 Às vezes, a frase mais potente é: “Não sei como responder, mas quero conversar sobre isso com você.”


E se não souber o que dizer, um silêncio empático é mais educativo do que uma resposta precipitada. Demonstre curiosidade, interesse e acolhimento.


6.3 Conversa contínua: educação sexual é processo, não evento


Talvez um dos maiores mitos sobre sexualidade seja a ideia da “conversa ideal”: longa, séria e definitiva. Mas adolescentes não aprendem assim. Eles aprendem em fragmentos, repetições e momentos inesperados.


A educação sexual é feita de muitas conversas pequenas, não de um grande discurso com hora marcada.

A melhor estratégia é criar um ambiente em que o tema possa surgir naturalmente:


  • Comentários durante um filme ou série: “O que você achou do jeito que ele tratou ela?”

  • Situações reais: “Uma colega da sua idade engravidou. O que você pensa sobre isso?”

  • Questões das redes sociais: “Já ouviu falar disso? O que entendeu?”


E, sobretudo, ser previsível emocionalmente. O adolescente só se abre com quem não oscila entre acolhimento e punição.


  1. Conclusão: amor como fio condutor


Falar de sexualidade com adolescentes não é tarefa simples. Exige coragem para enfrentar tabus, humildade para admitir que não sabemos tudo e delicadeza para ouvir sem julgar. Mas, acima de tudo, exige amor.


A cada conversa, curta ou longa, fácil ou desconfortável, você planta uma semente de confiança. Talvez o adolescente revire os olhos, talvez diga “não quero falar disso”, mas, no fundo, ele percebe: “meu pai, minha mãe, meu cuidador está aqui para mim”.


Educação sexual na adolescência não é sobre ensinar a fazer. É sobre ensinar a escolher com consciência, respeito e proteção. É sobre oferecer vocabulário, abrir espaço para perguntas e, principalmente, garantir que eles nunca se sintam sozinhos diante das próprias dúvidas.


🌱 Seu filho não precisa de perfeição, precisa de presença.

💙 Ele não precisa de respostas prontas, precisa de escuta.

🤝 Ele não precisa de controle, precisa de vínculo.


Se cada família der um passo nessa direção, teremos jovens mais seguros, afetivos e conscientes e, adultos capazes de amar e se relacionar com respeito.


No fim, a maior herança que você pode deixar é esta: a certeza de que, independentemente do que aconteça, o amor em casa é incondicional e sempre será um porto seguro.


  1. Indicação de livros para famílias, educadores e adolescentes


Títulos com linguagem acessível, embasamento científico e relevância direta ao tema da sexualidade, adolescência, saúde emocional e educação inclusiva. São ideais para apoiar famílias, professores e jovens em conversas difíceis, promover respeito e fortalecer vínculos.


A culpa é do tabu: conversando com pais e educadores de crianças e adolescentes sobre sexualidade humana

Autor: Juliano Coimbra dos Santos

Guia direto e acolhedor para conduzir conversas sobre sexualidade sem mitos ou constrangimento. O autor propõe caminhos para reduzir o peso do tabu e fortalecer o diálogo saudável em casa e na escola.


Sexualidade para adolescentes: 50 perguntas para falar sobre valores íntimos

Autoras: Flávia Mazoni; Aluciália Braga

Livro em formato de perguntas e respostas, pensado para abrir espaço de diálogo com os adolescentes. Aborda dúvidas reais sobre desejo, corpo, limites e proteção de forma simples e acolhedora.


Gêneros, sexualidades e educação na ordem do dia

Autores: Denize Sepulveda; Ivan Amaro

Coletânea essencial para compreender os debates atuais sobre gênero e sexualidade na escola. Oferece reflexões críticas e práticas pedagógicas para promover uma educação inclusiva e respeitosa.


Corpo, amor e sexualidade: 120 perguntas e respostas para crianças e adolescentes

Autora: Charline Vermont

Com uma linguagem acessível e sensível, a autora responde a perguntas reais feitas por crianças e adolescentes sobre corpo, amor, prazer e proteção. O livro ajuda a transformar curiosidade em aprendizado saudável, fortalecendo a autonomia e o respeito.


🎬 Séries e filmes para dialogar em família


Recursos audiovisuais trazem impacto emocional e identificação direta com os adolescentes. Abaixo, sugestões que abordam sexualidade, relacionamentos e dilemas da vida jovem de forma acessível e crítica.


Sex Education – Netflix

Série britânica que mistura humor e sensibilidade para tratar de temas como descoberta sexual, identidade de gênero, amizade e relacionamentos familiares. É uma ótima ferramenta para abrir conversas em casa.


Juno – Prime Video

Filme premiado que aborda gravidez na adolescência com leveza e profundidade. A trama mostra dilemas reais enfrentados por jovens, promovendo reflexão sobre responsabilidade, apoio familiar e escolhas conscientes.


Euphoria – HBO Max

Série que retrata os desafios da adolescência contemporânea, abordando sexualidade, drogas, relacionamentos tóxicos, identidade de gênero e saúde mental. Ideal para abrir conversas delicadas, mas deve ser acompanhada de mediação adulta.


Heartstopper – Netflix

Série leve e sensível que acompanha a descoberta do amor entre dois adolescentes. Aborda amizade, identidade LGBTQIA+, aceitação e respeito, sendo um recurso positivo para diálogos sobre diversidade e afeto.



Referências Bibliograficas


AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS (AAP). Help Your Teen Navigate Pornography. Itasca (IL): AAP, 2023. Disponível em: https://www.healthychildren.org/English/ages-stages/teen/Pages/Help-Your-Teen-Navigate-Pornography.aspx.


BAUMEL, C. P. C. et al. Atitudes de jovens frente à pornografia e suas consequências. Psico-USF, v. 24, n. 1, p. 131–144, 2019.


McCRIMMON, J.; WIDMAN, L. Adolescent barriers to sexual communication with parents. Journal of Sex Research, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38905151/.


ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Adolescent health. Genebra: WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int/health-topics/adolescent-health.


ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Gender and adolescent health. Genebra: WHO, 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240055907.


PAPALIA, D. E.; FELDMAN, R. D. Desenvolvimento humano. 12. ed. Porto Alegre: AMGH/Artmed, 2013.


REIS, G. B. et al. Supervisão dos pais e comportamento sexual entre adolescentes brasileiros. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 26, supl. 1, e230013, 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39440829/.


ROSENBERG, M. B. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2015.


UNESCO. International technical guidance on sexuality education: an evidence-informed approach. Paris: UNESCO, 2018. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000260770.


WORLD BANK. Adolescent fertility rate (births per 1,000 women ages 15–19) – Indicator SP.ADO.TFRT. 2023. Disponível em: https://data.worldbank.org/indicator/SP.ADO.TFRT?locations=BR.


WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Global Health Observatory – Adolescent health. Genebra: WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int/data/gho/data/themes/topics/topic-details/GHO/adolescent-health.

bottom of page