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Imagem corporal na adolescência: o que influencia, sinais de alerta e como proteger seu filho

Foto do escritor: Paloma Garcia
Paloma Garcia
25 de jan. de 2024
34 min de leitura

Atualizado: 1 de out.

Atualizado em outubro de 2026


Imagem corporal é a forma como a pessoa vê, pensa e sente o próprio corpo. Na adolescência, o corpo muda rápido e a opinião dos colegas passa a contar muito, o que torna essa fase mais sensível à insatisfação com a aparência. Em casa, o que mais protege é não comentar peso e aparência, falar de alimentação e movimento pelo cuidado com a saúde, e não pela balança, e acolher sem minimizar. Redes sociais, filtros e imagens criadas por inteligência artificial mostram corpos que não existem, e conversar sobre isso ajuda mais do que proibir. Mudanças bruscas na alimentação, vômitos, exercício em excesso ou isolamento por vergonha do corpo pedem ajuda profissional.

A filha de 14 anos troca de roupa quatro vezes antes de sair e volta para o quarto chorando. O filho de 15 começou a malhar todos os dias, cortou o arroz e passa horas vendo vídeos sobre "mandíbula marcada". Outra adolescente apaga todas as fotos em que aparece de corpo inteiro e só posta selfies com filtro. Muitos pais percebem que algo mudou, mas não sabem se é uma fase, uma vaidade própria da idade ou um sinal de sofrimento.


⚠️ Aviso: este conteúdo tem finalidade educativa e se baseia em literatura científica. Não substitui avaliação nem acompanhamento profissional. Em caso de crise ou risco, ligue para o CVV (188, gratuito, 24 horas) ou para o SAMU (192).


A adolescência sempre foi uma fase de atenção ao corpo. O que mudou é a quantidade de comparações possíveis: fotos retocadas, filtros que afinam o rosto, corpos esculpidos por cirurgias e procedimentos, aplicativos que dão nota para a beleza e, mais recentemente, pessoas que nem existem, criadas por inteligência artificial.


Este guia explica o que é imagem corporal e por que a adolescência é uma fase sensível, o que a família fala e faz em casa, como redes sociais, filtros e inteligência artificial influenciam, o que muda para meninas, meninos e adolescentes LGBTQIAPN+, os sinais de alerta, os riscos de canetas emagrecedoras, suplementos e procedimentos estéticos, como fortalecer a autoestima, o papel da escola e quando procurar ajuda.


1. O que é imagem corporal


Imagem corporal é a forma como cada pessoa percebe o próprio corpo e se relaciona com ele. Não é só o que aparece no espelho. Ela envolve:


  • o que a pessoa vê: como ela enxerga o tamanho e a forma do próprio corpo, que nem sempre corresponde ao que os outros veem;

  • o que ela pensa: as crenças sobre o corpo, como "se eu fosse mais magra, teria mais amigos";

  • o que ela sente: satisfação, vergonha, ansiedade, nojo, orgulho;

  • o que ela faz: checar o espelho o tempo todo, evitar fotos, esconder o corpo com roupas largas, fazer dietas, treinar demais.


Imagem corporal positiva


Ter uma imagem corporal saudável não significa achar o próprio corpo perfeito. As psicólogas Tracy Tylka e Nichole Wood-Barcalow, que estudam a imagem corporal positiva, descrevem que ela envolve respeitar e cuidar do corpo, valorizar o que ele faz, aceitar suas características mesmo quando não correspondem ao padrão e filtrar as mensagens externas que fazem mal. Uma pessoa pode não gostar de alguma parte do corpo e, ainda assim, ter uma relação boa com ele.


O que os números mostram no Brasil


A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, pergunta aos estudantes de 13 a 17 anos como eles se veem. Uma análise dos dados publicada na revista Cadernos de Saúde Pública mostrou que, em 2019, 28,6% das meninas se consideravam gordas ou muito gordas. Em todas as edições da pesquisa, as meninas aparecem mais insatisfeitas com o corpo do que os meninos.


Uma revisão de estudos de vários países, publicada em 2019 na American Journal of Clinical Nutrition, estimou que cerca de 8 em cada 100 mulheres e 2 em cada 100 homens têm algum transtorno alimentar ao longo da vida. Esses quadros costumam começar na adolescência e no início da vida adulta.


2. Por que a adolescência é uma fase sensível


O corpo muda rápido


Na puberdade, o corpo muda mais em poucos anos do que em qualquer outro momento depois da primeira infância: crescimento acelerado, seios, pelos, acne, mudança na distribuição de gordura, voz, músculos, menstruação. O adolescente precisa se acostumar com um corpo novo, muitas vezes antes de entender o que está acontecendo com ele.


A opinião dos outros passa a contar muito


Pesquisas de neurociência e psicologia do desenvolvimento, como as revisadas pela psicóloga Leah Somerville, mostram que na adolescência a sensibilidade à avaliação dos outros aumenta: ser observado, aceito ou rejeitado pelos colegas mobiliza mais emoção do que na infância ou na vida adulta. Por isso, um comentário sobre o corpo, uma foto em que ele não se reconhece ou poucas curtidas podem ter mais impacto do que os adultos imaginam.


Amadurecer antes ou depois dos colegas


Cada adolescente entra na puberdade num ritmo diferente, e o momento conta:


  • meninas que amadurecem mais cedo costumam ficar mais expostas a comentários e olhares sobre o corpo e mais insatisfeitas com ele;

  • meninos que amadurecem mais tarde podem se sentir pequenos, fracos ou infantis em comparação com os amigos.


As mudanças que mais preocupam


  • acne, estrias e celulite, que aparecem em grande parte dos adolescentes, mas quase nunca aparecem nas redes;

  • menstruação, crescimento dos seios, pelos e mudança de voz, que podem trazer vergonha quando ninguém conversou sobre isso antes;

  • ganho de peso na puberdade, que é esperado durante o crescimento e muitas vezes é interpretado como "engordar".


Explicar essas mudanças antes que aconteçam, com naturalidade, diminui o susto e a vergonha. O artigo sobre educação sexual na adolescência traz o que conversar em cada idade.


💬 "Estria aparece em quase todo mundo que cresce rápido. É o seu corpo crescendo, e não um defeito."


💬 "É normal o corpo ganhar peso na puberdade. Ele está se preparando para virar um corpo adulto."


3. O que a família fala e faz em casa


Antes das redes, o primeiro lugar em que o adolescente aprende a olhar para o próprio corpo é a família. E aqui está uma das orientações com evidência mais clara para os pais.


