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Adolescente sem amigos: por que acontece e como ajudar seu filho a fazer e manter amizades

Foto do escritor: Paloma Garcia
Paloma Garcia
22 de jul. de 2024
22 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

Atualizado em outubro de 2026


A maioria dos adolescentes tem ao menos um amigo próximo, e é a qualidade dessas amizades, mais do que a quantidade, que protege a saúde mental. Timidez, mudança de escola, ansiedade social, bullying e neurodivergência podem dificultar os vínculos. Os pais ajudam mais quando criam oportunidades, treinam habilidades em casa e conversam sem pressionar.

Faz quatro meses que a família se mudou de cidade. O filho de 14 anos entrou numa escola nova no meio do ano. Quando a mãe pergunta como foi o dia, ele responde "normal". Quando ela pergunta se ele já fez amigos, ele diz: "Não preciso de amigos daqui."


À noite, ela ouve a voz dele no quarto, rindo. Ele está jogando on-line com os amigos da cidade antiga, até tarde. Numa reunião, a coordenadora comenta que ele costuma passar o intervalo sozinho, com o celular.


A mãe fica dividida. Ele parece bem quando joga com os amigos antigos. Mas ela se pergunta se isso basta, se deve insistir para ele se enturmar na escola nova, se é timidez, tristeza pela mudança ou algo mais.


Adolescente sem amigos: grupo de adolescentes encostados na parede da escola, cada um olhando o próprio celular.

Muitos pais vivem dúvidas parecidas. O filho tem poucos amigos, nenhum amigo próximo, ou só amigos pela internet. Eles não sabem se isso é normal, se devem se preocupar ou como ajudar sem constranger.


Este guia explica o que a pesquisa mostra sobre a amizade na adolescência, o que é esperado nessa fase e por que alguns adolescentes têm mais dificuldade de fazer amigos. Mostra também como diferenciar timidez de ansiedade social, o que se sabe sobre as amizades on-line, técnicas práticas para os pais ajudarem e os sinais de que é hora de buscar ajuda profissional.


⚠️ Aviso: este conteúdo tem finalidade educativa e se baseia em pesquisas científicas. Não substitui avaliação nem acompanhamento profissional. Se o adolescente fala em morrer, se machuca ou está em risco, ligue para o CVV (188) ou o SAMU (192).


1. Por que a amizade importa na adolescência


Na adolescência, os amigos passam a ocupar um lugar central. É com eles que o adolescente:


  • divide segredos e preocupações que muitas vezes não conta aos pais;

  • experimenta quem ele é, fora da família;

  • aprende a negociar, a lidar com conflitos e a reparar relações;

  • se sente pertencente a um grupo.


A qualidade importa mais que a quantidade


Um estudo de Rachel Narr, Joseph Allen e colegas (2019), publicado na revista Child Development, acompanhou 169 adolescentes dos 15 aos 25 anos. Os pesquisadores compararam duas coisas:


  • a qualidade das amizades próximas, isto é, ter um ou mais amigos com quem se pode contar, conversar sobre assuntos íntimos e sentir apoio, avaliada a partir do relato do melhor amigo de cada participante;

  • a popularidade no grupo, isto é, ser querido por muitos colegas.


Os adolescentes com amizades próximas de mais qualidade aos 15 anos tiveram, aos 25, menos ansiedade social, menos sintomas depressivos e melhor autoestima. A popularidade no grupo não teve esse efeito protetor, e se associou a mais ansiedade social anos depois.


O que isso muda para os pais: mais do que muitos amigos ou popularidade, vale a pena ajudar o filho a construir uma ou duas amizades próximas e de confiança.


A amizade também protege contra o bullying


Num estudo de Ernest Hodges e colegas (1999), ter um melhor amigo protegeu as crianças de entrar num ciclo de vitimização crescente. O amigo funciona como apoio, testemunha e defesa. Esse dado mostra por que vale a pena ajudar o adolescente isolado a construir ao menos um vínculo próximo, e por que o isolamento merece atenção quando há sinais de bullying.


O cérebro e a importância dos pares


Na adolescência, o cérebro fica mais sensível à aceitação e à rejeição dos colegas. Num experimento de Margo Gardner e Laurence Steinberg (2005), a simples presença de amigos aumentou o risco que os adolescentes assumiam num jogo de direção, mais do que em adultos.


