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Crise emocional na adolescência: como reconhecer, o que fazer na hora e como apoiar depois

Foto do escritor: Paloma Garcia
Paloma Garcia
2 de nov. de 2023
17 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

Atualizado em setembro de 2026


Uma crise emocional na adolescência é um momento em que o que o adolescente sente ou vive passa, por um tempo, do que ele consegue dar conta. Na hora, ele precisa de um adulto calmo e por perto, que escute antes de orientar. Se houver fala sobre morrer, autolesão ou risco à vida, é emergência: não o deixe sozinho e ligue para o SAMU (192) ou para o CVV (188).

Choro que não para, uma explosão de raiva, um pânico que toma conta. Ou o contrário: um filho que se tranca no quarto e para de responder. Crises emocionais acontecem na adolescência e assustam quem está por perto. Este guia explica como reconhecer uma crise, como separar crise de emergência, o que fazer e dizer na hora e como cuidar nos dias seguintes, além do que aumenta o risco e do que protege o adolescente.


Crise emocional na adolescência: mãe sentada no chão do quarto ao lado da filha adolescente, que segura um copo de água com as duas mãos no fim da tarde, depois do momento mais difícil. Imagem ilustrativa gerada por IA.

⚠️ Este conteúdo tem finalidade educativa e foi elaborado com base em literatura científica e experiência clínica. Não substitui avaliação profissional. Em caso de crise ou risco, ligue para o CVV (188, gratuito, 24 horas) ou para o SAMU (192).


A adolescência, que a Organização Mundial da Saúde situa entre os 10 e os 19 anos, reúne muitas mudanças ao mesmo tempo: no corpo, no cérebro, nas amizades, na relação com a família e na construção de quem se é. Parte da instabilidade emocional dessa fase é esperada e faz parte de crescer.


Em alguns momentos, porém, o que o adolescente vive ultrapassa a capacidade que ele tem, naquela hora, de se regular. Diferente das oscilações de humor comuns, a crise é um estado agudo de sofrimento: ele se sente sobrecarregado, confuso, sem saída, e pode reagir com fuga, explosão, impulsividade ou comportamentos que o colocam em risco.


Crise não é só o que aparece nas notícias, como uma tentativa de suicídio ou um surto psicótico. Toda situação em que o adolescente perde, por um tempo, a capacidade de lidar com uma demanda emocional ou social importante pode ser uma crise. Isso inclui descontrole emocional, isolamento profundo, autolesão, rupturas bruscas de rotina e mudanças intensas de comportamento. Às vezes, a crise é o primeiro sinal visível de um sofrimento que já vinha crescendo, e por isso pede acolhimento na hora e avaliação depois.


1. O que é uma crise emocional na adolescência?


Uma crise emocional é um estado agudo em que o adolescente se sente incapaz de lidar com uma situação, uma emoção ou um conflito. Os recursos que ele costuma usar para se acalmar, pensar e pedir ajuda ficam, por um tempo, fora de alcance. Ele pode sentir emoções intensas e desorganizadas, perder o controle, agir por impulso e, nos casos mais graves, correr risco ou colocar outras pessoas em risco. A crise passa, mas pede cuidado na hora e atenção nos dias seguintes.


O que acontece com o adolescente durante a crise


As regiões do cérebro ligadas ao controle do comportamento, ao planejamento e à regulação das emoções, como o córtex pré-frontal, estão entre as últimas a amadurecer, de forma gradual, ao longo da adolescência. Ao mesmo tempo, o adolescente fica mais sensível a emoções intensas e à recompensa. Um modelo muito usado para explicar essa combinação fala em um descompasso entre um sistema mais reativo e outro de controle que amadurece mais devagar. É um modelo útil, mas simplificado e ainda em revisão.


O que os estudos de comportamento mostram com mais clareza é o efeito da emoção sobre as decisões. Em um experimento com uma tarefa de cartas, adolescentes arriscaram mais e usaram menos informação apenas na versão da tarefa que despertava emoção; na versão calma, decidiram de forma parecida com os adultos. Com emoção muito alta, o adolescente decide pior; com calma, decide bem melhor. Isso ajuda a entender por que sermão e argumento raramente funcionam no auge da crise.


