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Alcoolismo dos pais: como afeta o adolescente e como protegê-lo

Foto do escritor: Paloma Garcia
Paloma Garcia
15 de ago. de 2024
21 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

Atualizado em outubro de 2026


Crescer com um pai ou uma mãe com alcoolismo aumenta o risco de ansiedade, depressão, problemas na escola e uso de álcool, mas a maioria dos filhos não repete o problema. Ter ao menos um adulto de confiança, uma rotina previsível e informação adequada à idade protege o adolescente. O tratamento de quem bebe e o apoio a quem não bebe também fazem diferença.

É sexta-feira e as amigas combinam de estudar na casa de alguém. A menina de 15 anos diz que na casa dela não dá, porque a mãe está com dor de cabeça. É a mesma desculpa de sempre, e ela já perdeu a conta de quantas vezes a usou.


À noite, ela presta atenção ao barulho da chave na porta. Pelo jeito como o pai abre a porta e pelo tom da voz, ela sabe se a noite vai ser tranquila ou não. Quando ele chega falando alto, ela leva a irmã de 8 anos para o quarto e coloca um filme no celular.


No dia seguinte, a mãe pede: "Não comenta isso com ninguém, tá? Seu pai está passando por uma fase difícil." A menina concorda. Na escola, os professores comentam que ela anda distraída e cansada.


Alcoolismo dos pais: homem deitado no sofá da sala segurando uma garrafa de bebida alcoólica.

Situações como essa são mais comuns do que parecem e costumam ficar escondidas dentro de casa. O alcoolismo de um pai ou de uma mãe afeta a família inteira, e o adolescente muitas vezes carrega preocupações e responsabilidades que não deveriam ser dele.


A pesquisa mostra que esse ambiente aumenta alguns riscos, mas também mostra que a maioria dos filhos de pais com alcoolismo não repete o problema, especialmente quando tem apoio. Este guia explica o que é o alcoolismo, como ele afeta o adolescente, se o filho vai repetir o problema e o que a família pode fazer: como conversar com o adolescente, o que o pai ou a mãe que não bebe pode fazer, o que o pai ou a mãe que bebe pode fazer, como garantir a segurança e quando buscar ajuda.


⚠️ Aviso: este conteúdo tem finalidade educativa e se baseia em pesquisas científicas. Não substitui avaliação nem acompanhamento profissional. Em situação de violência, ligue para o 190. Para denunciar violência contra crianças e adolescentes, ligue para o Disque 100. Em crise emocional ou risco à vida, ligue para o CVV (188) ou o SAMU (192).


1. O que é alcoolismo e como reconhecer


O termo alcoolismo é usado no dia a dia para descrever o que os manuais diagnósticos chamam de transtorno por uso de álcool. Ele é uma condição de saúde, que tem tratamento. Tratar o alcoolismo como defeito de caráter aumenta a vergonha e dificulta a busca por ajuda.


Sinais do transtorno por uso de álcool


O diagnóstico é feito por um profissional de saúde, com base em critérios como:


  • beber mais ou por mais tempo do que pretendia;

  • tentar diminuir ou parar e não conseguir;

  • passar muito tempo bebendo ou se recuperando dos efeitos;

  • sentir vontade intensa de beber;

  • deixar de cumprir obrigações em casa, no trabalho ou com os filhos por causa da bebida;

  • continuar bebendo mesmo com brigas e problemas na família;

  • abandonar atividades importantes;

  • beber em situações perigosas, como antes de dirigir;

  • precisar beber cada vez mais para sentir o mesmo efeito;

  • sentir sintomas de abstinência, como tremores, suor, ansiedade e insônia, quando para de beber.


Pelos critérios diagnósticos, a presença de dois ou mais desses sinais ao longo de um ano indica o transtorno, que pode ser leve, moderado ou grave.


Por que a linguagem importa


Palavras como "alcoólatra", "bêbado" ou "pinguço" carregam estigma. Num estudo de John Kelly e Cassandra Westerhoff (2010), profissionais de saúde mental julgaram de forma mais punitiva a mesma pessoa quando ela foi descrita como "abusadora de substâncias" do que quando foi descrita como "pessoa com transtorno por uso de substâncias".


