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Adolescente egoísta: o que é esperado, o que preocupa e como ensinar empatia

Foto do escritor: Paloma Garcia
Paloma Garcia
14 de jan. de 2025
20 min de leitura

Atualizado: 2 de out.

Atualizado em outubro de 2026


Parecer egoísta é comum na adolescência. A capacidade de se colocar no lugar do outro ainda está se desenvolvendo, e muitos meninos passam por uma queda temporária na preocupação com os outros entre os 13 e os 16 anos. Os pais influenciam muito esse desenvolvimento: explicar o efeito das ações nos outros, dar responsabilidades de cuidado e ser exemplo ajudam mais do que sermões.

A mãe chega do trabalho com as sacolas do mercado e pede ao filho de 14 anos que a ajude a carregar o resto do carro. Ele responde sem tirar os olhos do videogame: "Agora não, tô no meio da partida." Ela carrega tudo sozinha.


Dez minutos depois, chega uma mensagem de um amigo: a corrente da bicicleta dele saiu e ele está parado na esquina. O filho larga o jogo, pega a caixa de ferramentas do pai e sai correndo para ajudar. Fica quase uma hora consertando a bicicleta do amigo.


À noite, a mãe comenta: "Com os seus amigos você é outra pessoa." Ele dá de ombros e vai para o quarto.


Muitos pais vivem situações parecidas e se perguntam se o filho está ficando egoísta, se fizeram algo errado ou se isso vai passar. A pesquisa sobre empatia na adolescência ajuda a responder essas perguntas, e mostra que os pais têm um papel importante nesse desenvolvimento.


Este guia explica a diferença entre egoísmo, egocentrismo e falta de empatia, o que a pesquisa mostra sobre como a empatia muda na adolescência e por que muitos adolescentes são gentis com os amigos e ríspidos em casa. Mostra também os mitos mais comuns, técnicas com base em pesquisa para desenvolver empatia e os sinais de que a falta de empatia pode indicar algo que precisa de ajuda profissional.


⚠️ Aviso: este conteúdo tem finalidade educativa e se baseia em pesquisas científicas. Não substitui avaliação nem acompanhamento profissional. Se o adolescente fala em morrer ou está em risco, ligue para o CVV (188) ou o SAMU (192).


1. Egoísmo, egocentrismo e falta de empatia: qual a diferença


Essas três palavras costumam ser usadas como se fossem a mesma coisa, mas descrevem fenômenos diferentes.


Egoísmo é colocar os próprios interesses acima dos interesses dos outros, mesmo quando isso prejudica alguém. Na cena do início, o filho que prefere terminar a partida a ajudar a mãe age de forma egoísta naquele momento.


Egocentrismo é a dificuldade de diferenciar o próprio ponto de vista do ponto de vista dos outros. O adolescente egocêntrico não necessariamente quer prejudicar ninguém: ele simplesmente tem dificuldade de perceber que os outros pensam e sentem de forma diferente dele (veja a seção 5).


Falta de empatia é a dificuldade de compreender ou se importar com o que o outro sente.


Os três componentes da empatia


A pesquisa sobre empatia, como os trabalhos do neurocientista Jean Decety, costuma diferenciar três componentes:


1. Tomada de perspectiva, ou empatia cognitiva: compreender o que o outro está pensando e sentindo. Por exemplo, perceber que a mãe está cansada depois do trabalho.


2. Empatia afetiva: sentir, de alguma forma, o que o outro sente. Por exemplo, ficar triste ao ver um amigo triste.


3. Preocupação empática, ou compaixão: sentir vontade de ajudar quem está sofrendo. Por exemplo, ir ajudar o amigo com a bicicleta.


Esses três componentes se desenvolvem em ritmos diferentes e nem sempre aparecem juntos. Um adolescente pode entender perfeitamente que a mãe está cansada e, mesmo assim, não sentir vontade de ajudar naquele momento.


