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Conflitos globais e saúde mental dos adolescentes: como falar sobre guerras, clima e notícias difíceis

Foto do escritor: Paloma Garcia
Paloma Garcia
7 de nov. de 2023
16 min de leitura

Atualizado: há 7 dias

Atualizado em outubro de 2026


Guerras, crise do clima e tragédias chegam ao adolescente pelo celular e podem afetá-lo como se estivessem acontecendo com ele. O que mais protege é ter um adulto por perto que escuta sem minimizar, ajuda a dosar as notícias e transforma o medo em alguma ação possível. Se a preocupação dura semanas e atrapalha o sono, a escola ou as amizades, procure avaliação profissional.

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Seu filho ficou mal depois de ver um vídeo de guerra? Anda dizendo que 💬 "não adianta estudar, o planeta vai acabar"? Uma parte dos adolescentes acompanha as tragédias do mundo de muito perto, pelo celular, e sofre com elas de um jeito que os adultos da casa nem sempre percebem. Este guia explica como conflitos globais, crises climáticas e notícias difíceis afetam a saúde mental dos adolescentes, o que são ecoansiedade e trauma vicário, como conversar sobre o que ele viu, como dosar a exposição às notícias e quando buscar ajuda.


A adolescência já reúne muitas mudanças ao mesmo tempo: no corpo, nas emoções, no jeito de pensar e nas amizades. É o período de construir identidade, ganhar autonomia e descobrir o próprio lugar no mundo. Quando esse mundo aparece, todos os dias, como instável e ameaçador, essa construção fica mais difícil.


Guerras, enchentes, ondas de calor, pandemias, desigualdade, discursos de ódio e incerteza econômica fazem parte das conversas e das telas dos adolescentes. Mesmo quando acontecem longe, esses eventos chegam sem aviso e sem filtro: num vídeo que aparece no feed, numa notificação no meio da aula, num áudio compartilhado no grupo da turma. Muitas vezes, não há um adulto por perto para ajudar a entender o que ele está vendo.


O adolescente não apenas recebe a informação. Ele se identifica com as vítimas, sente raiva diante das injustiças e se pergunta o que pode fazer. Alguns passam a sofrer pelo que acontece com desconhecidos como se fosse com a própria família. Com o tempo, a exposição repetida a esse tipo de conteúdo pode afetar o sono, o humor, a concentração e a forma como ele imagina o próprio futuro.


O sofrimento emocional nessa fase é mais comum do que muitas famílias imaginam. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 em cada 7 jovens de 10 a 19 anos vive com um transtorno mental. Durante a pandemia de covid-19, uma metanálise publicada na revista JAMA Pediatrics, com mais de 80 mil crianças e adolescentes, estimou que os sintomas elevados de depressão e ansiedade chegaram a aproximadamente o dobro das estimativas anteriores. Quando uma crise atinge todo mundo ao mesmo tempo, os mais jovens costumam sentir de forma intensa.


Para descrever o que muitos jovens vivem diante das crises ambientais e humanitárias, dois termos passaram a ser usados com frequência: ecoansiedade e trauma vicário. Nenhum deles é um diagnóstico. Os dois descrevem reações reais, que merecem a atenção dos adultos.


1. Como os conflitos globais afetam emocionalmente os adolescentes?


Guerras, catástrofes e injustiças podem provocar medo, tristeza, raiva, culpa e sensação de impotência, mesmo em adolescentes que estão longe dos acontecimentos. O impacto cresce quando a exposição às notícias é longa e repetida, quando o adolescente é muito empático ou já estava fragilizado, e quando ele não tem com quem conversar sobre o que viu.


Como os conflitos globais afetam os adolescentes: adolescente sozinha no banco do ônibus ao anoitecer, com fones de ouvido e o rosto iluminado pelo celular, assistindo a vídeos de notícias um atrás do outro. Imagem ilustrativa gerada por IA.

Nas gerações anteriores, as notícias chegavam em horários definidos, pela televisão ou pelo jornal, e muitas vezes a família estava junto. Hoje, o adolescente pode ver imagens de bombardeios ou de cidades alagadas a qualquer hora, sozinho no quarto, em vídeos curtos que se repetem um atrás do outro. O efeito pode durar mais que o vídeo: volta à noite, na hora de dormir, ou aparece dias depois como irritação, desânimo ou medo do futuro.