Para o adolescente, ouvir que o pai ou a mãe tem uma condição de saúde que pode ser tratada costuma ser menos doloroso do que ouvir rótulos que aumentam a vergonha. Neste guia, usamos "pai ou mãe com alcoolismo" e "dependência de álcool".


2. Quantas famílias vivem isso e por que se fala tão pouco


Os números


No Brasil, o Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos (LENAD Família), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), estimou em 2013 que cerca de 28 milhões de brasileiros viviam com um familiar dependente de álcool ou de outras drogas. Cerca de 80% dos familiares entrevistados eram mulheres, muitas delas mães.


Nos Estados Unidos, um relatório da agência federal de saúde mental e uso de substâncias (SAMHSA), de 2017, estimou que cerca de 1 em cada 10 crianças e adolescentes vivia com um pai ou uma mãe com transtorno por uso de álcool.


O segredo e a vergonha


Muitas famílias escondem o alcoolismo por vergonha, medo do julgamento ou para proteger quem bebe. O adolescente aprende cedo a guardar o segredo: inventa desculpas para não receber amigos, evita falar sobre a família, finge que está tudo bem.


A terapeuta norte-americana Claudia Black, que trabalhou com filhos de pessoas com alcoolismo, descreveu três regras implícitas comuns nessas famílias: não falar, não confiar, não sentir. É uma descrição clínica, e não um resultado de pesquisa, mas ajuda muitas famílias a reconhecer o que acontece em casa. Essas regras protegem o segredo, mas deixam o adolescente sozinho com o que sente.


3. Como o alcoolismo dos pais afeta o adolescente


O que a pesquisa mostra


Em 2020, Sofie Kuppens e colegas publicaram uma metanálise com 56 estudos que acompanharam famílias ao longo do tempo. O uso de álcool e de outras substâncias pelos pais se associou a um efeito negativo pequeno, mas consistente, sobre o bem-estar dos filhos. Isso significa que o alcoolismo dos pais aumenta o risco de dificuldades, mas está longe de determinar o futuro dos filhos.


O psicólogo Kenneth Sher (1997), que revisou décadas de pesquisa com filhos de pessoas com alcoolismo, destacou que esses filhos formam um grupo muito diverso: alguns apresentam dificuldades importantes, e muitos não apresentam problemas significativos.


Efeitos emocionais mais comuns


  • Ansiedade e preocupação constante: o adolescente vive em alerta, tentando prever o humor do pai ou da mãe, como a menina que presta atenção ao barulho da chave.

  • Culpa: muitos acreditam que, se se comportassem melhor, o pai ou a mãe beberia menos.

  • Vergonha: da família, do próprio pai ou mãe, de convidar amigos.

  • Tristeza e sintomas depressivos.

  • Raiva: do pai ou da mãe que bebe, e às vezes também de quem não bebe, por não resolver a situação.

  • Dificuldade de confiar nas pessoas, porque promessas em casa costumam ser quebradas.


Adolescente sentada no chão, encostada na parede, com o rosto escondido nos joelhos, em sofrimento.

Na escola


A escola costuma ser um dos lugares onde as dificuldades aparecem primeiro:


  • cansaço, por ter dormido mal ou cuidado dos irmãos;

  • dificuldade de concentração;

  • queda no rendimento ou notas muito irregulares;

  • faltas;

  • isolamento ou, ao contrário, desempenho perfeito, como forma de compensar o que acontece em casa.


Nas relações


Alguns adolescentes se isolam para não expor a família. Outros buscam relações muito intensas fora de casa, à procura do apoio que não encontram nela. A dificuldade de confiar e o medo de abandono podem aparecer nas amizades e nos primeiros namoros.


Experiências adversas na infância


O estudo sobre experiências adversas na infância (ACE, na sigla em inglês), conduzido nos Estados Unidos, considera o alcoolismo dos pais uma dessas experiências. Robert Anda e colegas (2002) mostraram que adultos que cresceram com um pai ou uma mãe com alcoolismo tinham, em média, mais experiências adversas, como violência e negligência, e mais risco de alcoolismo e depressão na vida adulta. O risco aumentava com o número de experiências adversas.