Falar de peso aumenta o risco; falar de saúde protege


Um estudo com cerca de 3.500 famílias norte-americanas, liderado pela pesquisadora Jerica Berge, da Universidade de Minnesota, encontrou que adolescentes cujos pais conversavam com eles sobre peso, emagrecer ou tamanho do corpo tinham mais chance de fazer dietas, adotar comportamentos alimentares de risco e ter episódios de compulsão. Já as conversas sobre alimentação saudável, sem mencionar peso, se associaram a menos dietas e menos comportamentos de risco, principalmente entre adolescentes com sobrepeso.


Apelidos e provocações sobre o corpo


Ser provocado por causa do peso, inclusive em casa e "de brincadeira", também se associa a mais comportamentos alimentares de risco. No Projeto EAT, um grande estudo que acompanhou adolescentes norte-americanos por anos, quem relatava provocações sobre o peso tinha mais chance de desenvolver compulsão e práticas de controle de peso arriscadas anos depois.


O que evitar


❌ Evite: "Você engordou?" "Essa roupa te emagrece." "Desse jeito ninguém vai querer namorar você." "Fecha a boca."


❌ Evite elogiar o emagrecimento: 💬 "Nossa, como você emagreceu, está linda!" Especialistas em transtornos alimentares costumam orientar a não fazer esse tipo de elogio, porque ele reforça a ideia de que o valor está no peso e pode estimular quem já está restringindo a comida.


❌ Evite falar mal do seu próprio corpo na frente dele: 💬 "Estou horrível, preciso emagrecer." O adolescente aprende com o que vê os adultos fazerem consigo mesmos.


❌ Evite comentar o corpo de outras pessoas, de parentes, vizinhos, artistas ou colegas dele.


❌ Evite usar comida como prêmio ou castigo e dividir os alimentos em "proibidos" e "permitidos" na frente dele.


O que ajuda


✅ Prefira falar de saúde, energia e prazer: 💬 "Vamos colocar mais legumes no prato porque fazem bem para o corpo todo."


✅ Faça refeições em família sempre que possível, com comida variada e sem comentários sobre quem comeu mais ou menos.


✅ Valorize o que o corpo faz, e não como ele parece: 💬 "Você nadou muito bem hoje."


✅ Ofereça movimento como prazer, e não como forma de queimar calorias: 💬 "Bora dar uma volta de bicicleta?"


Se o pediatra falar em sobrepeso


Se houver uma preocupação real com a saúde, a conversa sobre peso deve acontecer com o pediatra ou o médico de família, que pode avaliar o crescimento e orientar hábitos sem transformar o peso em tema da família. Em casa, o foco continua sendo a rotina: refeições regulares, sono, movimento e menos ultraprocessados, para a família inteira, e não só para ele.


Quando o comentário vem de fora


Avós, tios e amigos da família também comentam o corpo dos adolescentes, principalmente em festas e encontros. Você pode intervir com calma, sem expor ninguém:


💬 "Vamos deixar o corpo dele fora da conversa?"


E, depois, a sós com o adolescente:


💬 "Vi que aquele comentário te incomodou. Você não precisa ouvir isso calado. Se acontecer de novo, pode me chamar."


4. Redes sociais, filtros e algoritmos


Nas redes, o adolescente vê todos os dias corpos e rostos escolhidos, posados, iluminados e muitas vezes editados. Ele compara essas imagens com o próprio corpo real, visto no espelho do banheiro, sem filtro, e costuma sair perdendo.


O que as pesquisas mostram


  • Fotos retocadas diminuem a satisfação com o corpo. Num experimento holandês, 144 meninas de 14 a 18 anos viram fotos de Instagram de outra adolescente. Metade viu as fotos originais, e a outra metade viu as mesmas fotos retocadas. As meninas que viram as fotos retocadas ficaram menos satisfeitas com o próprio corpo, e o efeito foi maior entre as que costumam se comparar mais com os outros. As fotos retocadas também foram avaliadas como mais bonitas, o que ajuda a entender por que os filtros fazem tanto sucesso.

  • O uso de redes se associa a mais preocupação com o corpo. Revisões de estudos, como a de Grace Holland e Marika Tiggemann e a metanálise de Alyssa Saiphoo e Zahra Vahedi, encontram associação entre uso de redes sociais e mais insatisfação corporal e preocupação com o peso. O efeito médio é pequeno e varia muito de uma pessoa para outra.

  • O tipo de uso faz mais diferença do que o tempo total. Ver e postar fotos de aparência, editar as próprias fotos e se comparar com os outros são os comportamentos mais ligados à insatisfação.


O algoritmo


O feed aprende com o que o adolescente olha, curte e salva, e passa a mostrar mais do mesmo. Quem para alguns segundos em vídeos de dieta, "antes e depois" ou corpos muito magros ou muito musculosos tende a receber cada vez mais desse conteúdo, sem ter procurado por ele. Como isso funciona nos vídeos curtos está explicado no artigo sobre por que seu filho não larga o TikTok.


Conteúdos que incentivam magreza extrema


Em 2025, uma tendência chamada #SkinnyTok, com vídeos que glorificavam a magreza extrema disfarçada de "vida saudável", ganhou milhões de visualizações. Em junho de 2025, depois de pressão de autoridades europeias, o TikTok bloqueou a busca pelo termo e passou a direcionar quem o procura para informações de apoio. Organizações de apoio a pessoas com transtornos alimentares alertaram, porém, que conteúdos parecidos continuam circulando com outros nomes, como vídeos de "o que eu como em um dia" com quantidades muito abaixo do necessário.


No Brasil, o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), em vigor desde março de 2026, obriga as plataformas a adotar medidas para proteger crianças e adolescentes de conteúdos nocivos à saúde mental e a manter canais de denúncia.


O que fazer


Se o feed do seu filho está cheio desse tipo de conteúdo, converse sem bronca e, juntos:


  • marquem "não tenho interesse" nos vídeos que fazem mal;

  • deixem de seguir perfis que despertam comparação e culpa;

  • denunciem conteúdos que incentivam dietas extremas;

  • procurem perfis com corpos diversos e reais.


💬 "Percebi que aparecem muitos vídeos de dieta para você. Como você se sente depois de ver esses vídeos?"


O artigo sobre impacto das redes sociais na saúde mental dos adolescentes reúne o que a pesquisa mostra sobre comparação, autoestima e sono.


5. Inteligência artificial e imagem corporal: o que mudou


A inteligência artificial passou a fazer parte da forma como os adolescentes veem corpos e rostos, e não só pelos influenciadores virtuais.


Influenciadores e modelos que não existem


Os influenciadores virtuais, perfis com rosto e corpo criados por computação gráfica ou por inteligência artificial, existem há alguns anos. A Lil Miquela, criada em 2016, foi uma das primeiras a ficar conhecida no mundo. No Brasil, muita gente conhece a Lu, do Magalu, personagem virtual de uma rede de lojas.


