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Álcool na adolescência: riscos, como conversar e como prevenir o uso precoce

Foto do escritor: Paloma Garcia
Paloma Garcia
19 de dez. de 2023
20 min de leitura

Atualizado: 2 de out.

Atualizado em outubro de 2026


Mais da metade dos adolescentes brasileiros de 13 a 17 anos já bebeu, e as meninas bebem mais que os meninos. Quanto mais cedo e mais intenso o consumo, maiores os riscos para o cérebro, para a saúde mental e de acidentes. Oferecer bebida em casa "para aprender a beber" não protege e é proibido pelo ECA. O que mais ajuda é conversar cedo e muitas vezes, combinar regras claras, dar o exemplo e deixar uma porta aberta: se ele estiver em perigo, que possa ligar para você.

Na festa de família, alguém oferece um copo de cerveja ao sobrinho de 14 anos e todo mundo ri quando ele faz careta. Na mesma família, se alguém descobrir que ele bebeu escondido numa festa, a reação vai ser de susto e bronca. Muitas casas vivem essas duas mensagens ao mesmo tempo: o álcool como brincadeira de adulto e o álcool como perigo.


Essa ambiguidade confunde o adolescente e também os pais. Proibir sem explicar costuma não funcionar, e fazer de conta que não está acontecendo também não. O que ajuda é entender o que está por trás do consumo e conversar sobre ele antes que vire um problema.


⚠️ Aviso: este conteúdo tem finalidade educativa e se baseia em literatura científica. Não substitui avaliação nem acompanhamento profissional. Se o adolescente estiver muito sonolento, difícil de acordar, vomitando sem parar ou respirando de forma estranha depois de beber, ligue para o SAMU (192). Em crise emocional, CVV (188).


Este guia explica quantos adolescentes bebem no Brasil, por que começam, o que o álcool faz no cérebro e no corpo nessa fase, por que dar bebida em casa não protege, como conversar sem sermão, que combinados fazer para festas e caronas, o que fazer se ele chegar bêbado e quando procurar ajuda.


1. Quantos adolescentes bebem no Brasil?


Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024, do IBGE, 53,6% dos estudantes de 13 a 17 anos já tomaram pelo menos uma dose de bebida alcoólica. O número sobe com a idade: 46,4% entre os de 13 a 15 anos e 66,3% entre os de 16 e 17.


O consumo recente caiu em relação a 2019. A proporção de quem bebeu pelo menos uma vez nos 30 dias anteriores à pesquisa passou de 28,1% para 20,4%. Ainda assim, isso significa que cerca de 1 em cada 5 adolescentes bebeu no último mês, apesar de a venda e o fornecimento de bebida para menores de 18 anos serem proibidos.


Um dado chama atenção: as meninas bebem mais que os meninos. Em 2024, 57,5% delas já tinham experimentado bebida alcoólica, contra 49,7% deles, e 23,5% tinham bebido no último mês, contra 17,2% deles. A ideia de que álcool é "coisa de menino" faz muitas famílias prestarem menos atenção às filhas.


O que é beber em excesso numa ocasião


Os pesquisadores chamam de consumo excessivo episódico, em inglês binge drinking, beber muito em pouco tempo. Na PeNSE, isso significa 4 doses ou mais para meninas e 5 ou mais para meninos numa mesma ocasião. Uma dose equivale, por exemplo, a uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de destilado. É esse padrão que mais se associa a intoxicação, acidentes e violência, e é comum entre adolescentes: muitos não bebem com frequência, mas, quando bebem, bebem muito.


Por que a atenção às meninas importa


As meninas bebem mais que os meninos na PeNSE 2024, e isso pede atenção por três motivos:


  • com a mesma quantidade de bebida, o corpo feminino costuma chegar a uma concentração de álcool no sangue mais alta, por diferenças na proporção de água no corpo e na forma como o álcool é metabolizado;

  • bebidas doces e coloridas, como drinques prontos, "ices" e coquetéis, escondem o gosto do álcool e são muitas vezes divulgadas com foco no público feminino e jovem;

  • o álcool aumenta a exposição a situações de violência sexual, como explico na seção 3.


2. Por que os adolescentes começam a beber?


O primeiro gole raramente é uma decisão isolada. Ele acontece num contexto: uma festa, um grupo de amigos, um almoço de família, um dia difícil. Entender esse contexto ajuda mais do que qualquer sermão sobre os perigos da bebida.