Isso mostra que o alcoolismo raramente vem sozinho: muitas vezes ele traz junto conflitos, violência, dificuldades financeiras e separações. Proteger o adolescente envolve também diminuir essas outras adversidades.


4. O que acontece no cérebro com o estresse prolongado


O Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade Harvard usa o termo estresse tóxico para descrever o estresse intenso, frequente ou prolongado, vivido sem o apoio de adultos que ajudem a criança ou o adolescente a se acalmar.


Pesquisas com crianças e adolescentes que viveram estresse precoce, como as revisadas por Michael De Bellis e Abigail Zisk (2014), encontraram diferenças em regiões cerebrais ligadas à regulação das emoções, à memória e à percepção de ameaça. Um estudo de Jamie Hanson e colegas (2015) associou o estresse no início da vida a diferenças no volume do hipocampo e da amígdala e a mais problemas de comportamento.


Esses resultados exigem cuidado na interpretação:


  • são associações, e não provas de que o estresse causou um dano definitivo;

  • variam muito de pessoa para pessoa;

  • o cérebro adolescente continua em transformação. Pesquisadores como Sarah-Jayne Blakemore descrevem a adolescência como um período sensível, em que experiências positivas também deixam marcas.


O mesmo Centro de Harvard destaca que o fator mais comum entre crianças que desenvolvem resiliência é ter ao menos uma relação estável e de apoio com um adulto. Esse é o ponto de partida para as técnicas da seção 11.


5. O adolescente vai repetir o problema?


Essa é uma das maiores preocupações dos pais e dos próprios adolescentes.


O risco existe, e é parcialmente genético


Segundo o NIAAA, o instituto norte-americano de pesquisa sobre álcool e alcoolismo, os filhos de pessoas com alcoolismo têm cerca de quatro vezes mais chance de desenvolver problemas com álcool do que a população em geral. Uma metanálise de Brad Verhulst, Michael Neale e Kenneth Kendler (2015), com estudos de gêmeos e de adoção, estimou que cerca de metade da variação no risco de transtorno por uso de álcool se deve a fatores genéticos. A outra metade depende do ambiente: o que a pessoa vive, aprende e encontra ao longo da vida.


Mas a maioria não repete


Mesmo com o risco aumentado, mais da metade dos filhos de pessoas com alcoolismo não desenvolve alcoolismo, segundo o NIAAA. A pesquisa de Emmy Werner e Jessie Johnson (2004), baseada num estudo que acompanhou por décadas crianças nascidas na ilha de Kauai, no Havaí, mostrou que muitos filhos de pais com alcoolismo se tornaram adultos saudáveis, e que o apoio de adultos atenciosos foi um dos fatores que fizeram diferença.


Fatores que protegem


  • ao menos um adulto de confiança: o pai ou a mãe que não bebe, avós, tios, professores, treinadores;

  • rotina previsível em casa, mesmo que parcial;

  • informação adequada: entender que o alcoolismo é uma condição de saúde e que a culpa não é dele;

  • habilidades de regular as emoções;

  • atividades em que ele se sinta competente: esportes, arte, estudos;

  • amizades e grupos de apoio;

  • adiar o primeiro contato com o álcool. O guia sobre álcool na adolescência explica como conversar e prevenir;

  • tratamento do pai ou da mãe que bebe.


Como falar sobre o risco com o adolescente


Adolescentes que sabem do risco podem fazer escolhas mais conscientes, desde que a informação venha sem tom de destino.


❌ Evite: "Se você beber, vai ficar igual ao seu pai."


✅ Prefira: 💬 "Como tem alcoolismo na nossa família, seu corpo pode ter mais facilidade de criar dependência. Isso não quer dizer que vai acontecer. Quer dizer que vale a pena você ter mais cuidado com a bebida, e eu estou aqui para conversar sobre isso."


6. Papéis que o adolescente assume


Em famílias com alcoolismo, os filhos muitas vezes assumem papéis que não são próprios da idade.


Cuidar dos irmãos e da casa


Como a menina da cena, muitos adolescentes protegem os irmãos mais novos, preparam refeições, organizam a casa e cobrem as faltas dos adultos. O psicólogo Gregory Jurkovic (1997) chamou de parentificação a situação em que o filho passa a cuidar dos pais ou dos irmãos de forma excessiva, como se fosse o adulto da casa.