Durante a crise, ele pode ter dificuldade de enxergar outra saída, de lembrar o que costuma acalmá-lo e de usar o que já aprendeu. Naquele momento, esses recursos estão menos acessíveis, e o papel do adulto é ajudar a trazê-los de volta.


Como a crise costuma aparecer


Nem toda crise é barulhenta. Alguns adolescentes explodem; outros se fecham, param de falar e parecem apagados. A crise que não faz barulho também é crise. Os sinais variam em intensidade, forma e duração:


😣 No que ele sente: angústia, medo, culpa ou desesperança intensos; choro que não para ou, ao contrário, apatia extrema; frases de autodepreciação, como 💬 "sou um fracasso" ou 💬 "ninguém se importa comigo"; explosões de raiva ou pânico.


🚪 No que ele faz: isolamento repentino, recusa de contato com amigos e família; comportamentos de risco, uso de álcool ou outras drogas, autolesão; abandono brusco da escola, do esporte ou de atividades de que gostava; mudanças fortes no sono ou no apetite.


💭 No que ele pensa e diz: pensamento confuso, sensação de estar fora da realidade ou de não se reconhecer; falas sobre morrer ou sumir; pensamentos negativos que se repetem e que ele não consegue parar; dificuldade de concentração.


 Crise emocional que não faz barulho: pai sentado no chão do corredor, encostado na parede ao lado da porta entreaberta do quarto do filho adolescente, esperando por perto sem entrar. Imagem ilustrativa gerada por IA.

Crise emocional ou comportamento típico da idade?


Nem toda irritação, tristeza ou isolamento indica crise. O que pede atenção é a intensidade, a duração e o quanto aquilo atrapalha a vida do adolescente.


Costuma ser da idade

Pode indicar crise

Oscilações de humor que passam

Emoções intensas que ele não consegue controlar

Querer ficar sozinho às vezes

Isolar-se de todos por dias

Discussões pontuais

Conflitos frequentes e desproporcionais

Mudanças leves de rotina

Abandono de atividades importantes

Tristeza depois de uma frustração

Desesperança, sensação de que nada tem saída


Qualquer fala sobre morrer, sumir ou se machucar, mesmo em tom de brincadeira, pede conversa no mesmo dia. Para entender os sinais que costumam vir antes de uma crise, leia sinais de alerta na saúde mental de adolescentes.


O que os dados mostram


Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 em cada 7 jovens de 10 a 19 anos vive com um transtorno mental, e boa parte desses quadros não chega a ser reconhecida nem tratada. Uma grande análise de 192 estudos, publicada em 2022 na revista Molecular Psychiatry, mostrou que cerca de um terço dos transtornos mentais começa antes dos 14 anos, quase metade antes dos 18 e cerca de 6 em cada 10 antes dos 25.


No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024, do IBGE, ouviu mais de 118 mil estudantes de 13 a 17 anos: 28,9% disseram ter se sentido tristes na maioria das vezes ou sempre no mês anterior, 26,1% sentiam que ninguém se preocupava com eles e 18,5% disseram sentir com frequência que a vida não vale a pena ser vivida, índice que chegou a 25% entre as meninas.


Esses números não são diagnóstico. Eles mostram que o sofrimento intenso é frequente nessa idade e que muitos adultos não ficam sabendo dele.


2. Quais fatores aumentam o risco de uma crise emocional?


Nem toda crise surge do nada. Alguns fatores deixam certos adolescentes mais vulneráveis diante do estresse. Eles podem ser do desenvolvimento, psicológicos, familiares, escolares, sociais e ambientais, e costumam se somar. Fator de risco não é destino: conhecer esses fatores ajuda a família e a escola a agir antes, e não a procurar culpados.


Fatores do desenvolvimento e psicológicos


A combinação entre emoções mais intensas e autocontrole ainda em amadurecimento torna a adolescência uma fase de maior reatividade. Alguns adolescentes também carregam vulnerabilidades próprias:


  • temperamento mais reativo e baixa tolerância à frustração;

  • pensamentos negativos repetitivos e rígidos, como remoer o mesmo problema por horas;

  • dificuldade de resolver problemas e de enxergar alternativas;

  • histórico de TDAH, depressão, ansiedade ou trauma.


Uma metanálise com crianças e adolescentes mostrou que o hábito de ruminar, ou seja, ficar remoendo o que se sente, se associa a mais sintomas de depressão no presente e no futuro. É um dos focos da terapia cognitivo-comportamental.