Quando a empatia vira angústia


Às vezes, o adolescente sente tanto o sofrimento do outro que fica sobrecarregado e se afasta. A psicóloga Nancy Eisenberg e outros pesquisadores chamam essa reação de angústia pessoal: em vez de se aproximar para ajudar, a pessoa se afasta para se proteger do próprio desconforto. Os neurocientistas Tania Singer e Olga Klimecki (2014) mostram que essa reação é diferente da compaixão, que leva à aproximação.


Isso ajuda a entender por que alguns adolescentes parecem frios diante de um parente doente ou de uma situação triste: muitas vezes, eles não sabem o que fazer com o que estão sentindo.


2. O que é esperado: como a empatia muda na adolescência


A capacidade de se colocar no lugar do outro aumenta


Um estudo de Jolien Van der Graaff e colegas (2014), publicado na revista Developmental Psychology, acompanhou 497 adolescentes holandeses dos 13 aos 18 anos. A cada ano, eles responderam a questionários sobre tomada de perspectiva e preocupação empática.


A capacidade de se colocar no lugar do outro aumentou ao longo da adolescência, mas em ritmos diferentes:


  • nas meninas, aumentou especialmente entre os 13 e os 15 anos;

  • nos meninos, só começou a aumentar a partir dos 15 anos, com uma leve queda antes disso.


A preocupação com o outro cai temporariamente nos meninos


A preocupação empática teve um padrão ainda mais diferente:


  • nas meninas, ficou estável ao longo da adolescência;

  • nos meninos, diminuiu entre os 13 e os 16 anos e depois voltou ao nível inicial.


Os meninos fisicamente mais maduros relataram menos preocupação empática do que os colegas menos desenvolvidos. Os autores sugerem que, com a puberdade, muitos meninos passam a seguir mais as normas de masculinidade que valorizam parecer forte e desinteressado, e por isso tendem a esconder ou inibir a preocupação com os outros.


O que isso muda para os pais:


  • a aparente falta de empatia, principalmente nos meninos do início da adolescência, costuma ser temporária;

  • ela pode ser influenciada pelo ambiente, inclusive pelas mensagens que os meninos recebem sobre o que é "ser homem";

  • incentivar os meninos a expressar cuidado e preocupação com os outros faz parte de uma educação que protege a empatia.


O sentimento importa mais que o raciocínio


Em outro estudo com os mesmos adolescentes, Van der Graaff e colegas (2018) observaram que a preocupação empática previu mais comportamentos de ajuda nos anos seguintes. A capacidade de se colocar no lugar do outro só teve efeito por meio da preocupação: entender o que o outro sente só levou a ajudar quando o adolescente também se importou com isso.


Os autores concluíram que, para incentivar comportamentos de ajuda, é mais eficaz despertar o sentimento de cuidado com o outro do que apenas explicar o raciocínio. A técnica 8.2 mostra como.


3. "Com os amigos é gentil, comigo não": por que isso acontece


A situação da cena do início é uma das queixas mais comuns dos pais. Há três explicações principais.


A ajuda aos amigos aumenta, e a ajuda à família fica para depois


Num estudo de Laura Padilla-Walker e colegas (2015), que acompanhou 491 adolescentes norte-americanos a partir dos 11 anos, os comportamentos de ajuda com os amigos aumentaram ao longo do tempo, enquanto os comportamentos de ajuda com a família ficaram estáveis ou diminuíram. O afeto da mãe, a empatia e o autocontrole do adolescente ajudaram a diferenciar quem continuava ajudando em casa.


Em outro estudo da mesma pesquisadora (2018), que acompanhou adolescentes dos 12 aos 20 anos, a ajuda à família voltou a crescer na transição para a vida adulta.


A busca por autonomia aumenta os atritos com os pais


Na adolescência, o filho está construindo a própria identidade e quer mais independência. Os conflitos com os pais tendem a ser mais frequentes no início da adolescência e mais intensos no meio dela, como explica o guia sobre raiva na adolescência. Pedidos dos pais podem soar como controle, e recusar pode ser uma forma de afirmar a autonomia.


A casa como lugar seguro


Na prática clínica, é comum observar que muitos adolescentes mostram em casa a irritação e o cansaço que escondem na escola e com os amigos. Com os pais, eles se sentem seguros para não agradar o tempo todo. Isso não justifica a falta de educação, mas ajuda a entender por que ela aparece mais em casa.