O que chega pelo celular também afeta


Um estudo publicado na revista PNAS avaliou mais de 4.600 adultos nos Estados Unidos depois do atentado da Maratona de Boston, em 2013. Quem passou 6 horas ou mais por dia acompanhando a cobertura do atentado teve mais sintomas de estresse agudo do que quem estava no local da explosão. Os pesquisadores observaram ainda um ciclo: mais exposição às notícias trazia mais angústia e mais preocupação com o futuro, o que levava a ainda mais exposição na tragédia seguinte.


O estudo foi feito com adultos, mas ajuda a entender o que acontece com adolescentes muito conectados. Acompanhar uma tragédia por horas, pela tela, já é suficiente para provocar sintomas de estresse.


Quando a crise é vivida de perto


Para quem vive a crise diretamente, como em enchentes, deslizamentos, secas, incêndios ou situações de violência, o risco é maior. Uma revisão sistemática sobre desastres encontrou que o estresse pós-traumático é frequente entre as pessoas expostas a eles, ao lado de ansiedade e depressão. Perder a casa, a escola ou a rotina, e ainda conviver com o medo de que aconteça de novo, deixa o adolescente mais inseguro e mais vulnerável.


Quem tende a sentir mais


Na maior pesquisa internacional já feita sobre ansiedade climática, com 10 mil jovens de 16 a 25 anos em 10 países, incluindo o Brasil, os participantes de países do Sul Global mostraram mais preocupação e mais impacto no dia a dia. Adolescentes que já convivem com pobreza, violência, racismo ou outras desigualdades tendem a sentir as crises globais com mais intensidade, porque elas se somam às dificuldades que já existem em casa e no bairro.


Por isso, famílias, escolas e profissionais de saúde mental precisam levar a sério o que o adolescente sente diante das notícias. Ele está sendo afetado pelo que acontece no mundo, ainda que de longe.


2. O que acontece no corpo e no cérebro com o estresse prolongado?


O estresse é uma resposta natural do corpo a situações difíceis e, em doses curtas, ajuda a enfrentar desafios. Quando ele fica intenso, frequente e sem apoio, o corpo passa tempo demais em alerta, o que pode afetar o sono, o humor e a concentração e aumentar o risco de ansiedade e depressão.


As regiões do cérebro ligadas ao planejamento, ao controle dos impulsos e à regulação das emoções, como o córtex pré-frontal, estão entre as últimas a amadurecer, de forma gradual, ao longo da adolescência. Ao mesmo tempo, as reações emocionais tendem a ser mais rápidas e intensas nessa fase. Isso ajuda a explicar por que o adolescente pode reagir com tanta força a imagens de violência, injustiça ou destruição.


Quando o corpo interpreta uma situação como ameaça, o sistema de resposta ao estresse entra em ação e libera hormônios como o cortisol. Essa resposta é útil por pouco tempo. Há evidências, inclusive de estudos com animais, de que a ativação repetida desse sistema se associa a:


  • dificuldade de regular as emoções;

  • alterações no sono e no apetite;

  • prejuízos na memória e na aprendizagem;

  • maior risco de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.


Pesquisadores que revisaram os efeitos do estresse ao longo da vida apontam a adolescência como um dos períodos em que o cérebro parece mais sensível a essas influências, justamente porque ainda está em desenvolvimento.


O que acontece em casa também conta, e muito. Crianças e adolescentes aprendem a lidar com as emoções observando os adultos, pela forma como os pais reagem ao que eles sentem e pelo clima emocional da família. Uma rotina previsível, um ambiente tranquilo e adultos disponíveis protegem contra os efeitos do estresse prolongado.


3. Ecoansiedade e trauma vicário: nomes para sofrimentos reais


Para alguns adolescentes, acompanhar o mundo em crise mexe com o sono, com o humor e com os planos para o futuro. Com o aumento do envolvimento dos jovens em causas ambientais, sociais e humanitárias, dois nomes passaram a ser usados para descrever esse sofrimento: ecoansiedade e trauma vicário.


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São reações que pesquisadores e profissionais de saúde mental observam em adolescentes que, mesmo sem viver a guerra, a fome ou a destruição ambiental, sofrem com elas.