Estudos com um jogo de computador em que o participante é excluído pelos outros jogadores, o Cyberball, mostraram que a exclusão ativa regiões cerebrais ligadas ao sofrimento, em adultos (Eisenberger e colegas, 2003) e em adolescentes (Masten e colegas, 2009). Pesquisas posteriores mostraram que o cérebro não processa a rejeição exatamente como a dor física (Woo e colegas, 2014), mas a mensagem principal se mantém: para o adolescente, ser excluído causa sofrimento real, e não deve ser tratado como bobagem.


Mais sobre o cérebro adolescente e a influência dos amigos está no guia sobre adolescente impulsivo.


2. O que é esperado: como as amizades mudam nessa fase


A maioria dos adolescentes tem ao menos um amigo próximo


Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), do IBGE, 3,9% dos estudantes de 13 a 15 anos e 5,5% dos estudantes de 16 e 17 anos disseram não ter nenhum amigo próximo. Ou seja, a grande maioria dos adolescentes brasileiros tem ao menos um amigo próximo, mas uma parte deles não tem, e essa ausência fica mais frequente com a idade.


A solidão, no entanto, é bem mais comum do que a ausência total de amigos. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que entre 17% e 21% das pessoas de 13 a 29 anos se sentem sozinhas, com as taxas mais altas entre adolescentes. Isso sugere que muitos adolescentes que têm amigos também se sentem sozinhos.


Ter amigos e não se sentir sozinho são coisas diferentes. Um adolescente pode estar sempre rodeado de colegas e não ter com quem conversar de verdade. Outro pode ter um único amigo e se sentir acompanhado.


As amizades mudam muito


No início da adolescência, as amizades costumam mudar com frequência. Pesquisas sobre estabilidade das amizades, como a revisão de François Poulin e Alessandra Chan (2010), mostram que muitas amizades do início da adolescência mudam ou terminam em pouco tempo, às vezes no mesmo ano letivo. Grupos se formam, se desfazem, se reorganizam.


Isso acontece porque o adolescente está descobrindo quem é, mudando de interesses, de escola, de turma. Perder amigos e fazer outros faz parte desse processo. Quando uma amizade termina, o guia Quando a amizade acaba ajuda a acolher o adolescente.


As amizades ficam mais íntimas


Ao longo da adolescência, as amizades tendem a se basear cada vez mais em confiança, conversa e apoio emocional, e menos em atividades compartilhadas. É comum que o adolescente passe a valorizar mais um ou dois amigos próximos do que um grupo grande.


Introversão e preferência por poucos amigos


Alguns adolescentes preferem poucos amigos, atividades mais tranquilas e momentos sozinhos para recarregar a energia. Esse jeito de ser é um traço de personalidade, chamado introversão. O sinal de alerta é o sofrimento: o adolescente que quer ter amigos e não consegue, ou que evita os outros por medo.


3. Por que alguns adolescentes têm mais dificuldade de fazer amigos


A dificuldade de fazer amigos pode ter muitas causas, e muitas vezes elas se combinam.


Timidez


A timidez é a tendência a se sentir desconfortável e inibido em situações sociais, principalmente com pessoas novas. É muito comum. Num estudo de Marcy Burstein e colegas (2011), com mais de 10 mil adolescentes norte-americanos, cerca de metade se descreveu como tímida, mas só 12% desses adolescentes tímidos tinham ansiedade social. Outros 5% dos que não se consideravam tímidos também tinham. Ou seja, timidez e ansiedade social são coisas diferentes, e a ansiedade social pode aparecer até em quem não se acha tímido.


Ansiedade social


Quando o medo de ser julgado ou humilhado é intenso, persistente e leva o adolescente a evitar situações sociais, pode se tratar de ansiedade social, um quadro que tem tratamento. A seção 4 explica a diferença.


Mudança de escola ou de cidade


Como na cena do início, mudar de escola ou de cidade exige recomeçar os vínculos. Os grupos da nova escola já estão formados, e entrar neles leva tempo. Nesses casos, manter contato com os amigos antigos é saudável, mas não substitui ter alguém com quem conviver no dia a dia.


Neurodivergência


Adolescentes com autismo, TDAH ou outras condições do neurodesenvolvimento podem ter mais dificuldade em perceber sinais sociais sutis, em acompanhar conversas em grupo ou em controlar a impulsividade. Muitos desejam ter amigos e sofrem por não conseguir. Eles se beneficiam de apoio específico, de amizades baseadas em interesses comuns e de ambientes que respeitem o jeito deles de se relacionar.


Bullying e exclusão


Segundo a PeNSE 2024, 27,2% dos estudantes brasileiros disseram ter sofrido bullying, um aumento em relação a 2019 (23,0%). O adolescente que sofre bullying pode se afastar dos colegas por medo, e o isolamento, por sua vez, o deixa mais vulnerável. Veja os guias sobre cyberbullying e quando a amizade acaba.