O que o álcool parece oferecer


Para muitos adolescentes, beber parece resolver coisas que incomodam nessa fase:


  • diminuir a timidez e a vergonha em situações sociais;

  • sentir que pertence ao grupo;

  • parecer mais velho ou mais livre;

  • aliviar tristeza, ansiedade ou um dia ruim;

  • matar a curiosidade sobre algo que os adultos fazem.


Esses motivos ajudam a entender o que conversar. Um adolescente que bebe para conseguir falar com as pessoas precisa de outro tipo de conversa do que um que bebe para esquecer que está triste.


O ambiente conta muito


No Brasil, o álcool está presente em festas, churrascos, comemorações e propagandas, muitas vezes associado a alegria, amizade e sucesso. Nas redes, influenciadores mostram a bebida como parte de uma vida divertida. O adolescente cresce vendo isso, e o que os adultos da casa fazem costuma falar mais alto do que o que eles dizem.


Na adolescência também cresce a vontade de experimentar coisas novas, e a opinião dos amigos passa a influenciar muito as decisões. Pesquisas sobre comportamento mostram que adolescentes tendem a arriscar mais quando estão com amigos por perto, e as festas são justamente o lugar onde a bebida costuma aparecer. Explico esse mecanismo no artigo por que adolescentes agem por impulso.


Fatores que aumentam o risco


Fator

O que significa

Consumo frequente em casa

Quando os adultos bebem muito ou com frequência, o adolescente tende a ver o álcool como normal e a ter mais acesso

Pouca supervisão

Falta de regras claras e de acompanhamento facilita o acesso e o uso

Sofrimento emocional sem apoio

Ansiedade, tristeza, baixa autoestima e conflitos em casa aumentam a chance de usar o álcool para aliviar

Amigos que bebem

O grupo influencia muito a primeira experiência e a frequência

Baixa percepção de risco

Muitos adolescentes acham que o álcool faz menos mal do que outras drogas

Início muito cedo

Quanto mais cedo a primeira dose, maior a chance de problemas mais tarde


História familiar e genética


Estudos com gêmeos e famílias mostram que cerca de metade do risco de desenvolver dependência de álcool está ligada a fatores genéticos. Isso não significa que filho de pai ou mãe com problemas com bebida vai, necessariamente, ter o mesmo problema. Significa que ele tem mais vulnerabilidade, e que adiar o primeiro gole e evitar o consumo pesado é ainda mais importante no caso dele.


Contar ao adolescente, de forma adequada à idade, que existe esse histórico na família é informação de proteção, e não motivo de vergonha:


💬 "Na nossa família, algumas pessoas tiveram problemas sérios com bebida. Isso não quer dizer que vai acontecer com você, mas quer dizer que você precisa ter mais cuidado do que os seus amigos."


O artigo sobre alcoolismo dos pais e o cérebro adolescente aprofunda o impacto de conviver com um adulto que bebe em excesso.


3. O que o álcool faz no cérebro e no corpo do adolescente


O álcool age no sistema nervoso e afeta o julgamento, a coordenação, a memória e o controle das emoções. Nos adolescentes, isso acontece num período em que o cérebro ainda está se reorganizando. As pesquisas mostram que o consumo pesado nessa fase se associa a mudanças no desenvolvimento cerebral, além dos riscos imediatos de acidentes, violência e intoxicação.


O que os estudos de imagem cerebral mostram


Durante a adolescência, o cérebro passa por uma reorganização natural: conexões pouco usadas são eliminadas e as mais usadas ficam mais eficientes. Um grande estudo norte-americano, o NCANDA, acompanhou adolescentes de 12 a 21 anos com exames de ressonância antes e depois de começarem a beber. Os que passaram a beber muito tiveram uma redução mais rápida do volume de massa cinzenta em regiões frontais do cérebro, ligadas ao planejamento e ao controle do comportamento, do que os que não bebiam ou bebiam pouco. Outros estudos encontraram resultados parecidos.


Esses estudos mostram associação e acompanham os adolescentes ao longo do tempo, o que fortalece a hipótese de efeito do álcool. Ainda assim, outros fatores podem contribuir, como a história familiar. Os achados se referem principalmente ao consumo pesado, e não a um gole ocasional.