O que fazer


Não compare com os amigos de forma acusatória.


❌ "Com os seus amigos você é outra pessoa."


✅ 💬 "Eu vi como você ajudou o Rafa com a bicicleta. Você é bom nisso. Eu também preciso da sua ajuda aqui em casa."


Reconheça a gentileza dele com os outros. Isso mostra que você vê o lado generoso dele.


Mantenha as expectativas de colaboração em casa, com combinados claros (veja a técnica 8.3).


Escolha bons momentos para pedir. Interromper uma partida no meio costuma gerar mais resistência do que combinar antes.


💬 "Quando terminar essa partida, preciso de você para carregar as sacolas. Combinado?"


4. O cérebro social, em resumo


Na adolescência, o cérebro passa por mudanças importantes nas regiões ligadas à compreensão dos outros, o chamado cérebro social. A neurocientista Sarah-Jayne Blakemore (2008) mostrou que essas regiões continuam se desenvolvendo ao longo da adolescência.


Num estudo de Iroise Dumontheil, Ian Apperly e Blakemore (2010), a capacidade de levar em conta o ponto de vista de outra pessoa ao tomar decisões continuou melhorando até o fim da adolescência. Ou seja, o adolescente ainda está aprendendo a considerar o que os outros pensam e sentem de forma automática.


Ao mesmo tempo, as regiões ligadas à emoção e à recompensa ficam mais reativas, e a opinião dos amigos ganha muita importância. Mais sobre essas mudanças está no guia sobre adolescente impulsivo.


Essas mudanças ajudam a entender por que o adolescente às vezes parece desatento ao que os outros sentem. Mas elas não determinam o comportamento: o ambiente e a forma como os pais conduzem as situações influenciam muito o desenvolvimento da empatia (veja a seção 7).


5. Audiência imaginária e fábula pessoal


Em 1967, o psicólogo David Elkind descreveu duas formas de egocentrismo que, segundo ele, seriam típicas da adolescência.


Audiência imaginária


É a sensação de estar sendo observado e julgado o tempo todo. O adolescente acredita que todos vão reparar na espinha, na roupa, no erro que ele cometeu.


💬 "Não vou na festa. Todo mundo vai ficar olhando para o meu cabelo."


Fábula pessoal


É a crença de que as próprias experiências são únicas e que ninguém consegue entendê-las, ou de que coisas ruins não vão acontecer com ele.


💬 "Você não entende. Ninguém nunca passou pelo que eu estou passando."


O que a pesquisa posterior mostrou


As ideias de Elkind são úteis para entender alguns comportamentos, mas pesquisas posteriores, revisadas por Lisa Vartanian (2000), mostraram que a audiência imaginária e a fábula pessoal também aparecem em adultos e não são exclusivas da adolescência. Elas parecem estar mais ligadas a preocupações sociais e à construção da identidade do que a uma etapa fixa do desenvolvimento.


Como ajudar


Normalize a preocupação com a opinião dos outros.


💬 "É normal sentir que todo mundo está olhando. Mas a maioria das pessoas está mais preocupada consigo mesma."


Valide o sentimento, sem confirmar que ninguém entende.


💬 "Pode ser que ninguém tenha passado exatamente pelo mesmo. Mas eu quero entender como está sendo para você."


Compartilhe experiências parecidas, com cuidado para não diminuir o que ele sente.


💬 "Na sua idade, eu também tinha vergonha de ir a festas. Não é igual ao que você está vivendo, mas lembro como era difícil."


6. Mitos sobre o egoísmo adolescente


Mito 1: "É só fase, não precisa fazer nada"


Parte da aparente falta de empatia é temporária, como mostram os estudos de Van der Graaff. Mas a pesquisa também mostra que a forma como os pais conduzem as situações influencia o desenvolvimento da empatia (veja a seção 7). Esperar passar sem orientar perde a oportunidade de ajudar.


Mito 2: "Egoísmo é falta de caráter"


Tratar o adolescente como egoísta por natureza costuma gerar ressentimento e pode fazer com que ele passe a se ver dessa forma. O comportamento egoísta em situações específicas é diferente de um traço fixo de personalidade.