O que é ecoansiedade?


Ecoansiedade é a preocupação intensa e persistente com a crise climática e com o futuro do planeta, muitas vezes acompanhada de impotência, tristeza, raiva, culpa ou desesperança. Ela não aparece como doença no DSM-5-TR nem na CID-11. Os pesquisadores a descrevem como uma resposta a uma ameaça concreta, que pede atenção quando passa a ocupar o dia e atrapalhar a vida.


A pesquisa internacional sobre ansiedade climática, publicada em 2021 na revista The Lancet Planetary Health, ouviu 10 mil jovens de 16 a 25 anos em 10 países, entre eles o Brasil, e encontrou que:


  • 59% se diziam muito ou extremamente preocupados com as mudanças climáticas;

  • mais de 45% disseram que esses sentimentos atrapalham o dia a dia;

  • 75% disseram achar o futuro assustador;

  • 83% disseram achar que as pessoas falharam em cuidar do planeta.


Em adolescentes, a ecoansiedade pode aparecer como alterações no sono, pensamentos repetitivos sobre o futuro, afastamento dos amigos, desinteresse pela escola e frases como 💬 "pra que fazer faculdade, se o mundo vai acabar?". Quando a preocupação passa a ocupar o dia inteiro, o artigo sobre ansiedade na adolescência ajuda a entender quando ela precisa de ajuda.


Ecoansiedade é doença?


Não. Preocupar-se com o clima faz sentido diante do que os jovens veem e leem, e pode até levar a atitudes positivas, como mudar hábitos ou participar de projetos. Ela pede cuidado quando a preocupação se torna constante, dura semanas e começa a tirar o sono, o interesse pelas coisas ou a vontade de fazer planos. Nesses casos, uma avaliação profissional ajuda a entender se há um quadro de ansiedade ou depressão envolvido.


Trauma vicário: quando a dor do outro vira sofrimento próprio


O termo trauma vicário foi proposto pelos psicólogos Lisa McCann e Laurie Anne Pearlman, em 1990, para descrever o efeito que o contato constante com relatos de sofrimento produzia em terapeutas que atendiam vítimas de violência. Um conceito próximo, a fadiga por compaixão, foi desenvolvido por Charles Figley para profissionais que cuidam de pessoas traumatizadas.


Hoje, esses conceitos também são usados para pensar o efeito de acompanhar, todos os dias, imagens e relatos de dor. Adolescentes muito conectados e muito empáticos podem consumir esse tipo de conteúdo diariamente, sem pausa e sem um adulto para conversar. Isso pode trazer:


  • sintomas parecidos com os do estresse pós-traumático, mesmo sem ter vivido a situação;

  • cansaço emocional e a sensação de estar sempre em alerta;

  • evitação de temas, lugares ou conversas que lembrem o sofrimento visto.


Quando o envolvimento com uma causa ajuda


Envolver-se com causas sociais ou ambientais nem sempre faz mal. Para muitos jovens, participar de um projeto, de um grupo ou de uma ação concreta dá sentido ao que estão sentindo e aproxima de pessoas que se preocupam com as mesmas coisas.


As pesquisas da psicóloga sueca Maria Ojala com crianças de 12 anos e com adolescentes mostram um caminho. Os jovens que reconheciam a gravidade do problema, mas mantinham uma esperança realista, por exemplo confiando que pessoas e grupos podem fazer diferença, tinham mais bem-estar e se envolviam mais em ações pelo meio ambiente. Já negar ou diminuir a gravidade do problema se associou a menos ação.


O sofrimento tende a crescer quando o adolescente fica sozinho com o que viu, sem ninguém para conversar e sem enxergar nada que possa fazer. Chamar a ecoansiedade e o trauma vicário pelo nome ajuda o adulto a levar a sério o que o filho está sentindo.


4. Como falar com o adolescente sobre guerra, clima ou uma notícia difícil?


Comece perguntando o que ele já viu e o que os amigos estão comentando. Ouça antes de explicar. Conte o que você sabe com palavras simples, sem imagens fortes, e admita o que não sabe. Termine com algo possível: uma pausa das notícias, uma conversa depois, uma ação pequena.


1. Pergunte antes de explicar. O adolescente provavelmente já viu mais do que você imagina, e às vezes em fontes pouco confiáveis.