Lil Miquela, influenciadora virtual criada por computação gráfica em 2016, posando em frente a um monumento.

O que mudou é que hoje qualquer pessoa ou empresa consegue criar, em poucos minutos, imagens de pessoas hiper-realistas. Modelos inteiramente criadas por IA, como a espanhola Aitana López, passaram a ser contratadas por marcas. Em agosto de 2025, a Vogue americana publicou um anúncio da marca Guess com uma modelo criada por inteligência artificial, identificada apenas por um aviso pequeno na página. O caso gerou críticas de leitores e profissionais da moda, principalmente porque as modelos criadas pela agência responsável seguiam um padrão muito parecido: magras, brancas, sem marcas, sem poros e sem nenhuma assimetria.


Aitana López, modelo criada por inteligência artificial por uma agência espanhola, com cabelo rosa e aparência sem nenhuma imperfeição.

Filtros e edição com inteligência artificial


Os filtros de beleza ficaram mais realistas e difíceis de perceber. Aplicativos de edição permitem afinar a cintura, aumentar os músculos, clarear a pele ou mudar o rosto com poucos toques. Isso torna cada vez mais difícil saber o que é real, e pode reforçar a ideia de que o corpo de verdade "precisa de ajustes".


Aplicativos que dão nota para o rosto


Entre os meninos, cresceu nos últimos anos a tendência chamada looksmaxxing, ideia de "maximizar a aparência" que nasceu em fóruns on-line e chegou ao TikTok. Ela vem com termos próprios, como mewing (pressionar a língua no céu da boca para marcar a mandíbula), e com aplicativos que usam inteligência artificial para dar uma nota de 0 a 10 para o rosto e sugerir "correções". Muitos cobram assinatura.


Esses aplicativos medem o rosto a partir de um padrão estreito de beleza, sem base científica para dizer quem é bonito, e pesquisadores que estudam o tema apontam que as sugestões dadas a meninos negros e asiáticos muitas vezes os empurram para traços mais próximos do padrão branco. Para um adolescente que já se sente inseguro, receber uma nota baixa de um aplicativo pode soar como uma sentença.


💬 "Esse aplicativo não sabe se você é bonito. Ele compara seu rosto com um modelo que alguém escolheu e ganha dinheiro quando você fica inseguro."


Chatbots que dão conselhos de dieta


Muitos adolescentes usam chatbots de inteligência artificial para tirar dúvidas, inclusive sobre corpo e alimentação. Em 2025, a organização Center for Countering Digital Hate testou o ChatGPT com perfis que simulavam adolescentes de 13 anos e relatou que mais da metade das respostas a perguntas sobre temas de risco foi prejudicial, e que, em cerca de 20 minutos, o chatbot montou um plano de dieta perigosamente restritivo e deu dicas para esconder comportamentos alimentares. É um relatório de uma organização, e não um estudo científico revisado por pares, e as empresas costumam ajustar as proteções depois desse tipo de teste. Mesmo assim, ele mostra que as proteções podem ser contornadas com facilidade.


💬 "Você já perguntou alguma coisa sobre dieta ou corpo para o chat? O que ele respondeu?"


Imagens falsas do corpo


A inteligência artificial também é usada para criar montagens e imagens íntimas falsas de adolescentes, principalmente de meninas, a partir de fotos comuns. Além de ser uma forma de violência, isso expõe o corpo da vítima de um jeito que ela não escolheu. Se acontecer, guarde as provas, denuncie à plataforma e procure ajuda. O passo a passo está nos guias sobre cyberbullying na adolescência e assédio contra meninas.


O aviso de "feito com IA" resolve?


Algumas redes passaram a marcar conteúdos gerados por inteligência artificial, e em alguns países há regras para avisar quando uma foto foi retocada. A ideia faz sentido, mas a pesquisa sugere cautela: uma metanálise de estudos sobre avisos do tipo "imagem retocada", publicada em 2020 no International Journal of Eating Disorders, concluiu que esses avisos não protegeram a imagem corporal de forma consistente. Saber que uma imagem é falsa não impede, por si só, a comparação. Por isso, a conversa em casa continua sendo necessária.


O que a pesquisa ainda não sabe


Os estudos sobre o efeito da inteligência artificial na imagem corporal ainda são poucos, recentes e, em geral, pequenos. Uma pesquisa com entrevistas, publicada em 2024 na revista Comunicar, ouviu jovens fãs de influenciadoras virtuais e encontrou relatos de comparação com padrões que elas sabiam ser impossíveis. Ainda não há estudos grandes com adolescentes. O que já se sabe sobre fotos retocadas e filtros permite supor que comparar o próprio corpo com uma imagem que não existe tende a aumentar a insatisfação, principalmente em quem já se compara muito.


O que fazer em casa


  • Mostre como as imagens são feitas: testem juntos um filtro ou uma ferramenta de edição e reparem no que muda.

  • Ensine a desconfiar do que parece perfeito demais: 💬 "Repara: essa pele não tem nenhum poro. Ninguém de verdade é assim."

  • Pergunte, sem julgamento, quais aplicativos ele usa para fotos, para nota de rosto ou para tirar dúvidas sobre corpo e comida.

  • Combine que dúvidas sobre dieta, treino e remédios são levadas a um profissional de saúde, e não a um aplicativo ou chatbot.


6. Quando a imagem corporal vira sofrimento: sinais de alerta


Na adolescência, é esperado prestar mais atenção ao corpo, experimentar estilos e se preocupar com a aparência. Pede atenção quando a preocupação passa a ocupar muito espaço, causa sofrimento e muda o comportamento.


A insatisfação intensa com o corpo se associa a mais sintomas de depressão, ansiedade, baixa autoestima e risco de transtornos alimentares. Uma metanálise de Shelly Grabe, Monique Ward e Janet Hyde, com dezenas de estudos, encontrou relação entre exposição a imagens de corpos magros idealizados e mais insatisfação corporal e mais crenças e comportamentos alimentares de risco.


Sinais que pedem atenção


  • Mudanças na alimentação: pular refeições, cortar grupos inteiros de alimentos, comer escondido, comer grandes quantidades de uma vez e se sentir culpado depois, ir ao banheiro logo depois de comer, evitar comer na frente dos outros.

  • Exercício em excesso: treinar mesmo doente ou machucado, ficar muito ansioso ou irritado quando não consegue treinar.

  • Evitar situações por vergonha do corpo: praia, piscina, educação física, festas, fotos.

  • Checagem constante: espelho, balança, medir partes do corpo, beliscar a barriga, pedir que os outros digam se engordou.