Cuidar do pai ou da mãe


Alguns adolescentes acordam o pai ou a mãe para o trabalho, escondem garrafas, ligam para justificar faltas, cuidam de quem bebeu demais.


Ser o confidente de quem não bebe


Às vezes, o pai ou a mãe que não bebe, sobrecarregado, passa a desabafar com o filho sobre o casamento e as dificuldades. Isso coloca o adolescente numa posição difícil, entre os dois.


Compensar


Alguns adolescentes tentam ser perfeitos: tiram notas altas, nunca dão trabalho, cuidam de todos. Por fora, parecem bem. Por dentro, podem estar exaustos e sem espaço para as próprias necessidades.


O que fazer


  • Reconheça o que o adolescente tem feito, sem transformar isso em elogio que incentive a continuar.

  • Devolva as responsabilidades de adulto aos adultos, mesmo que isso exija buscar ajuda de outros familiares ou de serviços.

  • Proteja o tempo dele para estudar, descansar e conviver com amigos.

  • Não use o adolescente como confidente principal. Esse apoio precisa vir de outros adultos e de profissionais.


💬 "Você tem cuidado muito da sua irmã, e eu sei que isso não é justo com você. A partir de agora, eu e a tia vamos nos organizar para isso ficar com a gente."


Os guias sobre burnout parental e separação dos pais na adolescência também tratam da parentificação.


7. Como conversar com o adolescente sobre o alcoolismo do pai ou da mãe


Muitas famílias evitam o assunto, achando que assim protegem o adolescente. Mas ele costuma perceber o que acontece, e evitar o assunto tende a aumentar a confusão e a culpa.


Passo a passo


1. Escolha um momento calmo, quando ninguém estiver sob efeito do álcool.


2. Nomeie o problema com clareza e sem rótulos.


💬 "Você já deve ter percebido que o seu pai bebe demais. Isso tem nome: é uma doença chamada alcoolismo, ou dependência de álcool. Ela faz a pessoa perder o controle sobre a bebida."


3. Diga que a culpa não é dele.


💬 "Nada do que você faz ou deixa de fazer causa a bebida do seu pai. Não é culpa sua."


4. Separe a pessoa da doença, quando for verdade.


💬 "Seu pai te ama. Quando ele bebe, ele fica diferente, e isso é por causa da doença."


5. Valide os sentimentos, inclusive os difíceis.


💬 "Você pode sentir raiva, vergonha, tristeza ou tudo isso junto. Todos esses sentimentos fazem sentido."


6. Não peça segredo absoluto. Ensine com quem ele pode falar.


❌ Evite: "Não comenta isso com ninguém."


✅ Prefira: 💬 "Isso é um assunto da família, e você não precisa contar para todo mundo. Mas você pode falar com a tia, com a sua psicóloga ou com alguém de confiança sempre que precisar."


7. Explique o que está sendo feito.


💬 "Eu estou buscando ajuda, e a gente vai cuidar para você e sua irmã ficarem bem."


8. Deixe a porta aberta para outras conversas.


Os 7 Cs


A NACoA, associação norte-americana de apoio a filhos de pessoas com dependência, criou uma forma simples de ajudar crianças e adolescentes a entender o seu lugar diante do alcoolismo, conhecida como os 7 Cs (pelas palavras em inglês):


  1. Eu não causei o alcoolismo.

  2. Eu não posso curar o alcoolismo.

  3. Eu não posso controlar o alcoolismo.

  4. Eu posso cuidar de mim mesmo,

  5. comunicando o que sinto,

  6. fazendo escolhas saudáveis

  7. e celebrando quem eu sou.


Os 7 Cs ajudam a tirar do adolescente a responsabilidade que não é dele, e complementam o acompanhamento profissional.


8. Se você é o pai ou a mãe que não bebe


Conviver com alguém com alcoolismo é exaustivo. Muitas vezes, a pessoa que não bebe tenta proteger os filhos, controlar a bebida do outro, esconder o problema e manter a família funcionando, tudo ao mesmo tempo.


Proteger o adolescente


  • Garanta a segurança em primeiro lugar (veja a seção 10).