Interesses diferentes da maioria


Adolescentes com interesses pouco comuns na turma podem ter dificuldade de encontrar afinidade na escola, mas fazer amigos com facilidade em grupos ligados aos seus interesses: clube de leitura, robótica, teatro, música, esportes específicos, jogos.


Adolescentes LGBTQIA+ e de grupos discriminados


A OMS cita pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência e minorias étnicas entre os grupos que enfrentam mais barreiras para estabelecer conexões sociais. O medo de rejeição e a discriminação podem levar ao isolamento. Ambientes acolhedores e grupos de pares com experiências parecidas fazem diferença.


Menos oportunidades


Nem todos os adolescentes têm acesso a cursos, esportes ou atividades em grupo fora da escola, por causa de custo, distância ou falta de tempo. Moradores de áreas sem espaços de convivência seguros também têm menos oportunidades de encontro. Por isso, a escola e os espaços públicos e comunitários, como praças, centros culturais, igrejas e projetos sociais, são importantes.


4. Timidez, introversão ou ansiedade social?



Introversão

Timidez

Ansiedade social

O que é

Preferência por poucos amigos e momentos sozinho

Desconforto e inibição em situações sociais novas

Medo intenso e persistente de ser julgado, humilhado ou rejeitado

Sofrimento

Em geral, não há

Leve, que diminui com o tempo

Intenso, com sintomas físicos

Evitação

Escolhe situações sociais tranquilas

Demora para se aproximar, mas participa

Evita situações sociais, mesmo desejando participar

Prejuízo

Não há

Pequeno

Afeta a escola, as amizades e a rotina

O que ajuda

Respeito ao jeito dele

Tempo, oportunidades e treino

Avaliação e tratamento profissional


Como a ansiedade social funciona


A ansiedade social costuma começar na adolescência. Um modelo muito usado para explicá-la, proposto pelos psicólogos David Clark e Adrian Wells (1995), descreve um ciclo:


  1. Diante de uma situação social, o adolescente prevê que vai ser julgado: "Vão achar que eu sou esquisito."

  2. Ele presta atenção excessiva em si mesmo: no rosto vermelho, na voz, no que vai dizer. Isso o deixa mais nervoso e menos atento à conversa.

  3. Ele usa comportamentos de segurança: fica no celular, evita contato visual, ensaia mentalmente cada frase, fala pouco. Esses comportamentos parecem proteger, mas impedem que ele perceba que a situação foi menos ameaçadora do que imaginava.

  4. Depois, ele revisa a situação de forma negativa: "Todo mundo percebeu que eu estava nervoso." O medo aumenta para a próxima vez.


Sinais de que pode ser ansiedade social


  • medo intenso de falar em público, de comer na frente dos outros, de entrar numa sala cheia;

  • sintomas físicos ao pensar em situações sociais: coração acelerado, tremores, enjoo, rubor;

  • evitar sistematicamente festas, trabalhos em grupo, apresentações ou até a escola;

  • pensamentos como "vou passar vergonha" ou "ninguém gosta de mim";

  • sofrimento que dura meses e atrapalha a vida.


Nesses casos, procure avaliação profissional. A terapia cognitivo-comportamental é um dos tratamentos com mais evidência para ansiedade em crianças e adolescentes. Uma revisão Cochrane de 2020 concluiu que ela reduz os sintomas de ansiedade em comparação com quem ainda aguarda tratamento. Ela trabalha o enfrentamento gradual das situações temidas, a revisão dos pensamentos e o treino de habilidades sociais. A técnica 3, na seção 9, mostra como os pais podem apoiar esse caminho em casa. Veja também o guia sobre ansiedade na adolescência.


5. Amizades on-line e redes sociais: o que a pesquisa mostra


O debate sobre telas e solidão


A relação entre o uso de telas e a solidão dos adolescentes é um tema de debate científico.


De um lado, Jean Twenge, Jonathan Haidt e colegas (2021) analisaram dados de 37 países e encontraram aumento da solidão dos adolescentes na escola entre 2012 e 2018, período em que os smartphones se popularizaram.


De outro lado, Amy Orben e Andrew Przybylski (2019) analisaram dados de mais de 350 mil adolescentes e encontraram associações pequenas entre o uso de tecnologia e o bem-estar. Eles argumentam que o efeito médio das telas é menor do que o de outros fatores, como sono e alimentação.