❌ Evite: "Você é um egoísta."


✅ Prefira: 💬 "Hoje você deixou a sua mãe carregar tudo sozinha, e isso não foi legal."


Mito 3: "Sermões ensinam empatia"


Sermões longos costumam gerar defensividade. Como mostram os estudos sobre empatia, despertar o sentimento e dar oportunidades concretas de ajudar funciona melhor do que explicar o que é certo (veja a seção 8).


Mito 4: "Esta geração é mais egoísta"


Essa ideia é debatida na ciência. Um estudo de Sara Konrath e colegas (2011), com universitários norte-americanos, encontrou diminuição em algumas medidas de empatia entre 1979 e 2009. Outros pesquisadores, como Kali Trzesniewski e Brent Donnellan (2010), analisaram dados de várias décadas e encontraram pouca mudança em características como o narcisismo e o egocentrismo dos jovens. Não há consenso de que os adolescentes de hoje sejam mais egoístas do que os de gerações anteriores.


7. Como os pais influenciam a empatia


Afeto e segurança


Adolescentes que se sentem acolhidos e compreendidos pelos pais tendem a ter mais facilidade para se preocupar com os outros. No estudo de Padilla-Walker (2015), o afeto da mãe foi um dos fatores que diferenciaram os adolescentes que continuavam ajudando em casa. Um vínculo seguro mostra, na prática, como é ser tratado com consideração.


Adulto abraçando dois adolescentes sorridentes, representando o afeto e o vínculo que ajudam a desenvolver a empatia.

Disciplina indutiva


O psicólogo Martin Hoffman chamou de disciplina indutiva a forma de corrigir em que os pais explicam ao filho o efeito das ações dele sobre os outros. Por exemplo: "Quando você fala assim com a sua irmã, ela fica magoada."


Num estudo de Jacqueline Krevans e John Gibbs (1996), filhos de pais que usavam mais a disciplina indutiva mostraram mais empatia e mais comportamentos de ajuda. A explicação é que, ao ouvir o efeito das próprias ações no outro, o filho é convidado a se colocar no lugar dele e a sentir preocupação, que é justamente o que leva a ajudar.


O exemplo dos pais


Adolescentes aprendem observando como os adultos tratam os outros: o porteiro, o garçom, os avós, o parceiro ou a parceira, os próprios filhos. A forma como os pais falam de pessoas em dificuldade também ensina.


Expectativas claras


Esperar que o adolescente colabore em casa, peça desculpas quando magoar alguém e trate os outros com respeito, e comunicar essas expectativas de forma clara, ajuda a construir hábitos de consideração.


8. Técnicas para desenvolver empatia no adolescente


8.1. Explicar o efeito das ações no outro


Por que funciona. Essa é a disciplina indutiva, descrita na seção 7. Ela ajuda o adolescente a perceber como o comportamento dele afeta os outros, sem atacar quem ele é.


Passo a passo:


1. Descreva o comportamento, sem rótulos.


💬 "Você saiu e deixou a louça do jantar na pia."


2. Explique o efeito no outro.


💬 "Sua mãe chegou cansada e teve que lavar tudo sozinha."


3. Convide a pensar no sentimento do outro.


💬 "Como você acha que ela se sentiu?"


4. Proponha uma reparação.


💬 "O que você pode fazer agora?"


8.2. Despertar o sentimento, e não só o raciocínio


Por que funciona. Como mostram os estudos de Van der Graaff, a preocupação com o outro é o que mais leva a ajudar. Perguntas que convidam a sentir costumam funcionar melhor do que explicações sobre o que é certo.


Passo a passo:


1. Chame a atenção para a pessoa, e não para a regra.


❌ "É sua obrigação visitar a sua avó."


✅ 💬 "A sua avó ficou muito feliz da última vez que você foi lá. Ela tem passado muito tempo sozinha."


2. Pergunte sobre o sentimento do outro.


💬 "Como você acha que o seu amigo ficou quando ninguém o chamou para o time?"