  • Mantenha o que for possível da rotina: horários de refeição, de sono, de estudo.

  • Esteja disponível para conversar e acolher o que ele sente.

  • Não peça que ele esconda, minta ou cuide de quem bebe.

  • Evite falar mal do outro genitor na frente do filho. É possível nomear o problema sem atacar a pessoa.


Não acobertar


Ligar para justificar faltas no trabalho, esconder as consequências da bebida ou limpar a bagunça depois pode parecer proteção. Mas, muitas vezes, isso impede que a pessoa perceba o tamanho do problema. Deixar que ela enfrente as consequências naturais do que faz, quando isso não coloca ninguém em risco, é diferente de abandoná-la.


Incentivar o tratamento: o que a pesquisa mostra


Muitos familiares tentam convencer a pessoa a se tratar com brigas, ameaças ou confrontos. A pesquisa mostra que isso costuma funcionar pouco.


Um programa chamado CRAFT (sigla em inglês para Reforço Comunitário e Treinamento Familiar), desenvolvido por Robert Meyers e Jane Ellen Smith, treina o familiar para:


  • reforçar os momentos em que a pessoa não bebe, com atenção e atividades prazerosas;

  • deixar que ela enfrente as consequências quando bebe;

  • comunicar a preocupação de forma calma, sem acusações;

  • escolher bons momentos para sugerir o tratamento;

  • cuidar da própria segurança e do próprio bem-estar.


Num estudo de William Miller, Robert Meyers e Scott Tonigan (1999), com 130 familiares acompanhados por um ano, o CRAFT levou 64% das pessoas a iniciar tratamento, contra 30% da "intervenção" confrontativa, em que a família reúne a pessoa para pressioná-la, e 13% de uma terapia que incentivava a participação no Al-Anon. Os três grupos tiveram melhora semelhante no bem-estar dos próprios familiares. Ou seja, o Al-Anon ajuda quem convive com o alcoolismo, e o CRAFT ajuda mais a levar a pessoa ao tratamento. As duas abordagens podem ser combinadas.


Vale perguntar ao psicólogo ou ao CAPS AD se trabalham com essa abordagem ou com orientação familiar baseada nela.


💬 "Eu gostei muito de passar o domingo com você assim. Quando você bebe, eu fico preocupada e as crianças ficam com medo. Se um dia você quiser procurar ajuda, eu vou junto."


Cuidar de si


Quem convive com o alcoolismo de alguém também precisa de cuidado. O Al-Anon é um grupo de apoio gratuito para familiares e amigos de pessoas com alcoolismo, presente em muitas cidades brasileiras e também on-line. Psicoterapia e orientação parental também ajudam. Leia o guia sobre burnout parental.


9. Se você é o pai ou a mãe que bebe


Se você está lendo este guia porque se preocupa com a própria bebida e com seus filhos, isso já é um passo importante. O alcoolismo tem tratamento, e muitas pessoas se recuperam.


Buscar tratamento


Há tratamentos com evidência científica para o transtorno por uso de álcool:


  • psicoterapia, como a terapia cognitivo-comportamental e a entrevista motivacional;

  • alguns medicamentos, prescritos por médico, que ajudam a reduzir a vontade de beber ou a manter a abstinência;

  • grupos de ajuda mútua, como os Alcoólicos Anônimos (AA). Uma revisão Cochrane de 2020 concluiu que programas ligados aos AA foram tão eficazes quanto outros tratamentos, e em alguns casos mais eficazes, para manter a abstinência.


Onde buscar pelo SUS: UBS (Unidade Básica de Saúde) e CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas).


Atenção: parar de beber de repente, depois de muito tempo bebendo grandes quantidades, pode causar sintomas graves de abstinência. Procure orientação médica antes de parar.


Proteger os filhos enquanto busca ajuda


  • Não dirija depois de beber, principalmente com os filhos no carro.

  • Combine com outro adulto quem fica responsável pelos filhos nos momentos em que você não estiver em condições.

  • Evite beber na frente dos filhos e evite conversas importantes quando tiver bebido.

  • Não peça que eles escondam ou justifiquem a sua bebida.