O que a maioria dos pesquisadores concorda é que o tipo de uso importa mais do que o tempo total. Conversar com amigos, combinar encontros e manter vínculos tende a ser diferente de rolar a tela sozinho por horas, se comparar com os outros ou sofrer ataques.


As redes também aproximam


Segundo o Pew Research Center (2018), 81% dos adolescentes norte-americanos disseram que as redes sociais os faziam se sentir mais conectados ao que acontecia na vida dos amigos. Para muitos, as redes são uma forma de manter amizades, especialmente quando os amigos moram longe, como na cena do início.


Amizades on-line são amizades de verdade?


Muitos adolescentes fazem amigos pela internet, em jogos, comunidades de interesse e redes. Num levantamento do Pew Research Center (2015), 57% dos adolescentes disseram ter feito ao menos um amigo novo pela internet.


Essas amizades podem ser reais e importantes, especialmente para adolescentes que não encontram afinidade na escola, que são neurodivergentes ou que pertencem a grupos discriminados. Ao mesmo tempo, elas exigem cuidados:


  • conheça os amigos on-line do seu filho, sem julgar;

  • converse sobre os riscos de aliciamento: adultos que se passam por adolescentes, pedidos de fotos, segredos, presentes, propostas de encontro;

  • combine que encontros presenciais com amigos da internet acontecem em lugares públicos e com o conhecimento dos pais;

  • observe se as amizades on-line substituem completamente a convivência presencial, principalmente quando o adolescente se isola.


Mais orientações estão nos guias sobre a Geração Alpha, que trata de segurança on-line, e sobre companheiros de inteligência artificial, que trata dos adolescentes que buscam amizade em aplicativos de IA.


Adolescente deitado na cama olhando o celular, sozinho no quarto.

6. Como os pais podem ajudar: conversar sem pressionar


Muitos pais, preocupados, fazem perguntas diretas e repetidas: "Você já fez amigos?", "Por que você não chama alguém para vir aqui?", "Você precisa se enturmar." Essas perguntas, ditas com boa intenção, costumam aumentar a vergonha do adolescente e fazê-lo se fechar.


O que evitar


❌ "Você precisa fazer amigos."


❌ "Por que você não é como a sua irmã, que tem um monte de amigos?"


❌ "Você fica muito no celular, por isso não tem amigos."


❌ "Vou falar com a mãe do Gabriel para ele te chamar." Expor o adolescente sem o consentimento dele costuma constranger e piorar a situação.


O que ajuda


1. Escolha bons momentos. Conversas no carro, durante uma caminhada ou preparando uma refeição costumam ser mais fáceis do que conversas frente a frente, olho no olho.


2. Faça perguntas abertas e específicas sobre o dia.


✅ 💬 "Com quem você sentou no intervalo hoje?"


✅ 💬 "Tem alguém na sua turma que você acha legal?"


✅ 💬 "O que a turma costuma fazer no intervalo?"


3. Escute mais do que fala. Mostre interesse sem transformar a conversa num interrogatório ou numa lista de conselhos.


4. Valide o sentimento.


💬 "Mudar de escola no meio do ano é difícil mesmo. Faz sentido você sentir falta dos seus amigos de lá."


5. Pergunte o que ele quer. Nem todo adolescente quer mais amigos. Alguns estão bem com poucos.


💬 "Você se sente bem com os amigos que tem, ou queria ter mais gente por perto?"


6. Ofereça ajuda sem impor.


💬 "Se você quiser, a gente pode pensar junto em jeitos de conhecer gente nova. Mas só se fizer sentido para você."


Mais orientações estão no guia de estratégias para conversar com adolescentes.


O papel da relação com os pais


Segundo a PeNSE 2024, 63,4% dos estudantes disseram que os pais entendiam seus problemas e preocupações. Um vínculo em que o adolescente se sente compreendido em casa facilita que ele conte sobre as dificuldades com os amigos, e pode dar segurança para que ele arrisque novas aproximações fora de casa.


7. Técnica 1: criar oportunidades


Por que funciona. As amizades costumam nascer da convivência repetida em torno de algo em comum. Quando o adolescente participa de uma atividade de que gosta, ele encontra pessoas com interesses parecidos, e a conversa surge com mais naturalidade, sem a pressão de "puxar assunto do nada". O foco fica na atividade, o que diminui a ansiedade.


Passo a passo


1. Mapeiem juntos os interesses do adolescente. Do que ele gosta? Jogos, música, desenho, esportes, ciência, leitura, animais, culinária, causas sociais?