💬 "O que você viu sobre isso? O que seus amigos estão comentando?"


2. Ouça o que ele sente, e não só o que ele sabe. Medo, raiva, tristeza e culpa são reações esperadas.


💬 "E como você ficou com isso tudo?"


3. Conte o que sabe com palavras simples e sem mostrar imagens fortes. Admitir o que você não sabe também ensina.


💬 "Eu também não sei tudo sobre isso. Podemos procurar juntos em uma fonte confiável."


4. Não prometa o que não pode cumprir.


❌ Evite: "Não precisa ficar assim, vai dar tudo certo." "Isso é muito longe, não tem nada a ver com você."


✅ Prefira: "Imagino que seja muito difícil ver isso. O que mais te preocupa?" "Faz sentido você ficar mexido com isso."


5. Termine com algo possível. Pode ser combinar uma pausa das notícias, marcar outra conversa, procurar uma forma de ajudar (uma doação, uma campanha da escola, um projeto ambiental do bairro) ou fazer juntos alguma atividade que acalme.


💬 "Quer pensar comigo em alguma coisa que a gente possa fazer?"


Para ensinar o adolescente a checar uma notícia antes de acreditar e repassar, leia o guia de letramento digital para pais. Outras formas de conversar sem transformar o assunto em sermão estão em estratégias eficazes para conversar com adolescentes.


5. Devo proibir meu filho de ver notícias?


Proibir costuma funcionar pouco, porque a notícia chega pelo celular e pelos colegas. Ajuda mais combinar menos exposição e acompanhar de perto: um horário sem notícias violentas, longe da hora de dormir, e ver ou ler junto quando o assunto for grande, conversando depois sobre o que ele entendeu e sentiu.


Devo proibir meu filho de ver notícias? Celulares da família carregam virados para baixo numa bandeja no corredor, à noite, enquanto ao fundo, no quarto, a adolescente lê um livro antes de dormir. Imagem ilustrativa gerada por IA.

O estudo sobre o atentado de Boston mostra por que a quantidade importa: quanto mais horas por dia de cobertura, mais sintomas de estresse. Alguns combinados costumam ajudar:


  • desligar as notificações de notícias e alertas no celular;

  • evitar notícias violentas antes de dormir;

  • preferir ler a assistir quando o tema envolve violência, porque imagens e vídeos costumam impactar mais;

  • escolher fontes confiáveis, em vez de vídeos curtos sem contexto;

  • fazer pausas depois de um acontecimento grande, sem precisar acompanhar tudo em tempo real.


O feed das redes sociais aprende com o que o adolescente assiste e tende a mostrar mais do mesmo: quem vê um vídeo de guerra recebe outros dez. Para entender esse mecanismo, veja o impacto das redes sociais na saúde mental dos adolescentes e o que fazer quando o filho não larga o TikTok.


6. Como reconhecer sinais de sofrimento emocional em adolescentes?


Depois de uma notícia difícil, é comum o adolescente ficar triste, irritado ou cansado por alguns dias. Esses sinais pedem mais atenção quando são frequentes, intensos, duram semanas e atrapalham a rotina. Muitos adolescentes não falam diretamente sobre o que sentem: o sofrimento aparece em mudanças de comportamento, de humor ou em isolamento.


Sinais emocionais e de comportamento


  • tristeza persistente, presente na maior parte do dia por duas semanas ou mais;

  • irritação intensa ou explosões diante de pequenas frustrações;

  • cansaço constante, mesmo depois de descansar;

  • perda de interesse por atividades de que gostava;

  • mudanças grandes no sono ou no apetite;

  • isolamento dos amigos e da família;

  • queda brusca no rendimento escolar.


Sinais no pensamento e no corpo


  • dificuldade de concentração e esquecimentos;

  • pensamentos repetitivos sobre catástrofes, morte ou desesperança;

  • preocupação constante com o futuro ou com a situação do mundo;

  • dores de cabeça, desconforto no estômago e tensão muscular frequentes, sem causa médica encontrada.


O que ele pode dizer


Em vez de dizer que está triste ou com medo, muitos adolescentes falam do próprio sofrimento por meio de frases sobre o mundo:


💬 "Nada faz sentido."


💬 "O mundo está um lixo."