Começar cedo e o risco de dependência


Um estudo clássico com dados da população norte-americana encontrou que quem começou a beber antes dos 15 anos tinha cerca de 4 vezes mais chance de desenvolver dependência ao longo da vida do que quem começou depois dos 20. Parte dessa diferença pode vir de características que levam alguém tanto a começar cedo quanto a ter problemas depois, como a genética e o ambiente familiar. Mas a recomendação dos especialistas é a mesma: adiar o primeiro gole o máximo possível.


Os riscos imediatos


Na adolescência, boa parte dos danos do álcool acontece no próprio dia em que se bebe:


  • intoxicação alcoólica, que pode levar ao desmaio, à aspiração do vômito e, em casos graves, à morte;

  • acidentes, inclusive de trânsito, como passageiro de alguém que bebeu;

  • brigas e violência;

  • relação sexual sem proteção ou sem consentimento;

  • exposição a situações de abuso, principalmente para meninas;

  • mistura com outras substâncias, que aumenta os riscos.


Misturas que aumentam o risco


Energético com álcool. A mistura é comum em festas de adolescentes. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), a cafeína pode fazer a pessoa se sentir menos embriagada do que está, e quem mistura álcool com energético tende a beber mais e a se expor a mais situações de risco, como dirigir ou pegar carona com quem bebeu.


Bebidas adulteradas e metanol. Entre setembro e outubro de 2025, o Brasil registrou uma série de intoxicações por metanol, uma substância tóxica encontrada em bebidas destiladas adulteradas, com dezenas de casos e mortes confirmadas pelo Ministério da Saúde. Adolescentes estão entre os mais expostos, porque costumam comprar a bebida mais barata, em lugares informais e de origem duvidosa.


Os sinais de intoxicação por metanol podem aparecer horas depois de beber e são diferentes da embriaguez comum:


  • dor abdominal forte, náusea e vômitos;

  • tontura e confusão;

  • visão turva, embaçada ou dificuldade para enxergar, entre 6 e 24 horas depois.


Diante desses sinais, procure um pronto-socorro imediatamente, mesmo que a pessoa pareça ter melhorado, e informe que pode ter havido ingestão de bebida adulterada. Orientação também pelo Disque-Intoxicação da Anvisa: 0800 722 6001. A intoxicação por metanol pode causar cegueira permanente e morte, e o atendimento rápido faz diferença.


Remédios e outras substâncias. Misturar álcool com calmantes, remédios para dormir, alguns antialérgicos ou outras drogas aumenta muito o risco de sonolência profunda, parada respiratória e acidentes.


Álcool, consentimento e violência sexual


O álcool está presente em muitas situações de violência sexual entre adolescentes. É importante conversar sobre isso com filhos e filhas:


  • quem está muito bêbado não tem condição de consentir. O Código Penal (art. 217-A) considera estupro de vulnerável o ato sexual com alguém que, por qualquer causa, não pode oferecer resistência, o que inclui uma pessoa embriagada a ponto de não conseguir decidir ou reagir;

  • a responsabilidade é sempre de quem se aproveita, nunca de quem bebeu;

  • não aceite bebida de quem não conhece e não deixe o copo sozinho, para evitar que alguém coloque alguma substância na bebida;

  • amigos cuidam de amigos: combinar de chegar e sair juntos da festa e não deixar ninguém do grupo sozinho e alterado.


💬 "Se alguém está tão bêbado que mal consegue ficar em pé, essa pessoa não está em condição de dizer sim para nada. E quem se aproveita disso está cometendo um crime."


O que fazer se acontecer está no guia sobre assédio contra meninas.


Saúde emocional


Muitos adolescentes bebem para aliviar a tristeza ou a ansiedade, e o alívio dura pouco. As pesquisas encontram associação entre uso frequente de álcool na adolescência e mais sintomas de ansiedade e depressão, numa relação que vai nos dois sentidos: quem está sofrendo bebe mais, e beber muito piora o sofrimento. Se seu filho bebe "para esquecer" ou nos dias ruins, isso merece conversa e, muitas vezes, ajuda profissional. Veja os guias sobre ansiedade e depressão na adolescência.


"Mas é só um pouco"


Nenhum gole isolado causa dano permanente ao cérebro, e não é preciso entrar em pânico se o filho experimentou. A Organização Mundial da Saúde afirma, porém, que não existe nível de consumo de álcool totalmente seguro para a saúde. E, na adolescência, o "só um pouco" costuma crescer rápido. Na PeNSE de 2019, quase metade dos estudantes que já tinham bebido relatou ter ficado embriagado pelo menos uma vez.