2. Procurem atividades em grupo ligadas a esses interesses:


  • na escola: grêmio, clubes, grupos de estudo, olimpíadas, teatro, banda, esportes;

  • fora da escola: cursos, oficinas, esportes coletivos, grupos de jovens, voluntariado, projetos culturais;

  • opções gratuitas: centros culturais, bibliotecas, projetos sociais, praças esportivas.


3. Prefiram atividades com encontros regulares. A convivência repetida, toda semana, com as mesmas pessoas, favorece a amizade mais do que eventos isolados.


4. Comecem com uma atividade. Muitas atividades ao mesmo tempo cansam e podem aumentar a ansiedade.


5. Deem tempo. As primeiras semanas costumam ser desconfortáveis. Combinem experimentar por um período, por exemplo, um mês, antes de decidir se continua.


Abrir a casa


Os pais também podem facilitar os encontros:


  • ofereça a casa para trabalhos em grupo, sessões de jogos ou um lanche;

  • ajude com a logística: caronas, horários, combinados com outras famílias;

  • dê privacidade quando os amigos estiverem em casa;

  • sugira atividades com foco, como assistir a um filme, cozinhar algo, jogar, que deixam o encontro menos dependente da conversa.


💬 "Se quiser chamar alguém para fazer o trabalho aqui em casa, eu faço um lanche e busco depois."


A escola como aliada


Converse com a coordenação, principalmente em casos de mudança de escola, isolamento ou bullying. A escola pode:


  • formar grupos de trabalho que incluam o adolescente;

  • indicar colegas acolhedores;

  • observar o intervalo e as relações na turma;

  • oferecer atividades em que ele possa se destacar.


Grupo de adolescentes sorrindo e caminhando juntos na escola, representando amizades próximas e saudáveis.

8. Técnica 2: treinar habilidades sociais em casa


Por que funciona. Fazer amigos envolve habilidades que podem ser aprendidas e praticadas: iniciar uma conversa, fazer perguntas, mostrar interesse, convidar, lidar com uma recusa. No Brasil, os psicólogos Zilda e Almir Del Prette desenvolveram pesquisas e programas de treinamento de habilidades sociais, que usam explicação, demonstração, ensaio e retorno. Em casa, os pais podem usar os mesmos princípios, sempre com o consentimento do adolescente e de forma leve.


Como fazer os ensaios


  1. Escolham juntos uma situação real que ele queira enfrentar.

  2. Conversem sobre o que fazer e dizer.

  3. Ensaiem, com os pais fazendo o papel do colega.

  4. Deem retorno positivo e específico: "Gostei de como você fez a pergunta."

  5. Repitam algumas vezes e, depois, ele experimenta na vida real.

  6. Conversem depois sobre como foi, valorizando a tentativa, independentemente do resultado.


Habilidade 1: iniciar uma conversa


Comentários simples sobre a situação compartilhada costumam funcionar melhor do que perguntas pessoais logo de início.


💬 "Essa prova foi difícil, né?"


💬 "Você entendeu o que era para fazer no trabalho?"


💬 "Você também joga esse jogo?", ao ver algo relacionado a um interesse comum.


Habilidade 2: fazer perguntas abertas


Perguntas que exigem mais do que "sim" ou "não" ajudam a conversa a continuar.


❌ "Você gostou do filme?"


✅ 💬 "O que você achou do final do filme?"


Habilidade 3: mostrar interesse e lembrar do que o outro contou


Retomar algo que o colega disse antes mostra atenção e aproxima.


💬 "Você disse que ia ter jogo no sábado. Como foi?"


Habilidade 4: fazer convites simples


Convites curtos, ligados a algo concreto, são mais fáceis de fazer e de aceitar.


💬 "Vamos fazer essa parte do trabalho juntos?"


💬 "Vou jogar mais tarde, quer entrar?"


💬 "Quer sentar com a gente no intervalo?"


Habilidade 5: lidar com uma recusa


Uma recusa não significa necessariamente rejeição. O colega pode estar ocupado, tímido ou com outros planos. Ensaiem como responder com tranquilidade e tentar de novo em outro momento.


💬 "Tranquilo, fica para a próxima."


Depois, ajude o adolescente a pensar em outras explicações para a recusa, como mostra a técnica 3.


Habilidade 6: resolver conflitos


Conflitos fazem parte das amizades. Ensinar o adolescente a dizer o que o incomodou, com firmeza e respeito, ajuda a manter os vínculos. A técnica de expressar a raiva com assertividade, do guia sobre raiva na adolescência, também vale para os conflitos entre amigos.