3. Relacione com experiências dele.


💬 "Lembra quando você ficou de fora daquele grupo? Como foi?"


4. Deixe espaço para a resposta, sem forçar uma conclusão.


8.3. Tarefas de cuidado com a família


Por que funciona. Num estudo de Joan Grusec, Jacqueline Goodnow e Lorenzo Cohen (1996), com crianças e pré-adolescentes de 9 a 14 anos, só as tarefas de cuidado com a família feitas de forma rotineira, e não apenas quando alguém pedia, se associaram a mais preocupação com os outros dentro de casa, e isso apareceu nos mais velhos. O mesmo estudo observou que as meninas mais velhas recebiam mais tarefas rotineiras de cuidado com a família do que os meninos.


Passo a passo:


1. Combine tarefas fixas que beneficiem a família, como preparar uma refeição por semana, cuidar de um animal, ajudar o irmão mais novo com a lição, organizar a área comum da casa.


2. Diferencie das tarefas de autocuidado. Arrumar o próprio quarto é importante, mas cuidar de algo que é de todos ensina mais sobre consideração.


3. Combine com antecedência, e não apenas no momento em que a ajuda é necessária. É a rotina que faz diferença.


4. Mostre o efeito da contribuição.


💬 "O jantar que você fez ontem fez a sua irmã muito feliz."


5. Distribua as tarefas sem diferença entre meninos e meninas. Isso ensina que o cuidado é responsabilidade de todos e ajuda os meninos a desenvolver a preocupação com os outros.


8.4. Ação concreta e voluntariado


Por que funciona. Uma metanálise de Christine Celio, Joseph Durlak e Allison Dymnicki (2011), sobre programas de aprendizagem por meio de serviço à comunidade, encontrou melhora nas atitudes, nas habilidades sociais e no envolvimento cívico dos estudantes. Ajudar na prática transforma a empatia em hábito.


Passo a passo:


1. Comece pelo que está perto: ajudar um vizinho idoso, levar comida para um amigo doente, ajudar um colega com dificuldade na matéria.


2. Procure atividades ligadas aos interesses do adolescente: ensinar crianças, cuidar de animais, participar de campanhas da escola, projetos ambientais.


3. Façam juntos, de vez em quando. Ajudar ao lado dos pais também ensina pelo exemplo.


4. Conversem depois sobre a experiência.


💬 "Como foi para você? O que você percebeu sobre as pessoas que ajudou?"


8.5. Histórias, filmes e livros


Por que funciona. Uma metanálise de David Dodell-Feder e Diana Tamir (2018) mostrou que ler ficção teve um efeito pequeno, mas positivo, sobre a capacidade de compreender os pensamentos e sentimentos dos outros. Histórias permitem viver, por um tempo, a experiência de outra pessoa.


Passo a passo:


1. Assistam ou leiam juntos algo que interesse ao adolescente.


2. Converse sobre os personagens, sem transformar em aula.


💬 "Por que você acha que ele agiu daquele jeito?"


💬 "Você teria feito diferente?"


3. Aproveite para falar de situações reais, quando surgirem naturalmente.


8.6. Reconhecer a gentileza de forma específica


Por que funciona. Reconhecer o comportamento de ajuda, de forma específica e sincera, aumenta a chance de ele se repetir e mostra ao adolescente que os pais enxergam o lado generoso dele.


Passo a passo:


1. Descreva o que ele fez.


💬 "Vi que você esperou a sua irmã terminar o dever antes de começar a jogar."


2. Diga o efeito.


💬 "Ela ficou mais tranquila com você do lado."


3. Evite exageros e evite usar o elogio para cobrar mais.


Mais orientações estão no guia sobre reforço positivo na adolescência.


8.7. Reparar quando magoa alguém


Por que funciona. Reparar ensina que as ações têm efeito nos outros e que é possível recuperar as relações. É diferente de um castigo, que muitas vezes não ensina o que fazer no lugar.