Fatores familiares


A família pode proteger ou aumentar o risco. Uma revisão sistemática com 181 artigos científicos, publicada no Journal of Affective Disorders, identificou fatores ligados aos pais que se associam à depressão e à ansiedade em adolescentes e que podem ser modificados:


  • pouco afeto e proximidade no dia a dia;

  • conflito constante entre os adultos, principalmente quando o filho fica no meio;

  • envolvimento excessivo, que tira do adolescente a chance de decidir;

  • clima de crítica, sarcasmo ou hostilidade.


Na mesma revisão, acompanhar a rotina do filho e dar espaço para ele participar das decisões se associou a menos depressão. Esses dados falam de risco, não de culpa, e mostram onde a família tem margem para agir. Um fator familiar pouco falado é o alcoolismo de um dos pais; explico esse impacto no artigo sobre alcoolismo dos pais e o cérebro adolescente.


Fatores escolares e sociais


A escola e o grupo de amigos são fontes de identidade e pertencimento, mas também podem se tornar fontes de estresse e exclusão. Um relatório da UNESCO com dados de 144 países mostrou que quase 1 em cada 3 estudantes (32%) sofreu bullying na escola no mês anterior à pesquisa. Entre os fatores escolares e sociais estão:



Experiências adversas e traumas


Adolescentes que passaram por eventos traumáticos têm mais risco de sofrimento emocional e de crises. Entre esses eventos estão abuso sexual, físico ou psicológico, negligência, violência doméstica ou urbana, desastres, separações bruscas sem preparo e a perda de alguém próximo de forma violenta.


Quando a crise aparece depois da morte de alguém importante, vale ler também o guia sobre luto na adolescência, que explica quais reações são esperadas, como ajudar no dia a dia e quais sinais pedem avaliação profissional.


O estudo ACE, sobre experiências adversas na infância, encontrou uma relação de dose: quanto mais experiências adversas uma pessoa viveu na infância, maior o risco, na vida adulta, de depressão, uso de álcool e drogas e tentativa de suicídio. Por isso, cuidar cedo faz diferença.


Quando houver suspeita de violência ou abuso, o Disque 100 recebe denúncias, inclusive anônimas, e o Conselho Tutelar da sua cidade também pode ser acionado. O uso de álcool para anestesiar a dor é um dos riscos nesse cenário; veja álcool na adolescência: como prevenir o uso precoce.


Ambiente digital e pandemia


Com mais tempo de vida on-line, surgem outros riscos:



Durante a pandemia de covid-19, uma metanálise publicada na JAMA Pediatrics, com 29 estudos e mais de 80 mil crianças e adolescentes, estimou que, no primeiro ano, cerca de 1 em cada 4 tinha sintomas elevados de depressão e 1 em cada 5, de ansiedade, aproximadamente o dobro das estimativas anteriores à pandemia. São sintomas medidos por questionário, e não diagnósticos, mas o recado continua atual: isolamento e perda de rotina pesam sobre os adolescentes.


3. Como agir numa crise emocional do adolescente?


Numa crise, a forma como os adultos reagem pode pesar tanto quanto o que o adolescente está vivendo. Uma resposta calma, presente e bem orientada pode interromper a escalada do sofrimento e proteger a vida e a saúde do adolescente. A crise não pede soluções complexas naquele momento. Pede presença, segurança, escuta e ações práticas.


Primeiro: é crise ou emergência?


Antes de tudo, observe se há risco imediato. É emergência quando:


  • ele fala em morrer ou em se machucar, com plano, data ou meio;

  • já se machucou;

  • diz que não vê saída ou se despede;

  • ameaça outra pessoa;

  • está confuso, fora da realidade ou intoxicado por álcool, drogas ou medicamentos.


Nesses casos, não o deixe sozinho, guarde em lugar seguro o que possa ser usado para ferir e ligue para o SAMU (192) ou vá à UPA ou ao pronto-socorro. Para conversar a qualquer hora, o CVV atende no 188, de graça, 24 horas. Se não houver risco imediato, siga os passos abaixo.


1. Cuide primeiro da sua calma


Antes de qualquer intervenção, o adulto precisa estar minimamente regulado. Diante de um filho em crise, o pânico ou a reatividade de quem cuida tende a aumentar o sofrimento. A sua calma funciona como um ponto de apoio: o adolescente se acalma com mais facilidade perto de alguém que não está desorganizado.