Conversar com os filhos


💬 "Eu tenho bebido demais, e isso tem atrapalhado a nossa família. Não é culpa de vocês. Eu estou buscando tratamento, e quero que vocês saibam que podem me dizer como se sentem."


Reparar


O adolescente pode estar magoado e desconfiado, e reconstruir a confiança leva tempo. Promessas grandes costumam gerar desconfiança. Atitudes pequenas e constantes ajudam mais: cumprir combinados, estar presente, ouvir sem se defender.


💬 "Eu sei que já prometi parar antes e não cumpri. Não vou te pedir para acreditar em mim agora. Vou te mostrar com o tempo."


10. Segurança: violência e situações de risco


Plano de segurança


Combine com o adolescente o que fazer em situações de risco:


  • para onde ir: um vizinho, um familiar, um quarto com chave;

  • para quem ligar: um adulto de confiança, o 190;

  • uma palavra combinada para pedir ajuda sem precisar explicar;

  • não entrar no carro com quem bebeu: combine alternativas, como chamar outro adulto ou um transporte.


💬 "Se seu pai tiver bebido e quiser te levar de carro, você não entra. Você me liga, e eu dou um jeito de te buscar."


Quando ligar para o 190


  • quando houver agressão física ou ameaça;

  • quando alguém estiver em perigo;

  • quando uma pessoa alcoolizada for dirigir com crianças ou adolescentes.


Proteção de crianças e adolescentes


Se o adolescente ou os irmãos estiverem sofrendo violência ou negligência, procure o Conselho Tutelar ou ligue para o Disque 100. Se a mãe ou outra mulher da casa estiver sofrendo violência, ela pode procurar a Delegacia da Mulher e ligar para o Ligue 180.


Intoxicação grave


Se a pessoa que bebeu estiver inconsciente, com respiração lenta ou irregular, vomitando sem acordar ou com convulsões, ligue para o SAMU (192). Coloque-a deitada de lado e não a deixe sozinha.


11. Técnicas para fortalecer o adolescente


11.1. Garantir ao menos um adulto de confiança


Por que funciona. A pesquisa sobre resiliência mostra que ter ao menos uma relação estável com um adulto que apoia é o fator mais comum entre crianças e adolescentes que se desenvolvem bem apesar das adversidades.


Como fazer:


1. Identifique quem pode ser esse adulto: o pai ou a mãe que não bebe, avós, tios, padrinhos, professores, treinadores.


2. Converse com essa pessoa sobre o que está acontecendo, com o consentimento do adolescente quando possível.


3. Crie oportunidades de convivência regular: um almoço por semana, uma atividade juntos, mensagens.


4. Faça com o adolescente um mapa da confiança, com três perguntas:


  • quem me escuta sem julgar?

  • quem pode me ajudar em uma emergência?

  • com quem eu me divirto e esqueço os problemas?


11.2. Criar uma rotina previsível


Por que funciona. Em casas com alcoolismo, o humor e os acontecimentos costumam ser imprevisíveis. Uma rotina estável, mesmo que parcial, devolve ao adolescente a sensação de que há coisas com que ele pode contar.


Como fazer:


  1. Mantenham alguns horários fixos: refeições, sono, estudos.

  2. Criem pequenos rituais: um café da manhã juntos, um passeio no fim de semana, uma conversa antes de dormir.

  3. Cumpra o que combinar. Se não puder, avise e explique.

  4. Proteja o sono: o quarto deve ser um lugar seguro e tranquilo.


11.3. Acalmar o corpo


Por que funciona. Adolescentes que vivem em alerta constante costumam ter o corpo agitado: coração acelerado, músculos tensos, dificuldade para dormir. Uma metanálise de Sophie Kjærvik e Brad Bushman (2024) mostrou que atividades que diminuem a ativação do corpo, como respiração lenta, relaxamento muscular e atenção plena, reduzem emoções intensas como a raiva.