Passo a passo:


1. Espere todos se acalmarem.


2. Converse sobre o que aconteceu e sobre o efeito no outro (técnica 8.1).


3. Ajude o adolescente a pensar numa reparação: um pedido de desculpas, consertar algo, ajudar a pessoa de alguma forma.


4. Acompanhe, sem humilhar.


💬 "O que você pode fazer para a sua irmã saber que você se importa com ela?"


A técnica de reparação também está no guia sobre raiva na adolescência.


9. Quando a falta de empatia é sinal de algo mais


Na maioria dos casos, o comportamento egoísta do adolescente faz parte do desenvolvimento e pode ser orientado em casa. Em alguns casos, porém, a falta de empatia é um sinal de outras dificuldades.


Adolescente de braços cruzados olhando pela janela, pensativa e distante.

Depressão. Na adolescência, a depressão pode aparecer como irritabilidade, apatia e desinteresse pelos outros. O adolescente deprimido pode parecer frio porque não tem energia emocional para se importar. Veja o guia sobre depressão na adolescência.


Ansiedade. O adolescente ansioso pode ficar tão concentrado nas próprias preocupações que parece não perceber os outros. Veja o guia sobre ansiedade na adolescência.


Experiências de violência ou trauma. Alguns adolescentes que viveram situações difíceis se fecham emocionalmente como forma de proteção.


Uso de álcool e outras substâncias. Pode diminuir a sensibilidade aos outros e aumentar comportamentos egoístas e impulsivos.


Autismo. Pessoas autistas podem ter dificuldade em perceber sinais sociais sutis e em expressar empatia da forma esperada pelos outros. Isso não significa falta de cuidado com os outros: muitas sentem e se importam profundamente, mas expressam isso de outro jeito. A avaliação do neurodesenvolvimento ajuda a entender essas diferenças.


Traços de insensibilidade e frieza emocional. Em casos raros, a falta de empatia é persistente e intensa. O psicólogo Paul Frick e colegas (2014) estudaram os chamados traços de insensibilidade e frieza emocional, associados a problemas de comportamento graves. O manual diagnóstico mais usado inclui um especificador chamado "com emoções pró-sociais limitadas" no transtorno de conduta, que considera sinais como:


  • ausência de culpa ou remorso depois de prejudicar alguém;

  • indiferença ao sofrimento que causa nos outros;

  • pouca preocupação com o próprio desempenho em atividades importantes;

  • expressão emocional superficial.


Pelo menos dois desses sinais precisam aparecer de forma persistente, por pelo menos um ano, em mais de um ambiente e em mais de uma relação. Crueldade com pessoas ou animais e uso frequente dos outros para conseguir o que quer também merecem atenção.


Transtornos de personalidade raramente são diagnosticados antes dos 18 anos, e o transtorno de personalidade antissocial não pode ser diagnosticado antes dessa idade. Por isso, rótulos como "psicopata" não devem ser usados para adolescentes. Quando há sinais preocupantes, a avaliação deve ser feita por um profissional. Os traços de insensibilidade e frieza emocional têm tratamento, e o envolvimento da família faz parte dele.


10. Sinais de alerta e quando buscar ajuda


Quando buscar avaliação


O que você observa

O que pode indicar

Apatia constante e desinteresse por tudo e por todos

Depressão

Irritabilidade persistente, por semanas

Depressão, ansiedade ou outros quadros

Isolamento profundo e recusa de vínculos

Depressão, ansiedade social, bullying

Ausência persistente de culpa depois de prejudicar alguém

Traços de insensibilidade e frieza emocional

Crueldade com pessoas ou animais

Problemas de comportamento graves

Agressividade frequente

Dificuldades de regulação emocional, trauma, outros quadros

Mudança brusca de comportamento

Sofrimento emocional, uso de substâncias, situações de violência


Quando buscar ajuda imediata


Frases como "tanto faz" ou "não me importo com nada" podem ser apenas uma forma de expressar irritação. Mas, quando vêm junto com tristeza, isolamento, desesperança ou falas sobre morrer, podem indicar risco.


Pergunte diretamente, com calma:


💬 "Quando você diz que tanto faz, você está se sentindo sem vontade de viver?"