Respirar fundo, baixar o tom de voz, falar devagar e manter o corpo aberto e próximo, sem invadir, são formas de passar segurança. Se você também está no limite, peça para outro adulto de confiança ficar junto. Se o cansaço vem de longe, leia sobre burnout parental.


2. Evite julgamentos, sermões e correções


No auge da crise, argumento e bronca raramente chegam. Tentar convencer o adolescente de que ele não deveria sentir o que sente tende a piorar a situação.


❌ Evite: "Você está exagerando." "Isso não é motivo para tanto drama." "Se continuar assim, ninguém vai te aguentar."


✅ Prefira: "Eu vejo que isso está muito difícil pra você." "Estou aqui com você, e a gente vai passar por isso juntos."


Validar não significa concordar com tudo. Significa reconhecer que o sofrimento é real, antes de pensar em soluções.


3. Deixe o ambiente mais seguro e mais calmo


Reduza os estímulos: desligue a televisão, afaste quem não está ajudando e evite plateia, principalmente de irmãos ou colegas. Se possível, leve o adolescente para um lugar reservado e tranquilo. Guarde em lugar seguro o que possa ser usado para se machucar e, se houver atendimento, siga a orientação da equipe.


4. Escute antes de orientar


Escutar é acolher sem interromper, sem corrigir e sem tentar resolver tudo de uma vez. O adolescente em crise precisa ser escutado antes de ser orientado. Às vezes, ficar junto em silêncio já ajuda. Algumas falas possíveis:


💬 "Quero entender melhor o que está acontecendo com você."


💬 "Você não precisa passar por isso sozinho."


💬 "Fico aqui com você, mesmo que a gente não encontre as palavras certas agora."


: Pai sentado num pufe baixo na sala, escutando com atenção o filho adolescente, que fala sentado no sofá, com a televisão desligada: escutar antes de orientar numa crise emocional. Imagem ilustrativa gerada por IA.

5. Avalie o risco e não deixe o adolescente sozinho


Se aparecer fala sobre morrer, autolesão recente ou desespero absoluto, não deixe o adolescente sozinho em hipótese nenhuma e procure ajuda especializada no mesmo dia. Perguntar diretamente se ele pensa em se machucar não coloca a ideia na cabeça dele: uma revisão de estudos com adolescentes e adultos não encontrou aumento de pensamentos suicidas em quem foi perguntado, e falar sobre o assunto pode até reduzir esse risco. O artigo o que fazer quando um adolescente diz "quero morrer" traz um passo a passo para esse momento.


Quando e onde buscar ajuda


Depois do acolhimento, busque avaliação profissional, mesmo que a crise tenha passado. A crise pode ser o primeiro sinal visível de um sofrimento que precisa de cuidado. Na prevenção do suicídio, a OMS recomenda identificar cedo, avaliar, cuidar e acompanhar quem está em risco. Os caminhos são:


  • Pediatra, médico de família ou Unidade Básica de Saúde (UBS): primeira avaliação e indicação do serviço adequado.

  • CAPSij (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil): serviço do SUS para crianças e adolescentes com sofrimento psíquico grave e persistente.

  • Psicólogo, psiquiatra da infância e adolescência ou terapeuta com formação em terapia cognitivo-comportamental.

  • UPA, pronto-socorro e SAMU (192): risco imediato.

  • CVV (188): escuta gratuita, 24 horas, por telefone ou chat.


As psicoterapias para crianças e adolescentes funcionam. Uma metanálise de cinco décadas de pesquisa, com 447 estudos e mais de 30 mil jovens, mostrou que quem fez terapia teve 63% de chance de estar melhor do que quem estava no grupo de comparação, com efeitos mais fortes na ansiedade e mais modestos na depressão. Para a depressão, as diretrizes da Academia Americana de Psiquiatria da Infância e da Adolescência sugerem a terapia cognitivo-comportamental e a terapia interpessoal. Para entender cada quadro, leia os guias sobre depressão na adolescência e ansiedade na adolescência.