  • Uso intenso de filtros, edição ou aplicativos de nota e recusa em aparecer em fotos sem edição.

  • Falas de desvalorização: 💬 "Sou horrível", 💬 "Ninguém vai gostar de mim assim", 💬 "Meu corpo é nojento".

  • Isolamento, tristeza, irritação e perda de interesse pelo que gostava.

  • Mudanças físicas: perda ou ganho de peso rápido, tontura, desmaios, cansaço, sentir frio o tempo todo, menstruação que para.

  • Embalagens de remédios, laxantes, diuréticos, chás ou suplementos escondidas.


Transtornos ligados à imagem corporal


Quadro

O que é

Transtorno dismórfico corporal

Preocupação intensa com defeitos na aparência que outras pessoas não percebem ou acham pequenos, com checagem constante e sofrimento

Dismorfia muscular (conhecida como vigorexia)

Forma do transtorno dismórfico em que a pessoa se vê pequena ou fraca mesmo sendo musculosa; costuma vir com treinos excessivos e uso de suplementos ou anabolizantes

Anorexia nervosa

Restrição alimentar intensa, medo de ganhar peso e percepção distorcida do próprio corpo

Bulimia nervosa

Episódios de comer em grande quantidade seguidos de comportamentos para compensar, como vômitos ou exercício excessivo

Transtorno de compulsão alimentar

Episódios de comer em grande quantidade com sensação de perda de controle, culpa e vergonha

Ortorexia

Preocupação excessiva em comer apenas o que se considera "limpo" ou "saudável"; não é um diagnóstico formal, mas pode trazer prejuízos


Transtornos alimentares são quadros graves, com riscos físicos e emocionais, e quanto mais cedo começa o tratamento, melhores costumam ser os resultados. Eles também podem acontecer em adolescentes com peso considerado normal ou acima do peso, por isso o peso, sozinho, não é um bom sinal para saber se o filho está bem.


Se a insatisfação com o corpo vem junto com tristeza persistente ou preocupação constante, leia também os guias sobre depressão na adolescência e ansiedade na adolescência.


Ouvir antes de corrigir


Quando o adolescente diz que não gosta do corpo, a reação de muitos adultos é discordar na hora. A intenção é boa, mas a conversa costuma acabar ali, porque ele sente que não foi ouvido.


❌ Evite: "Que bobagem, você não está gorda."


✅ Prefira: "Parece que você está se sentindo muito mal com o seu corpo. Me conta o que está acontecendo."


💬 "O que você sente sobre o seu corpo importa, e eu quero entender."


7. Meninas, meninos e diferentes corpos


A pressão sobre o corpo atinge todos os adolescentes, mas aparece de formas diferentes.


Meninas


Desde cedo, muitas meninas aprendem que o corpo delas está ali para ser olhado e avaliado. As psicólogas Barbara Fredrickson e Tomi-Ann Roberts descreveram esse processo na teoria da objetificação: de tanto ser avaliada pela aparência, a menina passa a se vigiar como se estivesse sempre sendo observada, e isso se associa a mais vergonha do corpo, mais ansiedade e mais risco de transtornos alimentares. Comentários e investidas sobre o corpo das meninas também fazem parte desse cenário, e o guia sobre assédio contra meninas explica como proteger e acolher.


Meninos


Nos meninos, a pressão costuma ir na direção dos músculos, da altura, da força e, mais recentemente, do rosto "marcado", com mandíbula larga e traços considerados masculinos. Muitos passam a treinar demais, a comer apenas certos alimentos e a usar suplementos, e alguns chegam aos anabolizantes. Os meninos também costumam falar menos sobre o que sentem e pedir menos ajuda, o que faz com que o sofrimento com o corpo passe despercebido.


❌ Evite: "Homem não liga para isso."


✅ Prefira: "Percebi que você está treinando todo dia e falando muito de suplemento. Como você está se sentindo com o seu corpo?"


Adolescentes LGBTQIAPN+


Adolescentes LGBTQIAPN+, especialmente trans e não binários, costumam relatar mais sofrimento com o corpo, em parte pelo desconforto com características ligadas ao gênero que não reconhecem como suas, e em parte pela rejeição e pelo preconceito que enfrentam. Para eles, ser respeitado na própria identidade faz parte do cuidado com a imagem corporal. O guia como acolher seu filho LGBTQIAPN+ pode ajudar.


Corpos gordos


Adolescentes gordos convivem com apelidos, piadas, olhares e cobranças em casa, na escola e nas redes, muitas vezes desde a infância. Esse preconceito, chamado gordofobia ou estigma do peso, não ajuda ninguém a ter mais saúde. Como mostraram os estudos citados na seção 3, ele se associa a mais comportamentos alimentares de risco. Um adolescente gordo precisa de cuidado com a saúde como qualquer outro, e não de vergonha.


Cabelo, cor e padrões de beleza


No Brasil, o padrão de beleza que aparece nas redes e na publicidade ainda é, em boa parte, branco, magro e de cabelo liso, e as imagens criadas por inteligência artificial tendem a repetir esse padrão. Adolescentes negros costumam ouvir comentários sobre o cabelo, o nariz, a boca e a cor da pele desde cedo, e muitos crescem tentando esconder ou mudar essas características. Mostrar referências de beleza diversas, valorizar o cabelo natural quando o adolescente quiser e acolher quando ele relatar comentários racistas fazem parte de proteger a autoestima.


Adolescentes com deficiência


Adolescentes com deficiência raramente se veem representados nas imagens de beleza, e muitos ouvem desde cedo comentários sobre o que o corpo deles não faz. Valorizar o que eles conseguem fazer, incluí-los em atividades corporais adaptadas e buscar referências de pessoas com deficiência nas redes ajudam a construir uma relação mais gentil com o próprio corpo.


8. Canetas emagrecedoras, suplementos e procedimentos estéticos


Canetas emagrecedoras


Os remédios conhecidos como canetas emagrecedoras, à base de semaglutida, tirzepatida e substâncias parecidas, são indicados para diabetes tipo 2 e obesidade, com prescrição e acompanhamento médico. Nos últimos anos, o uso para fins puramente estéticos se espalhou. Em 2025, ao discutir o tema, a Anvisa apresentou dados indicando que cerca de 45% das pessoas que usavam esses medicamentos não tinham prescrição médica. A partir de junho de 2025, a agência passou a exigir a retenção da receita na farmácia.


Para adolescentes, esses remédios não devem ser usados sem indicação e acompanhamento médico. Se seu filho fala em "caneta", pesquisa sobre isso ou pede para usar, converse com calma sobre o que está por trás do desejo e procure o pediatra.