Respiração diafragmática:


  1. Coloque uma mão no peito e outra na barriga.

  2. Inspire devagar pelo nariz, fazendo a barriga subir.

  3. Solte o ar devagar pela boca, por um tempo um pouco maior do que a inspiração.

  4. Repita por alguns minutos.


Relaxamento muscular progressivo:


  1. Contraia um grupo de músculos por alguns segundos, por exemplo, feche as mãos com força.

  2. Solte de uma vez e preste atenção na sensação de relaxamento.

  3. Passe para outros grupos: braços, ombros, rosto, barriga, pernas.


Exercício 5-4-3-2-1, uma prática clínica comum para voltar ao momento presente em situações de ansiedade:


  1. Observe 5 coisas que você vê.

  2. Observe 4 coisas que você pode tocar.

  3. Observe 3 sons.

  4. Observe 2 cheiros.

  5. Observe 1 sabor.


O passo a passo das técnicas de respiração e relaxamento também está no guia sobre raiva na adolescência.


11.4. Nomear e expressar emoções


Por que funciona. Em famílias em que vale a regra "não falar, não sentir", o adolescente pode ter dificuldade de reconhecer e expressar o que sente. Colocar a emoção em palavras ajuda a organizá-la.


Como fazer:


  • Ofereça palavras: 💬 "Parece que você ficou com medo ontem à noite. Foi isso?"

  • Aceite todas as emoções, inclusive a raiva do pai ou da mãe.

  • Ofereça outras formas de expressão, como escrever, desenhar, fazer música ou esporte, para quem tem dificuldade de falar.


11.5. Atividades e grupos


Por que funciona. Atividades em que o adolescente se sente competente e grupos com pessoas que vivem situações parecidas diminuem o isolamento e fortalecem a autoestima.


Como fazer:


  • Incentive atividades regulares ligadas aos interesses dele: esportes, arte, música, grupos de jovens.

  • Apresente o Alateen, a parte do Al-Anon voltada para adolescentes que convivem com o alcoolismo de alguém próximo. Nos grupos, eles encontram outros jovens com experiências parecidas.


11.6. A escola como aliada


Por que funciona. A escola é um dos lugares onde o adolescente passa mais tempo e onde as dificuldades costumam aparecer.


Como fazer:


  • Converse com a coordenação ou a orientação educacional, com o consentimento do adolescente, sobre o que for necessário.

  • Peça que os professores observem sinais de cansaço, tristeza ou isolamento.

  • Combinem formas de apoio, como flexibilidade em prazos em momentos de crise.


12. Sinais de alerta e onde buscar ajuda


Quando o adolescente precisa de ajuda profissional


  • tristeza persistente, isolamento, perda de interesse, alterações no sono ou no apetite;

  • ansiedade intensa, crises de pânico, medo constante;

  • pesadelos, sobressaltos, lembranças intrusivas de situações de violência;

  • queda importante no rendimento escolar ou faltas frequentes;

  • uso de álcool ou de outras drogas;

  • comportamentos de risco ou agressividade;

  • autolesão.



Quando buscar ajuda imediata


  • se o adolescente fala em morrer, em sumir ou em não querer viver;

  • se ele se machuca de propósito;

  • se há violência em casa.


Nesses casos, ligue para o CVV (188), o SAMU (192) ou o 190. Leia também o guia "Quero morrer": como acolher o risco de suicídio na adolescência.


Onde buscar ajuda


Para quem

Onde buscar

O adolescente

Psicólogo, CAPSi (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil), UBS, Alateen

O pai ou a mãe que bebe

UBS, CAPS AD, Alcoólicos Anônimos, psicoterapia, médico

O pai ou a mãe que não bebe

Al-Anon, psicoterapia, orientação parental

Situações de violência

190, Conselho Tutelar, Disque 100, Ligue 180


13. Perguntas frequentes sobre alcoolismo dos pais


O alcoolismo dos pais afeta os filhos adolescentes?


Pode afetar. A pesquisa mostra mais risco de ansiedade, depressão, problemas na escola e uso de álcool. Mas os efeitos variam muito, e muitos filhos não desenvolvem problemas graves, especialmente quando têm apoio de adultos de confiança.


Filho de alcoólatra vai ser alcoólatra?


Não necessariamente. Segundo o NIAAA, os filhos de pessoas com alcoolismo têm cerca de quatro vezes mais chance de desenvolver problemas com álcool, mas mais da metade não desenvolve alcoolismo. Adultos de confiança, rotina, informação e adiar o primeiro contato com o álcool ajudam a proteger.


Como explicar o alcoolismo do pai ou da mãe para o filho?