Os dias seguintes à crise


Depois da crise, o adolescente pode ficar vulnerável, envergonhado ou fechado. A vergonha depois é comum e pode fazer com que ele evite o assunto ou finja que nada aconteceu. Os dias seguintes pedem acompanhamento, sem pressão:


  • mantenha a conversa aberta, sem interrogatório: 💬 "Ontem foi difícil. Quando você quiser, a gente conversa sobre o que aconteceu.";

  • retome uma rotina básica de sono, alimentação e alguma atividade leve;

  • converse com a escola, combinando antes com ele o que será contado;

  • comece ou retome o acompanhamento profissional;

  • reforce os vínculos com amigos, família e pessoas de confiança.


Se a crise veio em forma de explosão de raiva, o artigo sobre raiva na adolescência ajuda na conversa de reparação.


Dias depois de uma crise emocional: mãe e filha adolescente sentadas lado a lado à mesa, de manhã, escrevendo juntas num caderno o que ajuda a filha quando fica difícil. Imagem ilustrativa gerada por IA.

Um plano combinado para a próxima vez


Quando tudo estiver calmo, construa com o adolescente um plano simples para a próxima vez. Ele funciona melhor quando é feito junto, e não imposto:


  1. Os sinais de que a crise está chegando, do jeito que ele percebe: aperto no peito, vontade de sumir, irritação que vai crescendo.

  2. O que ajuda a baixar a intensidade: sair do cômodo, tomar água, ouvir uma música, ficar em silêncio com alguém perto.

  3. Com quem ele pode falar em casa, na família e na escola.

  4. Uma palavra ou um sinal combinado para avisar que não está bem, sem precisar explicar na hora.

  5. Os contatos de ajuda, como o CVV (188) e o SAMU (192), salvos no celular.


Se houver risco de suicídio, esse plano deve ser feito com o profissional que acompanha o adolescente, que conhece as ferramentas próprias para essa situação.


4. Como prevenir crises e fortalecer a resiliência?


Se os fatores de risco aumentam a vulnerabilidade, os fatores de proteção fortalecem a capacidade de atravessar dificuldades. Essa capacidade é chamada de resiliência: lidar com adversidades, aprender com elas e se reorganizar sem se romper.


A pesquisadora Ann Masten, uma das principais estudiosas do tema, descreve a resiliência como algo comum, e não raro. Ela nasce de processos do dia a dia, como vínculos com adultos que cuidam, oportunidades de desenvolver competências e um ambiente que oferece estrutura. Por isso pode ser ensinada e fortalecida.


O que protege o adolescente


  • vínculo com pelo menos um adulto de confiança, como pais, avós ou professores;

  • comunicação aberta em casa, com espaço para as emoções;

  • sentimento de pertencimento, na escola e entre amigos;

  • habilidades socioemocionais: reconhecer o que sente, regular as emoções e resolver problemas;

  • atividades com sentido, como esporte, arte, voluntariado e grupos;

  • adultos que mostram, com o exemplo, como enfrentar dificuldades.


 Avô e neto adolescente consertam juntos uma bicicleta de cabeça para baixo no quintal, de manhã: o vínculo com um adulto de confiança é um dos fatores que protegem o adolescente. Imagem ilustrativa gerada por IA.

Educação emocional


Aprender sobre emoções, em casa, na escola ou na terapia, ajuda o adolescente a entender o que sente, ampliar o vocabulário emocional, perceber sinais precoces de descontrole e pedir ajuda antes da crise. Programas escolares de aprendizagem socioemocional têm boa base de evidência: uma análise de 213 programas, com mais de 270 mil estudantes, encontrou melhora em habilidades emocionais, comportamento e desempenho escolar.


O papel da família


Nenhuma família precisa ser perfeita, mas ajuda muito ser consistente, disponível e minimamente organizada. A casa pode funcionar como base segura para o adolescente enfrentar o mundo. Algumas práticas que ajudam:


  • rotinas previsíveis, como hora de dormir e refeições juntos;

  • conversas sobre emoções no dia a dia, sem esperar uma crise (veja estratégias eficazes para conversar com adolescentes);

  • validar os sentimentos, sem ridicularizar nem desautorizar;

  • compartilhar experiências próprias de dificuldade e superação;

  • limites com empatia, explicando o motivo das regras.