💬 "Percebi que você está pesquisando sobre caneta para emagrecer. Me conta o que está te fazendo pensar nisso?"


Remédios, chás e "detox"


Remédios para emagrecer comprados pela internet, laxantes, diuréticos, chás e produtos "detox" podem trazer riscos sérios e são muitas vezes usados de forma escondida por adolescentes em sofrimento com o corpo. Encontrar esses produtos é motivo para conversar e buscar avaliação profissional, e não para castigar.


Suplementos e anabolizantes


Muitos meninos começam com suplementos e passam a outras substâncias por indicação de colegas da academia ou de influenciadores. Anabolizantes podem afetar o coração, o fígado, os hormônios e o crescimento, e o uso na adolescência é especialmente arriscado. Treinar é saudável. O sinal de alerta é quando o treino e o corpo viram obsessão.


Procedimentos estéticos


Cada vez mais adolescentes pedem procedimentos estéticos, como preenchimentos, "harmonização facial" e cirurgias, muitas vezes inspirados em rostos vistos com filtro ou em notas de aplicativos. Antes de qualquer decisão, converse sobre o que motiva o pedido e procure orientação médica e psicológica. Quando o desejo de mudar o corpo vem com sofrimento intenso e checagem constante, pode ser sinal de transtorno dismórfico corporal, e nesse caso o procedimento costuma não resolver a insatisfação.


9. Como fortalecer a autoestima e proteger a imagem corporal: técnicas com base na ciência


As estratégias abaixo vêm de pesquisas sobre prevenção de transtornos alimentares e promoção de uma imagem corporal saudável. A maior parte foi testada em programas organizados, em escolas, grupos ou consultórios, principalmente com meninas e jovens mulheres. Em casa, o que os pais fazem são adaptações dessas técnicas. Elas não substituem tratamento quando há sofrimento intenso, mas ajudam a proteger e a fortalecer. Funcionam melhor quando combinadas e repetidas ao longo do tempo, e não feitas uma vez só.


1. Ampliar as fontes de valor


As pesquisas da psicóloga Jennifer Crocker sobre autoestima mostram que, quando o valor que a pessoa dá a si mesma depende muito de uma única área, como a aparência, a autoestima fica mais instável e mais ligada a sofrimento. Um dia com espinha ou um comentário sobre o corpo derruba tudo. Quando o adolescente se valoriza por várias coisas ao mesmo tempo, um problema numa área não derruba as outras.


Como fazer em casa:


  • Monte com ele um "mapa do que eu sou". Numa folha, ele escreve o que faz bem, do que gosta, como trata as pessoas, o que considera importante e quem gosta dele. Faça o seu também e troquem. O objetivo é que ele veja, por escrito, que a aparência é só uma parte de quem ele é.

  • Elogie de forma específica, e por coisas que dependem dele: esforço, criatividade, humor, coragem, cuidado com os outros.

  • Ofereça experiências em que o corpo não é avaliado: música, desenho, voluntariado, ciência, jogos, cozinha, escrita. Quanto mais áreas em que ele se sente capaz, menos espaço a aparência ocupa.


💬 "Gostei muito do jeito que você ajudou seu irmão hoje. Você teve paciência."


2. Questionar o padrão de beleza


O programa de prevenção de transtornos alimentares com mais evidência científica se chama Body Project, criado pelo psicólogo Eric Stice. Nele, meninas e jovens mulheres criticam o padrão de beleza em voz alta, por escrito e na prática, em encontros em grupo. A ideia vem da teoria da dissonância cognitiva: quando a pessoa argumenta contra um padrão, fica mais difícil continuar perseguindo esse padrão.


Uma revisão de 56 estudos, com quase 8 mil participantes, mostrou que esse tipo de programa reduz a insatisfação com o corpo, as dietas e os sintomas de transtornos alimentares. Em alguns estudos, os efeitos duraram até 3 anos, com menor risco de a pessoa desenvolver um transtorno alimentar. O programa também foi testado com meninas brasileiras e reduziu a insatisfação corporal e os sintomas depressivos, além de aumentar a apreciação do próprio corpo.


Como adaptar em casa:


Faça perguntas que levem o adolescente a pensar sobre o padrão, em vez de dar a resposta pronta:


💬 "De onde você acha que vem esse padrão de corpo que aparece em todo lugar?"


💬 "Quem ganha dinheiro quando as pessoas se sentem mal com o próprio corpo?"


💬 "Quanto custa tentar ter esse corpo? Em tempo, em dinheiro, em saúde, em humor?"


Proponha uma carta para uma criança mais nova. Peça que ele escreva para uma prima, um irmão ou uma criança imaginária de 10 anos, explicando o que gostaria que ela soubesse sobre corpo, redes e padrões de beleza. Escrever para outra pessoa costuma ser mais fácil do que pensar sobre si mesmo.


Ensaiem respostas. Brinquem de um fazer o papel de alguém que defende o padrão e o outro responder:


💬 "Se uma amiga sua dissesse que precisa emagrecer para ir à festa, o que você falaria para ela?"


Pequenos desafios, só se ele quiser: fazer algo que o padrão diria para não fazer, como postar uma foto sem filtro, ir à piscina ou usar a roupa de que gosta mesmo sem ter "o corpo certo" para ela. Comece pelo que for mais fácil para ele, e nunca force.


Se a escola do seu filho tiver interesse, programas como o Body Project podem ser aplicados em grupo por profissionais treinados.


3. Notar e questionar os pensamentos sobre o corpo


A terapia cognitivo-comportamental (TCC) tem técnicas bem estudadas para a imagem corporal, organizadas pelo psicólogo Thomas Cash. A ideia central é que o sofrimento com o corpo é alimentado por pensamentos automáticos, que aparecem rápido e parecem verdade, mas costumam conter distorções.


As armadilhas de pensamento mais comuns:


Armadilha

Como aparece

Tudo ou nada

💬 "Se eu não tenho a barriga lisa, eu sou feia."

Leitura mental

💬 "Todo mundo está olhando para as minhas pernas."

Lente de aumento

Ver só a espinha, a celulite ou a barriga, e ignorar o resto

Comparação injusta

Comparar o próprio corpo, num dia comum, com a melhor foto editada de outra pessoa

Raciocínio emocional

💬 "Eu me sinto gordo, então eu estou gordo."

Previsão do futuro

💬 "Se eu for à festa com essa roupa, vão rir de mim."


Como fazer em casa, com quatro perguntas:


1. O que aconteceu? (Ex.: vi uma foto minha no grupo da turma.)


2. O que eu pensei? (Ex.: estou horrível, todo mundo vai comentar.)


3. O que eu senti, de 0 a 10? (Ex.: vergonha, 8.)


4. Existe outra forma de ver isso? (Ex.: eu só reparei no meu braço, os outros devem ter reparado na festa; ninguém comentou nada até agora.)