A ideia de que o álcool é uma "porta de entrada" obrigatória para outras drogas não se sustenta como regra. O que os estudos mostram é que o uso precoce de álcool se associa ao uso de outras substâncias, em parte porque os mesmos fatores de risco aparecem nos dois casos.


4. Dar bebida em casa protege?


Muitos pais acreditam que oferecer um pouco de bebida em casa, sob supervisão, ensina o filho a "beber com responsabilidade" e evita exageros fora de casa. As pesquisas não sustentam essa ideia.


Um estudo australiano acompanhou quase 2 mil adolescentes e suas famílias dos 12 aos 18 anos, publicado na revista The Lancet Public Health. Os adolescentes que recebiam bebida apenas dos pais tinham cerca de 2,5 vezes mais chance de beber em excesso numa mesma ocasião e de ter problemas relacionados ao álcool no ano seguinte do que os que não recebiam bebida de ninguém. Os autores concluíram que não há evidência de que oferecer álcool em casa proteja. Eles mesmos lembram que os resultados podem variar em outros países e culturas, mas a direção encontrada foi a de mais risco, e não de proteção.


O que diz a lei


No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (art. 243) proíbe vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar bebida alcoólica a menores de 18 anos, mesmo de graça. Desde 2015, isso é crime, com pena de detenção de 2 a 4 anos e multa. A lei vale para bares e lojas e também para qualquer adulto que ofereça bebida a um adolescente.


Se na sua família já é costume oferecer bebida aos mais novos em festas, dá para mudar o combinado agora, explicando o motivo:


💬 "A gente leu que oferecer bebida em casa não ajuda vocês a beberem melhor depois. Então, daqui pra frente, aqui em casa, bebida é só para os adultos."


5. O que protege: família, escola e comunidade


Nenhum fator isolado impede um adolescente de beber. O que as pesquisas mostram é que algumas condições, somadas, diminuem a chance de uso precoce e de uso pesado.


Na família


  • Vínculo e conversa. Uma pesquisa clássica sobre supervisão dos pais, dos psicólogos Håkan Stattin e Margaret Kerr, mostrou que a maior parte do que os pais sabem sobre a vida dos filhos vem do que os próprios filhos contam. E os adolescentes contam mais quando a relação é de confiança, e não de interrogatório.

  • Regras claras e explicadas. Combinar com antecedência o que vale sobre bebida, festas, horários e caronas, e explicar o motivo, funciona melhor do que proibir sem conversa. Como construir limites que o adolescente consegue cumprir está no guia sobre comportamento desafiador dos adolescentes.

  • Acompanhar sem vigiar. Saber onde ele está, com quem e como vai voltar, e conhecer os amigos e os pais dos amigos.

  • Dar o exemplo. A forma como os adultos da casa bebem ensina mais do que qualquer conversa. Beber para "relaxar" depois de um dia difícil ou dirigir depois de beber mostra ao adolescente o que é normal.


Na escola


  • programas de habilidades socioemocionais que ensinam a lidar com pressão do grupo, frustração e decisões;

  • um ambiente em que o aluno se sente parte, o que diminui a necessidade de buscar pertencimento na bebida;

  • conversa com a família quando houver sinais de uso, sem expor o aluno.


Na comunidade


Esporte, cultura, projetos sociais e adultos de referência fora de casa oferecem ao adolescente outras formas de se divertir, pertencer e lidar com o tédio e com as emoções difíceis.


6. Como conversar com adolescentes sobre álcool


Conversar sobre álcool funciona melhor como um assunto que aparece muitas vezes, em momentos tranquilos, do que como uma conversa séria única depois de um problema. O ponto de partida é o vínculo: o adolescente precisa sentir que pode falar sobre bebida com você sem que tudo vire bronca.


Por que conversar antes de um problema


Quando a primeira conversa sobre álcool só acontece depois de achar uma garrafa escondida ou de receber uma ligação de outra mãe, ela costuma vir com raiva, medo e castigo. Conversas frequentes, antes disso, ajudam o adolescente a:


  • entender os riscos com clareza;

  • pensar no que faria numa situação de pressão;

  • saber o que os pais esperam dele;

  • pedir ajuda se precisar.