Escolha um momento calmo, nomeie o problema como uma doença, diga que a culpa não é dele, valide os sentimentos e explique o que está sendo feito. Evite rótulos e não peça segredo absoluto.


Devo pedir para meu filho não contar a ninguém?


Não é preciso contar para todo mundo, mas pedir segredo absoluto deixa o adolescente sozinho com o problema. Ensine com quem ele pode falar: familiares de confiança, profissionais, grupos como o Alateen.


O que fazer quando o pai ou a mãe bebe e fica agressivo?


Proteja a si e aos filhos: afastem-se, vão para um lugar seguro e liguem para o 190 se houver agressão ou ameaça. Combine um plano de segurança com o adolescente. Em caso de violência contra crianças e adolescentes, procure o Conselho Tutelar ou ligue para o Disque 100.


Como convencer alguém com alcoolismo a se tratar?


Brigas e confrontos costumam funcionar pouco. Num estudo, um programa chamado CRAFT, que treina o familiar a reforçar os momentos sem bebida e comunicar a preocupação com calma, levou 64% das pessoas ao tratamento, contra 30% da intervenção confrontativa.


O que é Al-Anon e Alateen?


O Al-Anon é um grupo de apoio gratuito para familiares e amigos de pessoas com alcoolismo. O Alateen é a parte voltada para adolescentes. Nos grupos, eles encontram outras pessoas que vivem situações parecidas.


Onde buscar tratamento pelo SUS?


Para quem bebe, a UBS e o CAPS AD. Para o adolescente, a UBS e o CAPSi. Os grupos de Alcoólicos Anônimos, Al-Anon e Alateen são gratuitos.


Meu filho cuida dos irmãos por causa do alcoolismo em casa. Isso é um problema?


Pode ser. Quando o adolescente assume responsabilidades de adulto com frequência, ele pode ficar sobrecarregado. Reconheça o que ele tem feito e busque apoio de outros adultos para devolver essas tarefas aos adultos.


Quais sinais mostram que o adolescente precisa de ajuda?


Tristeza persistente, isolamento, ansiedade intensa, pesadelos, queda no rendimento escolar, uso de álcool ou drogas, agressividade e autolesão. Se ele fala em morrer, procure ajuda imediata: CVV (188) ou SAMU (192).


Eu bebo demais. Como proteger meu filho?


Busque tratamento pela UBS, pelo CAPS AD ou com um profissional. Não dirija depois de beber, combine com outro adulto o cuidado dos filhos, converse com eles sem culpá-los e repare a relação com atitudes constantes.


A escola pode ajudar?


Sim. Com o consentimento do adolescente, a coordenação pode observar sinais de dificuldade, acolhê-lo e combinar formas de apoio, como flexibilidade em prazos em momentos de crise.


Conclusão


O alcoolismo de um pai ou de uma mãe afeta a família inteira, e o adolescente muitas vezes carrega preocupações, segredos e responsabilidades que não deveriam ser dele. A pesquisa mostra que esse ambiente aumenta alguns riscos, mas também mostra que a maioria dos filhos não repete o problema, especialmente quando tem apoio.


A família pode proteger o adolescente de várias formas:


  • garantir ao menos um adulto de confiança;

  • manter uma rotina previsível;

  • conversar com honestidade, sem rótulos e sem pedir segredo absoluto;

  • devolver aos adultos as responsabilidades de adulto;

  • garantir a segurança;

  • buscar tratamento para quem bebe e apoio para quem não bebe;

  • procurar ajuda profissional quando o adolescente mostrar sinais de sofrimento.


💬 "O que acontece com o seu pai não é culpa sua, e você não precisa resolver isso sozinha. A gente vai cuidar disso junto."


Sobre a autora


Paloma Garcia é terapeuta cognitivo-comportamental da infância e adolescência, neuropsicopedagoga e orientadora parental. É formada em Psicopedagogia (UNIFIEO), com pós-graduação em Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional (UNIP) e em Terapia Cognitivo-Comportamental da Infância e Adolescência (CETCC), e tem registro na SBNPp (nº 9947). Atende adolescentes e famílias desde 2016, hoje em formato on-line.


Referências bibliográficas


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