O papel dos pais não é convencer o adolescente de que ele está errado, e sim ajudá-lo a examinar o próprio pensamento:


❌ Evite: "Que bobagem, ninguém está olhando para você."


✅ Prefira: "Você pensou que todo mundo ia comentar. O que aconteceu de fato até agora?"


4. Diminuir as checagens e as evitações


Olhar no espelho o tempo todo, se pesar várias vezes, beliscar a barriga, tirar dezenas de selfies até achar uma "aceitável" e perguntar sempre se engordou trazem alívio na hora, mas mantêm a preocupação viva. O mesmo acontece com evitar praia, fotos ou certas roupas: quanto mais se evita, mais a situação parece ameaçadora. Esse é um princípio central da TCC.


Como fazer em casa:


  • Ajude-o a perceber, sem julgar, quantas vezes por dia ele confere o corpo. Muitos adolescentes se surpreendem com o número.

  • Combine reduzir aos poucos, e não de uma vez. Por exemplo: um espelho a menos no caminho do quarto, ou combinar conferir a roupa uma vez antes de sair, e não cinco.

  • Tire a balança do banheiro. Se houver necessidade de acompanhar o peso por motivo de saúde, isso fica com o pediatra.

  • Volte aos poucos às situações evitadas, começando pelas mais fáceis e com apoio.


Quando ele perguntar "engordei?" muitas vezes, responder sempre "não" alivia na hora, mas faz a pergunta voltar. Experimente olhar para o que está por trás:


💬 "Percebo que essa preocupação voltou. O que está acontecendo hoje?"


Em terapia, existe uma técnica chamada exposição ao espelho, em que a pessoa aprende a olhar e descrever o próprio corpo de forma neutra, sem julgamentos. Revisões de estudos mostram resultados promissores, mas ela deve ser conduzida por um profissional.


5. Desenvolver a autocompaixão


A psicóloga Kristin Neff, que estuda a autocompaixão, encontrou em adolescentes e jovens adultos que tratar a si mesmo com gentileza diante de erros e defeitos se associa a mais bem-estar e menos ansiedade e depressão. Num experimento com mulheres adultas, ouvir meditações curtas de autocompaixão por 3 semanas diminuiu a insatisfação e a vergonha do corpo e aumentou a apreciação do próprio corpo, em comparação com quem não fez.


Autocompaixão não é achar tudo ótimo nem desistir de se cuidar. É tratar a si mesmo como trataria um amigo num momento difícil.


Como fazer em casa:


Falar consigo como falaria com um amigo:


💬 "Se sua melhor amiga dissesse isso sobre o corpo dela, o que você falaria para ela?"


A pausa de autocompaixão, em três frases, para os momentos em que ele se sente mal com o corpo:


  • 💬 "Isso está doendo agora."

  • 💬 "Muita gente da minha idade sente isso também."

  • 💬 "Posso ser gentil comigo nesse momento."


Uma carta compassiva: escrever para si mesmo sobre uma parte do corpo de que não gosta, com o tom que usaria com alguém querido.


Mostre o exemplo: quando você errar ou não gostar de algo em si, fale de si com a mesma gentileza que ensina a ele.


6. Valorizar o que o corpo faz


Pesquisadoras da Universidade de Maastricht, na Holanda, criaram um programa chamado Expand Your Horizon, em que jovens mulheres escreviam, em três sessões curtas, sobre o que o corpo delas permite fazer. Comparadas a um grupo de controle, as participantes ficaram mais satisfeitas com o próprio corpo e passaram a avaliar menos o corpo pela aparência.


Como fazer em casa:


Proponha escrever sobre o corpo por três dias, um tema de cada vez:


  • sentidos: o que o corpo me deixa ver, ouvir, cheirar, saborear e sentir de que eu gosto;

  • movimento: o que meu corpo me deixa fazer, como dançar, correr, nadar, abraçar;

  • cuidado e relações: como meu corpo me ajuda a cuidar das pessoas, rir com elas, me comunicar e criar.


Leve para a conversa do dia a dia:


💬 "O que seu corpo te permitiu fazer hoje de que você gostou?"


Valorize as conquistas do corpo, como aprender uma manobra de skate, terminar uma trilha ou tocar uma música nova, em vez de comentar como ele está.


7. Cuidar do feed e diminuir o tempo de redes


Um experimento canadense, publicado em 2023 por pesquisadores ligados ao Hospital Infantil do Leste de Ontário, acompanhou jovens com sintomas de ansiedade ou depressão que usavam muito as redes. Os que limitaram as redes a 1 hora por dia, durante 3 semanas, passaram a se sentir melhor com a própria aparência e com o próprio peso. O grupo que manteve o uso normal não teve mudança. Foi um estudo pequeno e de curto prazo, mas é um dos poucos que testam o efeito de diminuir as redes na prática.


Outro experimento, com jovens mulheres, mostrou que ver posts com corpos diversos e reais melhorou o humor e a satisfação com o corpo no momento, em comparação com posts de corpos idealizados.


Como fazer em casa:


Façam juntos uma "faxina no feed" de meia hora: deixem de seguir perfis que despertam comparação e culpa, e sigam perfis de pessoas reais, com corpos diversos, e também de assuntos de que ele gosta (música, esporte, ciência, humor, arte), para que o feed não gire só em torno de corpo.


Proponha um experimento, e não uma proibição: durante duas ou três semanas, ele reduz o tempo de redes, acompanha pelo próprio celular quanto usou e observa como se sente. No fim, conversem sobre o que ele percebeu.


💬 "Que tal a gente testar por três semanas e ver se muda alguma coisa em como você se sente? Depois você me conta."


Uma semana sem filtros, como desafio, para ver como é se olhar e se mostrar sem eles.


Celular fora do quarto à noite. Antes de dormir, o adolescente está mais cansado e mais vulnerável à comparação.


8. Desenvolver senso crítico sobre imagens


Programas de alfabetização midiática, que ensinam a analisar como as imagens são produzidas, editadas e vendidas, têm resultados variados quando usados sozinhos, e costumam funcionar melhor combinados com as outras estratégias desta seção.


Como fazer em casa:


Brinquem de "detetive da edição": analisem juntos uma foto e procurem o que pode ter sido alterado, como a pele, a cintura, a luz, a pose.


💬 "O que nessa foto é real? O que pode ter sido editado ou criado por IA?"


  • Testem filtros e ferramentas de edição juntos, e reparem no que eles mudam.