Use situações do dia a dia


Não precisa marcar uma "conversa séria". Use o que aparece:


  • uma propaganda de cerveja;

  • uma cena de série ou filme com bebida;

  • uma história que ele conta sobre colegas;

  • uma festa de família em que alguém bebeu demais.


💬 "Naquela série, o personagem bebeu escondido antes da festa. O que você achou daquilo?"


💬 "Você acha que tem muita pressão para beber nas festas que você vai?"


💬 "Alguém já te ofereceu bebida? Como foi?"


Essas perguntas não pedem uma resposta certa. Mostram que você está disponível para conversar sobre o assunto.


O que dizer


💬 "Não precisa saber tudo agora. Se tiver alguma dúvida sobre bebida, pode me perguntar, mesmo que pareça boba."


💬 "Não pergunto isso porque desconfio de você. Pergunto porque me importo, e porque também tive dúvidas na sua idade."


💬 "Se você estiver numa situação ruim, me liga. Mesmo que tenha feito algo que a gente combinou que não ia fazer. Primeiro eu te busco, depois a gente conversa."


O que evitar


❌ Evite: "Você é muito novo para falar disso." "Se eu souber que você bebeu, vai ver só." "Na minha época ninguém tinha essas frescuras."


✅ Prefira: "Quero entender o que você pensa sobre isso." "Vamos combinar o que fazer se alguém te oferecer bebida numa festa?"


Ameaças e comparações costumam encerrar a conversa e ensinar o adolescente a esconder.


O combinado de segurança


Um dos combinados mais úteis é este: se ele estiver em perigo, pode ligar a qualquer hora, e você vai buscar sem sermão na hora. A conversa sobre o que aconteceu fica para o dia seguinte, com calma. Combine também que ele nunca vai entrar num carro com quem bebeu, nem que precise ligar de madrugada.


💬 "Se um dia você estiver numa festa e não tiver como voltar com segurança, ou alguém tiver bebido demais, me liga. Eu vou buscar, sem perguntas na hora."


Também vale combinar um código: uma palavra ou mensagem que ele pode mandar para você ligar "exigindo" que ele volte para casa, para que ele saia da situação sem passar vergonha na frente dos amigos.


Como adaptar a conversa à idade


Idade

O que conversar

9 a 12 anos

Explicar, com naturalidade, que bebida alcoólica não é para crianças e adolescentes porque o corpo e o cérebro ainda estão em formação; responder às perguntas sem alarde

13 a 15 anos

Pressão do grupo, vontade de pertencer, como recusar sem se sentir de fora; o que fazer se um amigo passar mal

16 anos ou mais

Festas, caronas, mistura com outras substâncias, consentimento, o que diz a lei e o combinado de segurança


Para manter a conversa viva


  • Volte ao tema de tempos em tempos. Uma conversa só não basta.

  • Ouça mais do que fala. Muitas vezes, o adolescente só precisa saber que pode contar.

  • Pergunte com curiosidade, e não como num interrogatório.

  • Observe mudanças de comportamento sem tirar conclusões apressadas.


Outras formas de abrir conversas difíceis estão em estratégias eficazes para conversar com adolescentes.


7. Festas, esquenta e carona: combinados práticos


A maior parte do consumo de álcool dos adolescentes acontece em festas, aniversários, formaturas e encontros na casa de amigos, muitas vezes com um "esquenta" antes, quando o grupo bebe para chegar à festa já alterado. Alguns combinados ajudam a reduzir os riscos.


Antes da festa


  • Saber onde vai ser, com quem e se haverá adultos presentes. Conversar com os pais de quem organiza não é exagero.

  • Combinar horário e como ele vai e volta. Defina com antecedência quem busca e onde.

  • Celular carregado e o combinado de segurança: se precisar, ele liga e você busca.


Festa em casa


Se a festa for na sua casa, não ofereça nem permita bebida alcoólica para menores de 18. O art. 243 do ECA também vale para quem organiza uma festa e fornece bebida a adolescentes, mesmo de graça. Avise os pais dos convidados de que não haverá álcool e combine com eles os horários de chegada e saída.


Carona


Nunca entrar no carro de alguém que bebeu, nem de um amigo, nem de um adulto da família. Desde a Lei Seca (Lei nº 11.705/2008), o Brasil tem tolerância zero para álcool ao volante. E adolescentes não podem dirigir. Deixe claro que você prefere ir buscar de madrugada a correr esse risco:


💬 "Se a única carona for com alguém que bebeu, você me liga. Não importa a hora."