9. Técnica 3: enfrentar o medo aos poucos e rever pensamentos


Por que funciona. Para o adolescente tímido ou com ansiedade social, evitar as situações temidas traz alívio imediato, mas mantém o medo. Na terapia cognitivo-comportamental, o enfrentamento gradual das situações, chamado de exposição, é uma das técnicas com mais evidência. A cada passo enfrentado, o adolescente aprende que consegue lidar com a situação e que ela costuma ser menos ameaçadora do que imaginava. Os pais podem apoiar esse processo em casa. Quando a ansiedade é intensa, o ideal é fazer isso com acompanhamento profissional.


Passo a passo da escada de enfrentamento


1. Listem situações sociais que causam medo, da mais fácil à mais difícil. Por exemplo:


  • cumprimentar um colega no corredor;

  • fazer uma pergunta a um colega sobre a matéria;

  • sentar perto de um grupo no intervalo;

  • participar de um trabalho em grupo dando uma opinião;

  • convidar alguém para fazer algo juntos;

  • ir a uma festa de aniversário da turma.


2. Deem uma nota de 0 a 10 para o medo de cada situação.


3. Comecem pela situação mais fácil, com nota de medo baixa ou média.


4. Repitam a mesma situação algumas vezes, até que o medo diminua.


5. Subam um degrau de cada vez.


6. Valorizem cada passo, independentemente do resultado.


💬 "Você estava com medo e foi mesmo assim. Isso é o que importa."


Um cuidado: a escada é do adolescente. Os pais apoiam, mas não forçam. Forçar costuma aumentar o medo e a resistência.


Rever pensamentos


Adolescentes com dificuldade de fazer amigos costumam ter pensamentos que aumentam o medo e o isolamento:


  • "Ninguém gosta de mim."

  • "Se eu falar, vão rir de mim."

  • "Ele não me respondeu porque me acha chato."


Como ajudar, numa conversa calma:


1. Identifique o pensamento.


💬 "Quando ela não respondeu sua mensagem, o que você pensou?"


2. Procurem juntos outras explicações possíveis.


💬 "Que outros motivos poderiam explicar ela não ter respondido?" Por exemplo: estava sem bateria, ocupada, esqueceu.


3. Busquem evidências.


💬 "Teve alguma vez em que alguém da turma foi legal com você?"


4. Construam um pensamento mais equilibrado.


💬 "Nem todo mundo vai gostar de mim, mas tem gente que gosta. E eu ainda estou conhecendo a turma nova."


10. Amizade saudável ou desequilibrada


Ter amigos é importante, mas a qualidade das amizades também. Ajudar o adolescente a reconhecer o que é uma amizade saudável o protege de relações que fazem mal.


Sinais de uma amizade saudável


  • Confiança: o amigo guarda segredos e cumpre o que combina.

  • Respeito: as diferenças de opinião e de gosto são aceitas.

  • Reciprocidade: os dois dão e recebem atenção e apoio.

  • Liberdade: cada um pode ter outros amigos.

  • Bem-estar: o adolescente se sente bem consigo mesmo depois dos encontros.


Sinais de uma amizade desequilibrada


O que acontece

O que pode indicar

Um sempre decide e o outro só segue

Controle e submissão

Chantagens: "Se você não fizer isso, não sou mais seu amigo"

Manipulação

Brincadeiras que humilham, chamadas de "zoeira"

Desrespeito

Exigência de exclusividade, ciúme de outros amigos

Controle e isolamento

O adolescente se sente mal, culpado ou ansioso depois dos encontros

Relação que prejudica a autoestima

Pressão para fazer coisas que ele não quer

Risco de comportamentos perigosos


Perguntas para o adolescente refletir


💬 "Com essa pessoa, você pode ser você mesmo?"


💬 "Vocês se respeitam mesmo quando discordam?"


💬 "Quando você precisa de apoio, pode contar com ela?"


A conversa sobre problemas: cuidado com a co-ruminação


Conversar com os amigos sobre preocupações é importante. Mas a psicóloga Amanda Rose (2002) estudou um padrão chamado co-ruminação: conversar repetidamente, por muito tempo, sobre os mesmos problemas e sentimentos negativos. Ela observou que a co-ruminação aproximava os amigos, especialmente as meninas, mas também se associava a mais ansiedade e sintomas depressivos.


Os pais não precisam interferir nas conversas entre amigos, mas podem ajudar o adolescente a equilibrar: conversar sobre os problemas e também buscar soluções e fazer coisas prazerosas juntos.


Quando uma amizade termina ou o adolescente é deixado de lado, o guia Quando a amizade acaba traz orientações para acolher.