  • Perguntem quem pagou pelo post: muitos influenciadores ganham dinheiro para mostrar produtos e corpos.

  • Comparem o antes e o depois de fotos de campanhas que mostram o processo de edição.


9. Acabar com a conversa negativa sobre o corpo


Os pesquisadores chamam de "conversa sobre gordura" os comentários depreciativos que as pessoas fazem sobre o próprio corpo ou sobre o corpo dos outros, como 💬 "Estou enorme" ou 💬 "Você não está gorda, gorda estou eu". Uma metanálise associou esse tipo de conversa a mais insatisfação com o corpo e mais sintomas de transtornos alimentares. Ela é muito comum entre amigas e também em casa.


Como fazer em casa:


Crie um combinado da família: aqui não se fala mal do corpo de ninguém, nem do próprio.


Quando seu filho falar mal do próprio corpo, não discuta a frase. Olhe para o que está por trás:


❌ Evite: "Você não está gorda, para com isso."


✅ Prefira: "Você está se sentindo mal com o seu corpo hoje. Aconteceu alguma coisa?"


Ensine a sair dessa conversa entre amigos, com uma frase simples:


💬 "Ah, vamos falar de outra coisa? Esse assunto sempre deixa a gente mal."


10. Os adultos como exemplo


Uma revisão de estudos encontrou que as atitudes dos pais em relação ao peso se associam à imagem corporal e à alimentação dos filhos. Contam os comentários sobre o corpo dele, o incentivo a dietas e a forma como os pais tratam o próprio corpo. O adolescente aprende mais com o que vê do que com o que ouve.


Para os pais se perguntarem:


  • Eu falo mal do meu corpo na frente dele?

  • Faço dietas muito restritivas ou corto grupos de alimentos na frente dele?

  • Comento o corpo de outras pessoas?

  • Elogio quando alguém emagrece?

  • Uso o exercício como castigo por ter comido demais?

  • Me peso com frequência na frente dele?


Ninguém precisa ser perfeito. Quando escapar um comentário, conserte:


💬 "Eu falei mal do meu corpo agora há pouco. Não quero fazer isso, nem que você faça com o seu."


11. Comer sem dieta


O Projeto EAT, um grande estudo que acompanhou adolescentes norte-americanos por anos, encontrou que os adolescentes que faziam dietas e usavam práticas de controle de peso arriscadas tinham, cinco anos depois, mais ganho de peso, mais episódios de compulsão e mais comportamentos alimentares extremos do que os que não faziam. Na adolescência, dieta costuma piorar exatamente o que promete melhorar.


Como fazer em casa:


  • Ofereça refeições regulares e previsíveis, sem pular refeições como forma de compensar.

  • Não divida os alimentos em proibidos e permitidos. Alimentos proibidos costumam ganhar mais força e levar a exageros escondidos.

  • Ajude-o a perceber a fome e a saciedade, em vez de comer por regras ou contar calorias.

  • Cozinhem juntos e comam juntos sempre que possível, sem telas na mesa e sem comentários sobre quanto cada um comeu.

  • Se ele quiser mudar a alimentação, procure um nutricionista que trabalhe com adolescentes e com foco em saúde, e não em peso.


12. Movimento por prazer


Uma revisão de estudos sobre imagem corporal, atividade física e esporte encontrou que praticar atividade física e esporte se associa a uma imagem corporal melhor, principalmente quando o foco está no prazer, na convivência e no que o corpo consegue fazer, e não na aparência.


Como fazer em casa:


  • Escolham juntos uma atividade de que ele goste, e não a que "queima mais calorias".

  • Deixe experimentar várias atividades sem cobrança de resultado: dança, skate, natação, artes marciais, trilha, teatro.

  • Valorize as habilidades, como aprender uma manobra, melhorar o tempo ou conseguir completar algo novo, e não a mudança no corpo.

  • Evite usar o exercício como compensação pelo que ele comeu.


Esportes que cobram peso ou aparência


Algumas atividades, como balé, ginástica, patinação, lutas com categorias de peso e fisiculturismo, cobram um corpo específico e estão associadas a mais risco de transtornos alimentares. Isso não significa proibir. Significa acompanhar de perto, conversar com treinadores e professores e ficar atento a dietas, pesagens frequentes e comentários sobre o corpo.


Quando as estratégias de casa não bastam


Se a preocupação com o corpo continua intensa, mesmo com essas estratégias, ou vem com sofrimento, mudanças na alimentação ou isolamento, procure um psicólogo. A TCC para imagem corporal tem técnicas estruturadas, como as descritas nesta seção, aplicadas com acompanhamento e na medida certa para cada adolescente. Os sinais que pedem avaliação estão na seção 6, e os caminhos de ajuda estão na seção 11.


Resumo das estratégias


Estratégia

O que fazer em casa

Ampliar as fontes de valor

Mapa do que eu sou, elogios específicos, atividades em que o corpo não é avaliado

Questionar o padrão

Perguntas sobre quem ganha com ele, carta para uma criança mais nova, pequenos desafios

Notar os pensamentos

As quatro perguntas e as armadilhas de pensamento

Diminuir checagens

Perceber, reduzir aos poucos, tirar a balança do banheiro

Autocompaixão

Falar consigo como com um amigo, pausa em três frases

Valorizar o que o corpo faz

Escrever sobre sentidos, movimento e relações

Cuidar do feed

Faxina no feed, experimento de três semanas, uma semana sem filtro

Senso crítico

Detetive da edição, quem pagou o post

Acabar com a conversa negativa

Combinado da família, frases para mudar de assunto

Dar o exemplo

Checklist dos pais e consertar quando escapar

Comer sem dieta

Refeições regulares, sem alimentos proibidos, comer juntos

Movimento por prazer

Escolher junto, experimentar, valorizar habilidades


10. O papel da escola


A escola é um dos lugares onde o corpo do adolescente mais fica exposto: aulas de educação física, vestiários, apelidos, fotos de festas e grupos de mensagens. Algumas ações ajudam:


  • educação física sem exposição: evitar pesagens em público, comparações e comentários sobre o corpo dos alunos, e oferecer opções para quem se sente desconfortável com roupas ou vestiários;

  • tratar apelidos e "brincadeiras" sobre o corpo como bullying, com conversa e acompanhamento;

  • conversar em sala sobre redes, filtros, inteligência artificial e padrões de beleza, como parte da educação digital;

  • agir rapidamente diante de montagens e imagens falsas de alunos, acolhendo a vítima e acionando a família;

  • observar os sinais de alerta e chamar a família para conversar a sós quando houver preocupação;

  • não promover campanhas centradas em peso, como "desafios de emagrecimento", que podem aumentar o sofrimento de quem já está vulnerável.