💬 "Não adianta estudar, o planeta vai acabar."


💬 "Ninguém se importa com nada."


💬 "Queria sumir."


Quando frases assim se repetem ou vêm junto com mudanças de comportamento, chame para conversar, sem rotular como exagero. A página de sinais de alerta na saúde mental de adolescentes ajuda a separar o que é esperado da idade do que pede avaliação.


Quando a preocupação com o mundo vira um alerta


Preocupar-se com guerras ou com o clima faz sentido. Pede atenção quando, por mais de duas semanas, a preocupação ocupa o dia, tira o sono, derruba o interesse pela escola ou aparece em frases como "não adianta estudar". Nesse caso, busque avaliação com um profissional de saúde mental. Para entender quando a tristeza vai além da fase, leia o guia sobre depressão na adolescência.


Sinais que pedem ajuda imediata


  • autolesão;

  • afastamento repentino de todas as pessoas;

  • abandono da higiene, da alimentação ou do autocuidado;

  • falas ou mensagens sobre morrer ou sobre não querer mais viver.


Nessas situações, não deixe o adolescente sozinho e procure ajuda no mesmo dia: CVV (188, gratuito, 24 horas), SAMU (192) ou o pronto-socorro mais próximo. Leia também como agir em uma crise emocional na adolescência e o que fazer quando um adolescente diz "quero morrer".


7. Como acolher adolescentes em tempos de crise global


Quando o noticiário assusta, explicações ajudam, mas o adolescente precisa sobretudo de alguém por perto que escute. Acolher, nessa fase, é abrir espaço para que ele fale do que sente sem ser corrigido nem julgado.


Reconhecer o que ele sente antes de consolar


Diante do sofrimento de um adolescente, muitos adultos tentam minimizar a dor, explicar que "o mundo sempre foi assim" ou buscar uma solução rápida. A intenção é boa, mas o adolescente costuma sair dessas conversas se sentindo sozinho e incompreendido. Reconhecer a emoção ajuda mais: mostrar que entende por que ele está assim, mesmo sem concordar com tudo o que ele pensa sobre o futuro.


❌ Evite: "Não precisa ficar assim, vai dar tudo certo."


✅ Prefira: "Imagino que seja muito difícil sentir tudo isso. Quer me contar mais sobre o que está passando pela sua cabeça?"


Estar disponível, mesmo quando ele se fecha


Muitas vezes, acolher é ficar por perto, sem forçar a conversa: assistir a algo juntos, oferecer um lanche, sentar no mesmo cômodo, avisar que está disponível e respeitar o tempo dele.


Quando o adulto continua presente mesmo diante do silêncio, da irritação ou do afastamento, o adolescente aprende que pode voltar para o vínculo depois de um conflito ou de um momento difícil. A teoria do apego chama essa segurança de base segura.


Escutar com atenção


Escuta ativa é prestar atenção ao que o adolescente diz sem interromper, julgar ou correr para consertar. É deixar o celular de lado, fazer perguntas abertas e mostrar curiosidade. Algumas falas que ajudam:


💬 "Como você tem se sentido ultimamente?"


💬 "Você quer me contar mais sobre isso?"


💬 "Tudo bem se você não quiser falar agora. Estou por aqui."


💬 "Pode contar comigo nisso."


A Comunicação Não-Violenta, de Marshall Rosenberg, propõe esse mesmo movimento: ouvir com empatia, ajudando o outro a se sentir compreendido, e não julgado. Mais formas de escutar estão em estratégias eficazes para conversar com adolescentes.


Rotinas que trazem segurança


Em tempos de crise, rotinas previsíveis, mesmo simples, ajudam o adolescente a sentir que alguma coisa continua no lugar. Horários regulares para refeições, sono, atividades criativas e pausas do celular fazem diferença. Algumas práticas:


  • uma conversa rápida no fim do dia, perguntando como o adolescente está, sem cobrança;

  • momentos juntos sem tela, como assistir a um filme, ouvir música ou cozinhar;

  • combinados sobre notícias, como um horário sem conteúdo violento e o celular fora do quarto na hora de dormir.


Ajudar a dar nome ao que ele sente


Ajudar o adolescente a reconhecer as próprias emoções, entender as próprias reações e encontrar formas saudáveis de expressá-las é uma das contribuições mais importantes que um adulto pode oferecer, e qualquer pai ou mãe pode começar hoje.