11. "Más companhias": como agir sem proibir


Uma das preocupações mais comuns dos pais é o filho andar com amigos que parecem ter má influência: que bebem, usam drogas, faltam às aulas, se envolvem em brigas ou em atividades ilegais.


A influência dos amigos é real


Os amigos influenciam o comportamento dos adolescentes. Thomas Dishion e colegas (1996) observaram que, em grupos de adolescentes envolvidos em problemas, os amigos reforçavam uns aos outros com risadas e aprovação quando falavam de comportamentos de risco.


Mas proibir costuma não funcionar


Num estudo de Loes Keijsers e colegas (2012), que acompanhou 497 adolescentes holandeses por três anos, a proibição de amizades relatada pelos pais previu mais contato com amigos envolvidos em problemas e, por esse caminho, mais delinquência. Os autores sugerem que o amigo proibido pode se tornar mais atraente, como um "fruto proibido".


O que fazer


1. Conheça os amigos. Convide-os para casa, converse com eles, conheça as famílias. Muitas vezes, o amigo "suspeito" é diferente do que parecia.


2. Separe o amigo do comportamento. Fale sobre os comportamentos que preocupam, sem atacar a pessoa.


❌ Evite: "Esse menino não presta. Não quero você andando com ele."


✅ Prefira: 💬 "Eu fiquei preocupada quando soube que vocês estavam bebendo na praça. Me conta o que aconteceu."


3. Converse sobre valores e limites. Ajude o adolescente a pensar no que ele quer para si e no que não aceita fazer, mesmo sob pressão.


💬 "O que você faria se seus amigos quisessem fazer algo com que você não concorda?"


4. Combine um código de saída. Uma palavra ou mensagem combinada que o adolescente pode enviar para pedir que os pais o busquem, sem precisar explicar na frente dos amigos.


5. Amplie as opções de amizade. Atividades e grupos ligados aos interesses do adolescente aumentam as chances de ele encontrar outros amigos (veja a técnica 1).


6. Mantenha a supervisão. Saber onde ele está, com quem e até que horas, de forma combinada e não invasiva. Uma pesquisa de Håkan Stattin e Margaret Kerr (2000) mostrou que boa parte do que os pais sabem sobre a vida dos filhos vem do que os próprios adolescentes contam, e isso depende de um vínculo de confiança.


7. Quando houver risco grave, como violência, uso frequente de drogas ou envolvimento com crimes, os limites precisam ser mais firmes, e é importante buscar ajuda profissional. Os guias sobre adolescente impulsivo e álcool na adolescência aprofundam esses temas.


12. Sinais de alerta e quando procurar ajuda


Quando buscar avaliação


Procure avaliação profissional se o adolescente:


  • não tem nenhum amigo próximo e sofre com isso;

  • evita sistematicamente a escola, festas ou atividades em grupo;

  • tem medo intenso de situações sociais, com sintomas físicos;

  • passa a se isolar de amigos com quem convivia antes;

  • mostra tristeza, irritação constante, perda de interesse ou alterações no sono e no apetite;

  • está sofrendo bullying ou cyberbullying;

  • passa a maior parte do tempo sozinho, com telas, e se recusa a qualquer contato presencial.


Quando buscar ajuda imediata


  • se o adolescente fala em morrer, em sumir ou em não querer viver;

  • se ele se machuca de propósito;

  • se há sinais de que está sendo aliciado ou ameaçado.


Nesses casos, ligue para o CVV (188), o SAMU (192) ou, em caso de crime, o 190. Leia também os guias "Quero morrer": como acolher o risco de suicídio na adolescência e sinais de alerta na saúde mental de adolescentes.


Quem pode ajudar


  • Psicólogo, para terapia cognitivo-comportamental, especialmente em casos de ansiedade social, e para treinamento de habilidades sociais.

  • Psiquiatra da infância e da adolescência, para avaliação diagnóstica quando há sintomas intensos.

  • Avaliação do neurodesenvolvimento, quando há suspeita de autismo ou TDAH.

  • Escola, com a coordenação e a orientação educacional.

  • UBS e CAPSij, pelo SUS.


13. Perguntas frequentes sobre amizade na adolescência


É normal o adolescente não ter amigos?


A maioria dos adolescentes tem ao menos um amigo próximo. Segundo a PeNSE 2024, 3,9% dos estudantes de 13 a 15 anos e 5,5% dos de 16 e 17 anos disseram não ter nenhum. Ter poucos amigos pode ser normal. A ausência de amigos merece atenção quando há sofrimento ou isolamento.


Quantos amigos um adolescente precisa ter?