O papel da escola


A escola é, para muitos adolescentes, o principal espaço de convivência fora de casa, e tem papel importante na prevenção. Ajudam:


  • uma pessoa de referência a quem o aluno possa recorrer quando não estiver bem;

  • protocolos de acolhimento e de comunicação com a família;

  • rodas de conversa e atividades sobre saúde mental, bullying, autoestima e identidade;

  • formação de professores em primeiros cuidados emocionais;

  • canal aberto com as famílias.


Se o seu filho teve uma crise, conte à escola apenas o necessário para que ele seja cuidado, combinando antes com ele o que será dito.


5. Perguntas frequentes sobre crise emocional na adolescência


O que é uma crise emocional na adolescência?

É um momento em que o adolescente, por um tempo, não consegue dar conta do que está sentindo ou vivendo. Pode aparecer como choro que não para, pânico ou explosão, e também como apatia e fechamento completo. Passa, mas pede cuidado na hora e avaliação depois.


Como saber se é crise emocional ou coisa da idade?

Oscilações que passam, vontade de ficar sozinho às vezes e discussões pontuais costumam ser da idade. Emoções intensas que ele não consegue controlar, isolamento de todos por dias, desesperança e abandono de atividades importantes indicam crise. Qualquer fala sobre morrer pede conversa no mesmo dia.


O que fazer quando o adolescente entra em crise emocional?

Primeiro, veja se há risco imediato. Se não houver, mantenha a calma, evite sermões, deixe o ambiente mais tranquilo e seguro, escute antes de orientar e fique por perto. Depois que passar, busque avaliação profissional, mesmo que ele diga que já está bem.


O que não dizer para um adolescente em crise?

Evite frases que diminuem o sofrimento, como "você está exagerando", "isso é drama" ou "ninguém vai te aguentar assim". No lugar, diga que está vendo que está difícil e que vai ficar junto. Argumentos e broncas raramente funcionam no auge da crise.


Quando a crise emocional do adolescente é uma emergência?

Quando ele fala em morrer ou em se machucar, já se machucou, diz que não vê saída ou ameaça outra pessoa. Não o deixe sozinho e ligue para o SAMU (192) ou vá à UPA ou ao pronto-socorro. Para conversar a qualquer hora, o CVV atende no 188, de graça.


O que fazer nos dias seguintes a uma crise emocional do filho?

Mantenha a conversa aberta sem pressionar, retome uma rotina básica de sono e alimentação, converse com a escola combinando antes com ele o que será contado e comece ou retome o acompanhamento profissional. Quando estiver tudo calmo, construa com ele um plano para a próxima vez.


Onde buscar ajuda gratuita para adolescente em crise emocional?

No SUS, a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde; para casos graves e persistentes, existe o CAPSij. Em risco imediato, procure a UPA, o pronto-socorro ou ligue para o SAMU (192). O CVV atende gratuitamente no 188, 24 horas.


Devo contar para a escola que meu filho teve uma crise?

Costuma ajudar, desde que você combine antes com ele o que será contado. Fale com a coordenação ou a orientação só o necessário para que ele seja cuidado, e peça uma pessoa de referência na escola e um jeito de avisar você se ele não estiver bem.


Como prevenir crises emocionais na adolescência?

Fortaleça o vínculo com pelo menos um adulto de confiança, converse sobre emoções no dia a dia, mantenha rotinas previsíveis e limites com empatia, e esteja atento a bullying, isolamento e mudanças bruscas. Programas de educação emocional na escola também ajudam.


Conclusão


A adolescência reúne contrastes: crescimento e confusão, autonomia e dependência, coragem e vulnerabilidade. Nesse percurso, uma crise emocional não define o adolescente nem a família. Ela é um momento em que ele precisa de alguém por perto.


Saber reconhecer uma crise, separar crise de emergência e agir com calma pode mudar o rumo daquele momento. Depois, o cuidado continua: nos dias seguintes, no plano combinado, na avaliação profissional e na rede formada por família, escola e serviços de saúde. Ninguém precisa dar conta disso sozinho, nem o adolescente, nem quem cuida dele.


Sobre a autora


Paloma Garcia é terapeuta cognitivo-comportamental da infância e adolescência, neuropsicopedagoga e orientadora parental. É formada em Psicopedagogia (UNIFIEO), com pós-graduação em Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional (UNIP) e em Terapia Cognitivo-Comportamental da Infância e Adolescência (CETCC), e tem registro na SBNPp (nº 9947). Atende adolescentes e famílias desde 2016, hoje em formato on-line.


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