💬 "Você sabe dizer o nome do que está sentindo agora? Medo, raiva, tristeza, um pouco de tudo?"


Ler juntos livros sobre emoções, manter um diário ou criar momentos de conversa em casa ou na escola também ajuda. Quando o adolescente percebe que sentir medo, tristeza ou raiva não o torna fraco, ele passa a se ver como alguém capaz de cuidar da própria saúde mental.


8. Perguntas frequentes sobre conflitos globais e saúde mental dos adolescentes


Notícias de guerra e tragédias afetam a saúde mental dos adolescentes?


Podem afetar. Ver imagens e relatos de violência repetidamente, principalmente sozinho e pelo celular, pode causar medo, tristeza, irritação e dificuldade para dormir, mesmo em quem está longe do acontecimento. O risco cresce quando a exposição é longa e quando falta um adulto com quem conversar.


O que é ecoansiedade?


É a preocupação intensa e persistente com a crise climática e com o futuro do planeta, muitas vezes acompanhada de impotência, tristeza, raiva ou culpa. Em uma pesquisa com 10 mil jovens de 10 países, incluindo o Brasil, 59% disseram estar muito ou extremamente preocupados com as mudanças climáticas.


Ecoansiedade é doença?


Não. Ecoansiedade não é um diagnóstico nem aparece como transtorno nos manuais. Preocupar-se com o clima faz sentido diante do que os jovens veem. Pede atenção quando a preocupação dura semanas e começa a atrapalhar o sono, a escola ou a vontade de fazer planos.


O que é trauma vicário?


É o sofrimento causado pelo contato repetido com a dor de outras pessoas, por relatos ou imagens. O conceito surgiu com terapeutas que atendiam vítimas de violência e hoje também é usado para pensar o efeito de acompanhar tragédias todos os dias pelas redes.


Como falar com um adolescente sobre guerra ou tragédia no noticiário?


Comece perguntando o que ele já viu e o que os amigos estão comentando. Ouça antes de explicar. Conte o que você sabe com palavras simples, sem imagens fortes, e admita o que não sabe. Termine com algo possível: uma pausa das notícias, uma conversa depois, uma ação pequena.


Devo proibir meu filho de ver notícias?


Proibir costuma funcionar pouco, porque a notícia chega pelo celular e pelos colegas. Ajuda mais combinar menos exposição: um horário sem notícias violentas, longe da hora de dormir, e ler ou ver junto quando o assunto for grande, conversando depois sobre o que ele entendeu e sentiu.


Quando a preocupação do adolescente com o mundo vira problema?


Preocupar-se com guerras ou com o clima faz sentido. Pede atenção quando, por mais de duas semanas, a preocupação ocupa o dia, tira o sono, derruba o interesse pela escola ou aparece em frases como "não adianta estudar". Nesse caso, procure avaliação com um profissional de saúde mental.


Conclusão


O que acontece no mundo chega aos adolescentes, e chega rápido. Guerras, enchentes e tragédias passam pela tela do celular antes mesmo de virar assunto em casa, e o efeito sobre os jovens merece a atenção dos adultos.


O adolescente não espera que os pais tenham todas as respostas sobre o futuro do planeta. Espera encontrar alguém disponível para ouvir o que ele viu e o que ele sentiu, sem pressa e sem bronca.


Ajudar o adolescente a atravessar este tempo passa por conversar sobre as notícias, combinar uma dose possível de exposição, enxergar junto com ele alguma ação ao alcance e procurar ajuda quando o sofrimento se prolonga. O mundo continua fora do nosso controle. A casa, a escola e as conversas do dia a dia, não.


Mesmo diante das notícias mais difíceis, saber que existe alguém por perto para conversar faz diferença para um adolescente.


Sobre a autora


Paloma Garcia é terapeuta cognitivo-comportamental da infância e adolescência, neuropsicopedagoga e orientadora parental. É formada em Psicopedagogia (UNIFIEO), com pós-graduação em Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional (UNIP) e em Terapia Cognitivo-Comportamental da Infância e Adolescência (CETCC), e tem registro na SBNPp (nº 9947). Atende adolescentes e famílias desde 2016, hoje em formato on-line.


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