Não existe número ideal. Pesquisas mostram que a qualidade das amizades próximas protege mais a saúde mental do que a quantidade de amigos ou a popularidade. Um ou dois amigos de confiança já fazem diferença.


Como ajudar meu filho a fazer amigos?


Converse sem pressionar, ajude-o a encontrar atividades em grupo ligadas aos interesses dele, abra a casa para encontros, treine em casa como iniciar conversas e fazer convites, e apoie o enfrentamento gradual do medo, quando houver.


Como saber se é timidez ou ansiedade social?


A timidez é comum, causa desconforto leve e diminui com o tempo. A ansiedade social envolve medo intenso e persistente de ser julgado, sintomas físicos, evitação de situações sociais e prejuízo na vida. Nesse caso, procure avaliação profissional.


Adolescente introvertido precisa de ajuda?


Não necessariamente. A introversão é um traço de personalidade: a pessoa prefere poucos amigos e momentos sozinha. Ela só merece atenção quando o adolescente sofre por não ter amigos ou evita os outros por medo.


Amizade pela internet é amizade de verdade?


Pode ser. Muitos adolescentes fazem amigos reais em jogos e comunidades on-line. Os pais devem conhecer esses amigos, conversar sobre os riscos de aliciamento e combinar que encontros presenciais aconteçam em lugares públicos, com conhecimento da família.


As redes sociais causam solidão nos adolescentes?


O tema é debatido. Alguns estudos encontraram aumento da solidão dos adolescentes junto com a popularização dos smartphones. Outros mostram efeitos pequenos. A maioria concorda que o tipo de uso importa mais do que o tempo total.


O que fazer quando o filho anda com más companhias?


Conheça os amigos, fale sobre os comportamentos que preocupam sem atacar as pessoas, converse sobre valores, combine um código de saída e amplie as opções de amizade. Um estudo mostrou que proibir amizades esteve associado a mais contato com amigos envolvidos em problemas.


Meu filho mudou de escola e não tem amigos. O que fazer?


Dê tempo, mantenha o contato com os amigos antigos, converse com a escola, ajude-o a entrar em atividades com encontros regulares e abra a casa para colegas da nova turma. Se o isolamento e a tristeza persistirem, procure ajuda.


Como saber se uma amizade faz mal ao meu filho?


Observe se há controle, chantagem, humilhações disfarçadas de brincadeira, exigência de exclusividade ou pressão para fazer coisas perigosas, e se o adolescente se sente mal depois dos encontros.


Devo falar com os pais de outros adolescentes para incluírem meu filho?


Em geral, não sem o consentimento dele. Isso pode constranger e piorar a situação. Prefira ajudar o próprio adolescente a criar oportunidades e, se necessário, conversar com a escola.


Quando procurar ajuda profissional?


Quando o adolescente sofre com a falta de amigos, evita a escola ou atividades sociais, tem medo intenso, mostra sinais de tristeza persistente ou sofre bullying. Se ele fala em morrer ou se machuca, procure ajuda imediata: CVV (188) ou SAMU (192).


Conclusão


A amizade é uma das experiências mais importantes da adolescência. A pesquisa mostra que a qualidade das amizades próximas, mais do que a quantidade de amigos ou a popularidade, protege a saúde mental ao longo da vida.


A maioria dos adolescentes tem ao menos um amigo próximo, e muitos passam por fases de mudança e reorganização das amizades. Para os que têm mais dificuldade, os motivos podem ser variados: timidez, ansiedade social, mudança de escola, neurodivergência, bullying, interesses diferentes da maioria ou falta de oportunidades.


Os pais podem ajudar de várias formas:


  • conversar sem pressionar;

  • criar oportunidades de convivência;

  • treinar habilidades sociais em casa;

  • apoiar o enfrentamento gradual do medo;

  • ajudar o adolescente a reconhecer amizades saudáveis;

  • agir com firmeza e diálogo diante de más companhias;

  • buscar ajuda profissional quando houver sofrimento.


💬 "Fazer amigos leva tempo, e cada um tem o seu jeito. Se você quiser, eu estou aqui para pensar junto com você."


Sobre a autora


Paloma Garcia é terapeuta cognitivo-comportamental da infância e adolescência, neuropsicopedagoga e orientadora parental. É formada em Psicopedagogia (UNIFIEO), com pós-graduação em Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional (UNIP) e em Terapia Cognitivo-Comportamental da Infância e Adolescência (CETCC), e tem registro na SBNPp (nº 9947). Atende adolescentes e famílias desde 2016, hoje em formato on-line.


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