Uma revisão sistemática de Dazzi e colegas (2014) concluiu que perguntar sobre suicídio não aumenta o risco, e pode ajudar a pessoa a pedir ajuda. Se houver risco, ligue para o CVV (188) ou o SAMU (192). Leia também o guia "Quero morrer": como acolher o risco de suicídio na adolescência.


Quem pode ajudar


  • Psicólogo, para avaliação e psicoterapia.

  • Psiquiatra da infância e da adolescência, quando há sintomas intensos.

  • Avaliação do neurodesenvolvimento, quando há suspeita de autismo ou TDAH.

  • Orientação parental, para ajudar os pais a lidar com os comportamentos difíceis.

  • UBS e CAPSij, pelo SUS.


Veja também o guia sobre comportamento desafiador.


11. Quando o adolescente não quer ajuda


Muitos adolescentes resistem à ideia de terapia, porque a associam a fraqueza, a castigo ou a "coisa de louco". A forma de apresentar a ajuda faz diferença.


Como propor


1. Comece pela validação.


💬 "Eu percebo que você anda mais irritado e cansado. Deve estar sendo difícil."


2. Apresente a terapia como apoio, e não como punição.


❌ "Você vai fazer terapia porque está impossível de lidar!"


✅ 💬 "Muita gente faz terapia para entender melhor o que está sentindo. Pode ser bom ter alguém só seu para conversar."


3. Respeite a autonomia.


💬 "Você não precisa contar nada que não quiser. É um espaço para você ser ouvido, sem pressão."


4. Ofereça escolhas: experimentar algumas sessões, escolher entre dois profissionais, atendimento presencial ou on-line.


5. Deixe a porta aberta, se ele recusar no momento.


Os pais também podem buscar ajuda


Mesmo que o adolescente não aceite ajuda imediatamente, os pais podem buscar orientação parental para entender o que está acontecendo e como agir.


12. Perguntas frequentes sobre o adolescente egoísta


Adolescente egoísta é normal?


Parecer egoísta em algumas situações é comum na adolescência. A capacidade de se colocar no lugar do outro ainda está se desenvolvendo, e muitos meninos passam por uma queda temporária na preocupação com os outros. O comportamento pode ser orientado pelos pais.


Por que meu filho é gentil com os amigos e grosso comigo?


Pesquisas mostram que, na adolescência, a ajuda aos amigos tende a aumentar, enquanto a ajuda à família fica estável ou diminui, e volta a crescer no início da vida adulta. A busca por autonomia também aumenta os atritos com os pais. Reconheça a gentileza dele e mantenha as expectativas de colaboração em casa.


Qual a diferença entre egoísmo e egocentrismo?


Egoísmo é colocar os próprios interesses acima dos outros, mesmo prejudicando alguém. Egocentrismo é a dificuldade de diferenciar o próprio ponto de vista do ponto de vista dos outros. O adolescente egocêntrico não necessariamente quer prejudicar ninguém.


Meninos têm menos empatia que meninas na adolescência?


Num estudo com adolescentes holandeses, a preocupação com os outros ficou estável nas meninas e caiu nos meninos entre os 13 e os 16 anos, voltando ao nível inicial depois. Os autores sugerem que normas de masculinidade influenciam essa queda.


Como ensinar empatia ao adolescente sem sermão?


Explique o efeito das ações dele nos outros, faça perguntas que despertem o sentimento, dê tarefas rotineiras de cuidado com a família, incentive ações concretas de ajuda, converse sobre histórias e reconheça a gentileza de forma específica.


Castigo ensina empatia?


Castigos desconectados do comportamento raramente ensinam empatia. Explicar o efeito das ações no outro e propor uma reparação ajudam mais o adolescente a perceber como o que faz afeta as pessoas.


Tarefas domésticas ajudam a desenvolver empatia?


Um estudo encontrou associação entre tarefas de cuidado com a família feitas de forma rotineira, e não só quando alguém pede, e mais preocupação com os outros dentro de casa. Cuidar de algo que é de todos ensina que cada um contribui para o bem-estar da casa.


A geração atual é mais egoísta?


Não há consenso. Um estudo encontrou diminuição em algumas medidas de empatia em universitários norte-americanos entre 1979 e 2009, mas outros pesquisadores encontraram pouca mudança nas características dos jovens ao longo das décadas.