Quando quem passa mal é o amigo


Converse também com seu filho sobre o que fazer se for um amigo a passar mal. Muitos adolescentes deixam de pedir socorro por medo de "dar problema" para o amigo ou para si mesmos. Explique:


  • nunca deixe o amigo sozinho, nem "dormindo para passar";

  • se ele estiver sonolento, deite-o de lado;

  • chame um adulto e, se ele estiver difícil de acordar, respirando de forma estranha ou vomitando sem parar, ligue para o SAMU (192);

  • a saúde do amigo vem antes do medo de levar bronca.


💬 "Se um amigo seu passar mal de tanto beber, não deixe ele sozinho e me ligue ou chame o SAMU. Ninguém vai ficar bravo com você por ter pedido ajuda."


8. Se ele chegou bêbado ou passou mal: o que fazer


Primeiro, a segurança. A conversa fica para depois.


Sinais de que é preciso ligar para o SAMU (192)


  • muito sonolento ou difícil de acordar;

  • vômitos que não param, principalmente se estiver sonolento;

  • confusão intensa, fala muito enrolada ou desmaio;

  • respiração lenta, irregular ou com pausas;

  • pele fria, pálida ou arroxeada;

  • convulsão.


Se ele estiver com visão turva, dor abdominal forte ou confusão horas depois de beber, mesmo sem estar muito embriagado, procure um pronto-socorro imediatamente e informe a possibilidade de bebida adulterada com metanol. Orientação: Disque-Intoxicação 0800 722 6001.


Enquanto espera ou se ele estiver só embriagado


  • não deixe o adolescente sozinho, nem para dormir;

  • se estiver sonolento, deite-o de lado, para que não se engasgue se vomitar;

  • mantenha-o aquecido;

  • não dê café, não dê banho frio e não o force a vomitar: nada disso diminui o álcool no sangue e pode piorar a situação;

  • ofereça água em pequenos goles, se ele estiver acordado e conseguir engolir.


A conversa, no dia seguinte


Quando ele estiver bem, com calma, converse sobre o que aconteceu. Comece pelo cuidado, antes das consequências:


💬 "Fiquei muito assustada ontem. Quero entender o que aconteceu e como a gente evita que isso se repita."


Depois, combinem o que muda, como horários, saídas e caronas, de forma proporcional ao que aconteceu. Se ele ligou pedindo ajuda, reconheça isso: ele fez a coisa certa ao chamar você, e é isso que você quer que ele faça da próxima vez.


9. Quando o uso preocupa e onde buscar ajuda


Uma experiência isolada numa festa é diferente de um padrão de uso. Procure orientação profissional quando perceber:


  • bebida frequente, todo fim de semana ou durante a semana;

  • beber até passar mal ou "apagar" mais de uma vez;

  • beber sozinho, para dormir ou nos dias ruins;

  • queda nas notas, faltas, troca de amigos ou afastamento da família junto com o uso;

  • mentiras, dinheiro sumindo ou bebida desaparecendo de casa;

  • uso junto com outras substâncias;

  • sinais de tristeza, ansiedade ou falas sobre não querer viver.


Onde procurar:


  • UBS ou pediatra: primeira avaliação e encaminhamento.

  • CAPSij (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil) ou CAPS AD (álcool e drogas), conforme a cidade, pelo SUS.

  • Psicólogo ou psiquiatra com experiência em adolescência e uso de substâncias.

  • SAMU (192): em intoxicação.

  • Disque-Intoxicação (0800 722 6001): em suspeita de bebida adulterada.

  • CVV (188): em sofrimento emocional intenso.


Buscar ajuda cedo costuma tornar o caminho mais curto. Se você também está esgotado com a situação, procure apoio para você.


10. Livros para pais


  • O cérebro adolescente, de Frances E. Jensen e Amy Ellis Nutt. A neurologista explica as mudanças no cérebro durante a adolescência, incluindo os efeitos do álcool e de outras substâncias, em linguagem acessível.


11. Perguntas frequentes sobre álcool na adolescência


Quantos adolescentes bebem no Brasil?


Segundo a PeNSE 2024, do IBGE, 53,6% dos estudantes de 13 a 17 anos já tomaram pelo menos uma dose de bebida alcoólica, e 20,4% beberam no mês anterior à pesquisa. As meninas bebem mais que os meninos: 57,5% delas já experimentaram, contra 49,7% deles.