11. Como conversar sobre transtornos alimentares e quando procurar ajuda


Conversas preventivas


  • comece em momentos tranquilos, e não no meio de uma crise ou à mesa;

  • evite falar em "controle de peso";

  • use perguntas abertas: 💬 "Você já sentiu que não gostava de alguma parte do seu corpo?" 💬 "Já ficou mal com alguma coisa que viu nas redes?";

  • reforce que o valor dele não depende do corpo.


Se você suspeitar de um transtorno alimentar


  • converse com calma e cuidado, falando do que você observou, sem acusar: 💬 "Tenho percebido que você tem pulado o almoço e ficado muito tempo na academia. Estou preocupada com você.";

  • espere que ele negue ou se irrite; isso é comum e não significa que está tudo bem;

  • não discuta calorias, peso ou o que ele comeu, nem tente resolver sozinho com regras sobre comida;

  • procure avaliação o quanto antes, mesmo que ele diga que está tudo bem.


Onde buscar ajuda


  • Pediatra, médico de família ou Unidade Básica de Saúde (UBS): primeira avaliação, inclusive dos riscos físicos.

  • CAPSij (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil): para sofrimento psíquico grave e persistente, pelo SUS.

  • Serviços especializados em transtornos alimentares, muitos ligados a hospitais universitários.

  • Psicólogo ou psiquiatra com experiência em adolescência e transtornos alimentares.

  • CVV (188) e SAMU (192): em crise ou risco.


O tratamento de transtornos alimentares costuma envolver uma equipe, com médico, nutricionista e psicólogo, e a participação da família faz diferença.


12. Livros para pais


  • Cérebro adolescente, de Daniel J. Siegel (nVersos). Explica as mudanças emocionais e sociais da adolescência em linguagem acessível, com foco no potencial dessa fase.

  • iGen, de Jean M. Twenge (nVersos). Analisa como a vida conectada mudou o comportamento e o bem-estar dos adolescentes. A relação entre redes e saúde mental descrita no livro é debatida por outros pesquisadores, como explicado no guia sobre redes sociais.


13. Perguntas frequentes sobre imagem corporal na adolescência


O que é imagem corporal?


É a forma como a pessoa vê, pensa, sente e se comporta em relação ao próprio corpo. Inclui o quanto ela gosta do corpo, o quanto se preocupa com ele e o que deixa de fazer por causa dele. Na adolescência, com as mudanças da puberdade e a importância da opinião dos colegas, ela fica mais sensível.


Como falar de peso com meu filho adolescente?


O ideal é não falar de peso. Estudos mostram que conversas dos pais sobre peso e emagrecimento se associam a mais dietas e comportamentos alimentares de risco, enquanto conversas sobre alimentação saudável, sem falar de peso, protegem. Se houver preocupação com a saúde, leve a conversa para o pediatra.


Redes sociais pioram a imagem corporal dos adolescentes?


As pesquisas encontram associação entre uso de redes e mais insatisfação com o corpo, com efeito médio pequeno, mas maior em quem se compara muito e consome conteúdo focado em aparência. Experimentos mostram que ver fotos retocadas diminui a satisfação com o corpo de meninas adolescentes.


A inteligência artificial afeta a imagem corporal?


Ainda há poucos estudos, mas a IA ampliou as formas de comparação: modelos e influenciadores que não existem, filtros mais realistas, aplicativos que dão nota ao rosto e chatbots que podem dar conselhos de dieta perigosos. Conversar sobre como essas imagens são criadas ajuda mais do que confiar só nos avisos de "feito com IA".


O que é looksmaxxing?


É uma tendência, mais comum entre meninos, de tentar "maximizar a aparência" seguindo um padrão estreito de beleza, com técnicas sem base científica e aplicativos que dão nota ao rosto. Pode aumentar a insegurança e a comparação. Vale perguntar se seu filho usa esses aplicativos e conversar sobre o que eles medem de verdade.


Quais são os sinais de transtorno alimentar em adolescentes?


Pular refeições, cortar grupos de alimentos, comer escondido, ir ao banheiro logo depois de comer, exercício em excesso, perda ou ganho de peso rápido, menstruação que para, checagem constante do corpo e isolamento por vergonha da aparência. Diante desses sinais, procure avaliação profissional o quanto antes.


Filtros de beleza fazem mal?


Usar um filtro de vez em quando não é um problema em si. O risco aparece quando o adolescente passa a se comparar com o rosto filtrado, não posta fotos sem edição ou se sente mal com a própria aparência real. Testar filtros juntos e mostrar o que eles mudam ajuda a desenvolver senso crítico.


Adolescente pode usar caneta emagrecedora?


Esses remédios só devem ser usados com indicação e acompanhamento médico. Desde 2025, a Anvisa exige retenção da receita, depois de dados indicando que muitas pessoas os usavam sem prescrição. Se seu filho fala em usar caneta para emagrecer, converse sobre o que está por trás disso e procure o pediatra.


Quando procurar ajuda profissional?


Quando a preocupação com o corpo causa sofrimento, faz o adolescente evitar situações, muda a forma como ele come ou se exercita, ou vem com tristeza, ansiedade e isolamento. Comece pelo pediatra ou pela UBS. Em crise ou risco, ligue para o CVV (188) ou o SAMU (192).


Conclusão


A adolescência sempre foi uma fase de atenção ao corpo, mas hoje os adolescentes se comparam todos os dias com imagens retocadas, filtros, notas dadas por aplicativos e até pessoas que não existem. Isso não significa que todo adolescente vai sofrer com a imagem corporal, mas exige atenção dos adultos ao redor.


O que mais protege começa em casa: não comentar peso e aparência, falar de comida e movimento pelo cuidado com a saúde, e não pela balança, valorizar o adolescente pelo que ele é e faz, ajudá-lo a olhar as imagens com senso crítico, perguntar quais aplicativos ele usa e acolher quando ele diz que não gosta do próprio corpo.


Quando a preocupação vira sofrimento, muda a alimentação ou isola o adolescente, procurar ajuda cedo faz diferença. E, no dia a dia, a mensagem mais importante é simples de dizer em casa: o corpo dele não precisa ser corrigido para merecer respeito.


Sobre a autora


Paloma Garcia é terapeuta cognitivo-comportamental da infância e adolescência, neuropsicopedagoga e orientadora parental. É formada em Psicopedagogia (UNIFIEO), com pós-graduação em Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional (UNIP) e em Terapia Cognitivo-Comportamental da Infância e Adolescência (CETCC), e tem registro na SBNPp (nº 9947). Atende adolescentes e famílias desde 2016, hoje em formato on-line.


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