Quando a falta de empatia é preocupante?


Quando é persistente e intensa: ausência de culpa depois de prejudicar alguém, indiferença ao sofrimento que causa, crueldade com pessoas ou animais, ou quando vem com tristeza, apatia, isolamento e mudanças bruscas. Nesses casos, procure avaliação profissional.


Adolescente com autismo tem falta de empatia?


Pessoas autistas podem ter dificuldade em perceber sinais sociais sutis e em expressar empatia da forma esperada. Isso não significa falta de cuidado com os outros: muitas sentem e se importam profundamente, mas expressam isso de outro jeito.


Meu filho diz que "tanto faz" para tudo. Devo me preocupar?


Pode ser só irritação. Mas, se vier com tristeza, isolamento, desesperança ou falas sobre morrer, pergunte diretamente se ele está sem vontade de viver. Perguntar não aumenta o risco. Se houver risco, ligue para o CVV (188) ou o SAMU (192).


Quando procurar ajuda profissional?


Quando a falta de empatia é persistente e intensa, vem com sinais de depressão, ansiedade ou trauma, há crueldade ou agressividade frequente, ou o comportamento prejudica a vida do adolescente e da família.


Conclusão


Parecer egoísta é comum na adolescência. A capacidade de se colocar no lugar do outro ainda está se desenvolvendo, a busca por autonomia aumenta os atritos com os pais, a ajuda aos amigos cresce antes da ajuda à família, e muitos meninos passam por uma queda temporária na preocupação com os outros, influenciada também pelas mensagens que recebem sobre o que é ser homem.


A pesquisa mostra que os pais influenciam esse desenvolvimento de várias formas:


  • explicar o efeito das ações do filho nos outros;

  • despertar o sentimento de cuidado, e não só o raciocínio;

  • dar responsabilidades rotineiras de cuidado com a família, sem diferença entre meninos e meninas;

  • incentivar ações concretas de ajuda;

  • reconhecer a gentileza de forma específica;

  • propor reparações quando ele magoar alguém;

  • ser exemplo de consideração com os outros.


Quando a falta de empatia é persistente, intensa ou vem com sinais de sofrimento, buscar ajuda profissional permite entender o que está acontecendo.


💬 "Eu sei que você se importa com as pessoas. Eu vejo isso quando você ajuda os seus amigos. Aqui em casa, a gente também precisa um do outro."


Sobre a autora


Paloma Garcia é terapeuta cognitivo-comportamental da infância e adolescência, neuropsicopedagoga e orientadora parental. É formada em Psicopedagogia (UNIFIEO), com pós-graduação em Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional (UNIP) e em Terapia Cognitivo-Comportamental da Infância e Adolescência (CETCC), e tem registro na SBNPp (nº 9947). Atende adolescentes e famílias desde 2016, hoje em formato on-line.


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2 comentários


Alphamen2121
Alphamen2121
01 de mar. de 2025

Resumindo, vc diz ou dá à entender que o desenvolvimento do cérebro do adolescente de hoje em dia é diferente dos adolescentes nascidos nos anos 60 e 70. Nunca li algo tão incorreto e sem noção..!

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Paloma Garcia
Paloma Garcia
15 de abr. de 2025
Respondendo a

Olá! Agradeço por seu comentário e por dedicar tempo para ler e refletir sobre o artigo.


Gostaria de esclarecer que, em nenhum momento, afirmei que o cérebro dos adolescentes de hoje é biologicamente diferente do cérebro dos adolescentes das décadas de 1960 e 1970. O que destaquei no texto são os processos naturais e universais do desenvolvimento cerebral durante a adolescência, que ocorrem independentemente da época em que se vive.


Por exemplo, Jean Piaget, em suas obras desde os anos 1950, já descrevia o egocentrismo como uma característica do desenvolvimento cognitivo na adolescência. Além disso, estudos de neurociência, como os de Marian Diamond na década de 1960, demonstraram a plasticidade cerebral e como o ambiente pode influenciar o desenvolvimento do…


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