Por que os adolescentes começam a beber?


Para se sentir parte do grupo, diminuir a timidez, parecer mais velhos, aliviar tristeza ou ansiedade e por curiosidade. O ambiente influencia muito: a bebida presente nas festas de família, nas propagandas e nas redes, e os amigos que bebem.


Quais os riscos do álcool na adolescência?


No curto prazo, intoxicação, acidentes, brigas, relação sexual sem proteção e exposição a abuso. No médio e longo prazo, o consumo pesado se associa a mudanças no desenvolvimento do cérebro, a mais sintomas de ansiedade e depressão e a maior risco de dependência, principalmente quando o uso começa antes dos 15 anos.


Pode dar um pouco de bebida alcoólica para adolescente em casa?


A orientação de saúde é adiar o primeiro gole o máximo possível. Um estudo com quase 2 mil famílias encontrou mais risco, e não proteção, entre adolescentes que recebiam bebida dos pais. E o ECA proíbe oferecer bebida alcoólica a menores de 18, mesmo de graça e dentro de casa. Se já aconteceu, dá para mudar o combinado agora, explicando o porquê ao seu filho.


Como conversar com meu filho adolescente sobre álcool?


Comece cedo, em momentos tranquilos, usando situações do dia a dia, como uma propaganda ou uma cena de série. Pergunte o que ele pensa antes de dar sua opinião, explique os riscos sem exagero e combine regras claras. Deixe claro que, se ele estiver em perigo, pode ligar para você a qualquer hora.


O que fazer se meu filho adolescente chegar bêbado ou passar mal depois de beber?


Primeiro a segurança: não deixe seu filho sozinho e, se estiver sonolento, deite-o de lado. Se estiver muito sonolento, difícil de acordar, vomitando sem parar, confuso ou respirando de um jeito estranho, ligue para o SAMU 192. Não dê café nem banho frio. A conversa sobre o que aconteceu fica para quando ele estiver bem, com calma.


Onde buscar ajuda se meu filho adolescente está bebendo?


Comece pela Unidade Básica de Saúde ou por um profissional com experiência em adolescência. Pelo SUS, o CAPS Infantojuvenil ou o CAPS AD, conforme a cidade, atende uso de álcool. Em intoxicação, SAMU 192; em sofrimento emocional intenso, CVV 188.


Como saber se a bebida pode estar adulterada com metanol?


Nem sempre dá para perceber pelo gosto ou pelo cheiro. Desconfie de destilados muito baratos, vendidos em lugares informais, sem rótulo, com lacre violado ou rótulo malfeito. Se alguém tiver visão turva, dor abdominal forte, tontura ou confusão horas depois de beber, procure um pronto-socorro imediatamente e ligue para o Disque-Intoxicação: 0800 722 6001.


Posso fazer festa em casa e deixar os amigos do meu filho beberem?


Não. O ECA proíbe fornecer bebida alcoólica a menores de 18 anos, mesmo de graça e mesmo dentro de casa, e isso vale também para quem organiza a festa. Avise os pais dos convidados de que não haverá álcool, combine os horários e ofereça outras bebidas e comidas.


Conclusão


O álcool faz parte da vida de muitas famílias brasileiras, e é provável que seu filho tenha contato com ele antes dos 18 anos. A pergunta mais útil não é como impedir de forma absoluta, e sim como adiar esse contato, diminuir os riscos e manter o canal de conversa aberto.


As pesquisas apontam o caminho: conversar cedo e muitas vezes, explicar as regras em vez de só proibir, acompanhar sem vigiar, não oferecer bebida em casa e dar o exemplo. E, acima de tudo, garantir que o adolescente saiba que, se algo der errado numa festa, pode ligar para você.


Conversar sobre álcool é também conversar sobre emoções, amizades, pressão do grupo e limites. Quando o adolescente tem onde levar essas questões, precisa menos de um copo para lidar com elas.


Sobre a autora


Paloma Garcia é terapeuta cognitivo-comportamental da infância e adolescência, neuropsicopedagoga e orientadora parental. É formada em Psicopedagogia (UNIFIEO), com pós-graduação em Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional (UNIP) e em Terapia Cognitivo-Comportamental da Infância e Adolescência (CETCC), e tem registro na SBNPp (nº 9947). Atende adolescentes e famílias desde 2016, hoje em formato on-line.


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